7 melhores quadrinhos com política
Por Durval Ramos • Editado por Jones Oliveira |

Política é sempre um assunto delicado, principalmente quando invade o mundo da cultura pop e do entretenimento. Contudo, apesar de boa parte dos fãs torcer o nariz e reclamar sobre a discussão de pautas sociais em suas histórias de ficção, a verdade é que esses temas são mais do que presentes nas obras que a gente gosta. Muitas delas nascem dessas questões, enquanto outras dependem desse debate político para continuar existindo.
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Goste ou não, a verdade é que a política é inerente a tudo o que fazemos e consumimos — incluindo sua diversão. Parece um lugar comum, mas é uma verdade bastante perceptível. Afinal, o mundo pop (ou nerd, se preferir) é apenas um reflexo da sociedade e todas as tensões que temos no dia a dia vão impactar naquilo que consumimos. Caso contrário, seria algo descolado da sua realidade e distante de qualquer conexão com o público.
E não entenda política como algo apenas eleitoral. Ainda que, em alguns casos, ela esbarre nesse ponto, a questão é bem mais ampla e envolve discussões de cunho muito mais prático. São temas raciais, de gênero, sociais, de preconceito, de imigração, de violência urbana e tantas outras. Como dito, tudo é político e muito daquilo que você vai ver na ficção nada mais é do que um espelho dos temas que o mundo à sua volta está debatendo.
Os quadrinhos não fogem dessa regra. Na verdade, a própria ideia do super-herói é essencialmente política: a existência de alguém que vai combater o crime já expõe uma crítica à política de segurança pública naquele mundo. A partir daí, o tema pode ser mais ou menos complexificado, trabalhando o modo de agir do personagem ou mesmo suas motivações.
É uma abordagem que torna a mídia muito mais interessante e rica narrativamente, mostrando que ela é capaz de abordar temas complicados de forma lúdica, mas sem perder seu peso ou importância. E por mais que muita gente goste de chamar essa característica de “lacração” ou coisa que o valha, a verdade é que não faltam exemplos de títulos que exploram a questão política das formas mais variadas possíveis — e há muito mais tempo do que os reclamões costumam acreditar.
Assim, pensando justamente nesse tema, o Canaltech listou 7 quadrinhos que mostram que tem política nas HQs, sim.
7. Lanterna Verde e Arqueiro Verde
Um dos grandes clássicos da DC, a fase em que Lanterna Verde e Arqueiro Verde atuam juntos é um belo exemplo de como a temática política é uma parte fundamental da construção e da motivação de um super-herói. Mais do que isso, é a prova de como trazer assuntos reais para a ficção fantasiosa ajuda a tornar essas aventuras muito mais interessantes.
Ao longo de toda a fase encabeçada pela dupla Dennis O’Neil e Neal Adams, a discussão de temas sociais vira parte central da história. Acostumado a lidar com grandes desafios galácticos, o Lanterna Hal Jordan é confrontado por Oliver Queen para conhecer e entender realidade que os humanos enfrentam no dia a dia — e é quando ele passa a enxergar um mundo que desconhecia e ter suas convicções e ideologias abaladas.
São quase 50 edições publicadas durante toda a década de 1970 que abordam pautas bastante pertinentes à época — e que seguem muito atuais até hoje. Ao viajarem pelos Estados Unidos, a dupla se depara com questões como xenofobia, disputas sociais, lutas de classe e até mesmo a ineficiência do sistema de justiça americano.
E mais do que tratar desses assuntos a cada nova edição, essa fase de Lanterna Verde e Arqueiro Verde trabalha muito bem o contraste entre seus protagonistas. Além de ser um xerife do espaço com um anel mágico, Hal Jordan era um militar e sempre esteve muito alinhado ao governo e à imagem idealizada que o país sempre carregou. Contudo, tudo isso é posto em xeque quando o mundo real é esfregado na sua cara.
6. Capitão América: Sam Wilson
Em meados de 2015, a Marvel decidiu renovar boa parte do seu panteão de personagens e fez uma série de reformulações em diversos de seus heróis. Entre as mudanças que mais causaram barulho foi a transformação de Sam Wilson em Capitão América quando Steve Rogers perdeu (novamente) os poderes do soro do supersoldado.
Só que as causas que levaram o Falcão a assumir o manto do Sentinela da Liberdade geraram menos polêmica do que o fato em si. Muita gente criticou a decisão e é interessante ver como o próprio roteiro aborda a não aceitação do público em ter um homem negro assumindo o posto que, por gerações, pertecenceu a um loiro de olhos azuis. Uma mudança que, por si só, já foi um enorme dedo na ferida.
Além disso, Sam Wilson adotou uma postura bem mais combativa em histórias complexas que não se limitavam apenas a socar nazistas. A tônica principal dessa fase foi colocar o herói para lidar com questões sociais que estavam muito presentes na sociedade americana naquele momento, sobretudo relacionadas à imigração e à própria intolerância racial.
