Ações do Facebook não frearam disseminação de fake news em 2020, aponta estudo

Ações do Facebook não frearam disseminação de fake news em 2020, aponta estudo

Por Felipe Demartini | Editado por Jones Oliveira | 25 de Março de 2021 às 11h11
Brett Jordan/ Unsplash

2020 foi o ano de um dos maiores esforços do Facebook em relação à desinformação, com mais de 4,5 bilhões de contas retiradas do ar e 180 milhões de alertas de desinformação exibidos ao lado de conteúdos taxados como falsos. O que mostra o relatório oficial da rede social, entretanto, é longe do suficiente, com uma nova pesquisa mostrando que o atraso na tomada de medidas, bem como o próprio comportamento do público, levou as fake news a terem um alcance significativo no ano passado — e, em bilhões de casos, evitável.

Os dados são da Avaaz, rede de mobilização civil online, que avaliou as 100 páginas e perfis mais ativos em operações de desinformação no Facebook. A principal conclusão é que, antes mesmo de o Facebook começar a agir, no segundo semestre de 2020, tais espaços já arrebanhavam mais de 10,1 bilhões de visualizações de conteúdos com informações falsas sobre a pandemia do novo coronavírus, a morte de George Floyd, os protestos do Black Lives Matter e a eleição presidencial americana, que aconteceu em novembro.

De acordo com o levantamento, em alguns casos, o nível de interação com as páginas foi maior do que o registrado por redes consolidadas de televisão, como a CNN. O pico desse engajamento aconteceu entre julho e agosto, no auge das manifestações do movimento negro, e de acordo com a Avaaz, poderia ter sido evitado se o Facebook tomasse atitudes mais cedo, pois já possuía sistemas de checagens de notícias e alertas em vigor, mas sem reduções no alcance, banimentos ou demais medidas contra a proliferação de fake news.

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A pesquisa aponta que a maior parte das páginas e perfis que aparecem entre os 100 mais ativos são de cunho político — 60 são de direita e 32 de esquerda, enquanto as oito restantes não tinham alinhamento claro. Segundo o estudo, 61% das publicações mais populares contendo desinformação vieram de páginas de direita, enquanto 62% dos engajamentos de usuários com conteúdos desse tipo também foram realizados por perfis desse grupo.

Entre os principais exemplos de desinformação que ganharam corpo mesmo após receberem alertas do Facebook estão as alegações de fraude nas eleições de 2020 e acusações graves contra o presidente eleito Joe Biden (Imagem: Reprodução/Avaaz)

O levantamento também mostra que, mesmo com as medidas de checagem de notícias e alertas, os conteúdos desinformativos ainda foram longe. As 100 postagens mais populares a conterem avisos desse tipo obtiveram, juntas, 162 milhões de visualizações, um total de engajamento maior do que o registrado pela mesma amostra em 2019. Segundo a Avaaz, essa também é uma demonstração de que, por mais que os sistemas do Facebook sejam capazes de agir contra as fontes originais, eles ainda têm problemas na hora de identificar contas duplicadas ou replicadoras de informação.

As atitudes consideradas insuficientes também aparecem quando se leva em conta os anúncios, uma categoria que o Facebook fez questão de afirmar que receberia escrutínio extra, principalmente, quando se tratavam da esfera política. Ainda assim, os pesquisadores encontraram mais de 100 propagandas alavancando informações falsas, com 52 milhões de visualizações acumuladas, sendo que metade das postagens vieram de candidatos ao Senado americano.

Eficácia reduzida

A conclusão da Avaaz é que o Facebook fez pouco para conter a desinformação na rede social, ainda que tenha tomado atitudes, principalmente no que toca os chamados de insurreição que surgiram após a eleição de Joe Biden. Além disso, a organização aponta que os dados estão relacionados apenas às 100 postagens e páginas mais populares, com grupos e outras publicações não sendo levados em conta, o que faria com que o resultado fosse ainda maior e mais assustador.

Em resposta, o Facebook afirmou que a pesquisa distorce o trabalho que vem sendo feito pela plataforma contra o discurso violento e desinformador. Segundo a empresa, a metodologia usada no levantamento é falha, já que a existência de uma postagem indicada como fake news não significa que toda uma página é problemática e deve ser retirada do ar. Ao mesmo tempo, a rede social agradeceu aos pesquisadores e disse ter removido 14 dos 118 espaços indicados no levantamento, afirmando que estes, efetivamente, estavam indo contra as políticas da plataforma.

A empresa afirma, ainda, ter feito mais do que qualquer outra no combate ao que chama de conteúdos nocivos, tendo retirado do ar conteúdos extremistas e voltados à desinformação sobre vacinas e a pandemia de COVID-19, assim como aqueles que tentaram interferir nas eleições de 2020. O Facebook admite que sua aplicação destas políticas pode não ser perfeita, mas disse trabalhar ao lado de especialistas para garantir o cumprimento das normas. Confira a íntegra do comunicado:

"Esse relatório distorce o trabalho sério que temos feito para lutar contra o extremismo violento, e contra a desinformação na nossa plataforma. A Avaaz usa uma metodologia falha para fazer as pessoas acreditarem que só porque uma Página compartilha um conteúdo que tenha sido considerado falso e verificado por uma das agências parceiras, todo o conteúdo daquela Página é problemático. Nós fizemos mais do que qualquer outra empresa de tecnologia para combater conteúdos nocivos, já tendo removido mais de 900 movimentos militarizados, e removemos dezenas de milhares de páginas, grupos e contas sobre QAnon dos nossos aplicativos. Também removemos milhões de conteúdos por violarem nossas políticas contra a Covid-19 e desinformação sobre vacinas, assim como removemos conteúdos que poderiam interferir nas eleições dos nossos aplicativos. Nossa aplicação das políticas não é perfeita, e é por isso que estamos sempre melhorando enquanto continuamente trabalhamos com especialistas externos para garantir que nossas políticas sigam atualizadas e equilibradas".

Fonte: Avaaz, Gizmodo  

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