Outro ponto importante é que, já nas primeiras edições, o novo Capitão América fez questão de se afastar do governo e da própria S.H.I.E.L.D, destacando que ele representa o povo americano e não a Casa Branca em si — algo que Steve Rogers já tinha feito no passado sem causar todo esse reboliço.
Vale pontuar que essa mudança não foi pontual e que Wilson segue com o traje do Capitão América mesmo após o retorno de Steve. Assim, o universo Marvel segue com dois heróis dividindo o mesmo nome. De um lado, o veterano assume a alcunha de Sentinela da Liberdade, enquanto o ex-Falcão virou o Sentinela da Verdade. Além disso, essa transformação é algo que o cinema já trouxe e que veremos ser aprofundada no vindouro Capitão América: Nova Ordem Mundial.
5. Reinado Sombrio
Embora não seja uma saga tão lembrada quanto Guerra Civil — que também é bastante política, diga-se de passagem —, Reinado Sombrio foi um período bem interessante da Marvel que antecipou uma discussão que se tornou bastante pertinente no mundo todo uma década depois da sua publicação. E, mesmo assim, muitos leitores não percebem (ou não querem perceber) o forte teor político presente na história.
E, para entender toda essa conotação, é preciso voltar um tempo no passado e lembrar algumas das grandes sagas da Marvel. Em Guerra Civil, os heróis se dividiram por causa de uma lei que obrigava os mascarados a se registrarem para continuarem atuando, em um reflexo às leis adotadas pelos EUA na chamada Guerra ao Terror, no início dos anos 2000, em que algumas liberdades foram cerceadas em prol dessa luta contra o terrorismo.
Pouco tempo depois, o universo dos heróis lidou com a Invasão Secreta, quando se descobriu que metade da população heróica da editora era composta por skrulls e o clima de desconfiança nas instituições tomou conta, principalmente com a queda da S.H.I.E.L.D.
É na sequência disso que vem a saga Reinado Sombrio. Afinal, com essa paranoia de um inimigo sempre escondido é que surge um novo salvador: Norman Osborn. O vilão se apresenta como o responsável pela vitória contra os skrulls e, sendo o salvador da humanidade, conquista um enorme poder dentro do universo Marvel — e usa essa influência para aparelhar o sistema a seu favor e favorecer tanto seus próprios negócios quanto o de seus aliados.
E é desnecessário dizer o quanto essa narrativa é atual. A ascensão de Osborn personifica esse líder carismático que concentra poder e leva uma democracia rumo ao autoritarismo. Sob o nome de Patriota de Ferro, o vilão criou a imagem de uma ameaça constante e que somente ele e suas ações duras seriam capazes de lidar com essa crise iminente. Assim, ele passou a concentrar poder ao mesmo tempo em que tratou todas as formas de oposição — incluindo a ação dos heróis — como ação desse inimigo invisível.
4. Superman: Entre a Foice e o Martelo
O maior herói de todos é também um símbolo de como todo personagem é, em sua essência, político. A figura do alienígena que cai na Terra e é criado por pais americanos faz do Superman uma alusão bastante clara ao imigrante como eles ajudam a construir o sonho e o estilo de vida americano ao abraçar os valores tão arraigados na sua cultura.
E o que aconteceria se o Último Filho de Krypton caísse em outro canto do planeta? Essa ideia já foi explorada diversas vezes, mas é no clássico Entre a Foice e o Martelo que a temática é mais bem explorada. Afinal, Kal-El cai na União Soviética e isso é o suficiente para que sua formação seja diferente daquela que todos conhecem.
O peso político não está só no fato de termos um Superman comunista para assustar a família tradicional americana (e também a brasileira). É claro que o quadrinho traz o herói se transformando nesse símbolo do socialismo soviético e virando uma peça importante tanto da propaganda stalinista como uma peça-chave na disputa contra os Estados Unidos durante a Guerra Fria. Só que a HQ vai além.
Apesar dessa sua origem bem diferente, a história traz o personagem com a mesma essência de sempre — ou seja, inspirando a humanidade a ser melhor em uma tendência a fazê-la evoluir. E, enquanto essa ideia é louvada quando o Superman é americano, Entre a Foice e o Martelo mostra que o governo dos EUA vê esse ideal como um problema e passa a buscar maneiras de eliminar essa ameaça alienígena que habita Moscou. Não por acaso, o megaempresário Lex Luthor se torna a esperança americana de vencer esse extraterrestre devorador de criancinhas.
O quadrinho não perdoa nem mesmo o Batman. O Homem-Morcego aparece como um anarquista, ou seja, alguém que não confia em nenhum Estado e que se opõe a essa ideia do Superman como o novo líder da humanidade como um risco.
3. Demolidor
O Demolidor é outro personagem essencialmente político, mas que nem sempre seus leitores conseguem perceber essa questão tão presente nas entrelinhas. Tanto que é até complicado apontar uma história específica do herói com essa abordagem, já que quase todas elas carregam esse espírito crítico.
A começar pelo próprio conceito do Homem Sem Medo. O fato de ele ser um advogado durante o dia e um vigilante à noite já diz muita coisa sobre o próprio sistema de Justiça. Não são poucas as histórias em que um criminoso se safa do tribunal, seja pela falta de provas ou por corromper juízes ou jurados, fazendo com que o punho do Diabo da Cozinha do Inferno seja a solução encontrada para corrigir o problema. Se o sistema funcionasse, Murdock não precisaria se vestir de diabo toda noite.
Só que há outras passagens bem mais emblemáticas. Durante uma boa fase da vida de Matt Murdock, por exemplo, ele atuou como um advogado comunitário ajudando a vizinhança pobre do bairro a lidar com os abusos legais dos poderosos de Nova York. A especulação imobiliária era uma ameaça tão recorrente quanto o Mercenário — e, na maioria das vezes, ambas eram comandadas pelo mesmo Rei do Crime.
Aliás, a própria figura de Wilson Fisk é altamente política, embora nem tão aparente assim. Mesmo sendo um criminoso conhecido há décadas, ele segue sendo esse poderoso bilionário que manda e desmanda na cidade, mostrando bem o quanto o dinheiro é capaz de comprar sua imagem perante a opinião pública. Não por acaso, o vilão foi eleito prefeito da cidade e usou seu posto para tornar a vida dos heróis em um inferno.
Além disso, na fase escrita por Chip Zdarsky, o Demolidor embarcou em tramas ainda mais sociais e pegando pesado nessa crítica política. Murdock se dá conta de como sua luta contra os bandidinhos da Cozinha do Inferno é inútil, ainda mais quando há figuras influentes financeira e politicamente querendo que a cidade se deteriore para otimizar seus ganhos — e que é nesses peixes grandes que ele precisa mirar.
2. V de Vingança
Um dos clássicos quadrinhos quando o assunto é política, não há como falar de V de Vingança sem abordar o tema. Afinal, o personagem mascarado atua contra um governo autoritário e é inspirado em uma figura histórica também bastante controversa. Além do mais, todo o discurso desse protagonista é tão poderoso que quebrou todas as barreiras possíveis que um gibi poderia trazer.
Uma das obras-primas de Alan Moore, a HQ traz esse personagem lutando contra esse país claramente fascista e autoritário. Com total controle da mídia, uma polícia secreta espionando seus cidadãos e uma clara perseguição a minorias sexuais e raciais, essa nação vê no herói (se é que podemos chamá-lo assim) V seu grande opositor, ainda mais quando ele não mede esforços para derrubar o governo.
Para começo de conversa, a construção desse país opressor é uma crítica bem clara de Moore à própria Inglaterra dos anos 1980. Na época, o país era comandado pela primeira-ministra Margaret Thatcher, cuja política conservadora e neoliberal acentuou as desigualdades sociais a ponto de ela ser odiada por uma boa parcela da população. E o que o autor faz em V de Vingança é usá-la como base para criar esse regime vilanesco.
Há também o fato de que o próprio V é um anarquista que questiona a própria existência do Estado em si e que adota métodos que podem ser vistos como terroristas para conseguir enfraquecer o governo. Por isso que sua máscara de Guy Fawkes, o homem que tentou explodir o parlamento no século 18, é tão significativa.
De maneira bem ampla, V de Vingança é recheado dessa conotação política em cada um de seus quadros. Todo o discurso de V, duas ações e motivações carregam esse ideal com um discurso bastante forte e poderoso — como a ideia de que o governo é quem deve temer o seu povo, e não o contrário.
1. X-Men: Deus Ama, o Homem Mata
Uma das equipes mais famosas da Marvel, os X-Men têm a política incrustada em seu DNA de maneira ainda mais profunda do que o próprio gene X. A ideia de um grupo de heróis pertencentes a uma minoria que é perseguida é uma alusão bem óbvia a uma infinidade de grupos sociais, o que justifica o fato de os mutantes serem atuais até hoje.
Aliás, os personagens nascem em um momento em que esse tipo de discussão era muito forte nos Estados Unidos. Os heróis vão aparecer pela primeira vez em 1963, no auge do movimento dos direitos civis no país e na luta contra o racismo encabeçado por Martin Luther King — tanto que as comparações entre ele e Xavier são bem pertinentes, assim como entre Malcom X e Magneto.
Mas há uma HQ em específico dos X-Men que simboliza todo esse debate. Em X-Men: Deus Ama, o Homem Mata, a dupla Chris Claremont e Brent Eric Anderson, vemos os heróis lidando não com um supervilão poderoso ou uma ameaça cósmica. Na verdade, eles são confrontados por uma ideologia supremacista comandada por um pastor evangélico.
A história é bem curta e foca nas consequências desse discurso religioso que demoniza o diferente. Assim, os mutantes passam a ser vistos como aberrações da criação divina e a fé é usada como instrumento para um discurso de ódio que logo descamba para a violência. Já nas primeiras páginas, um grupo de fiéis assassina uma criança mutante sob o pretexto de estar fazendo o trabalho de Deus.
É um quadrinho muito poderoso e atual que mostra como a religião pode ser manipulada para propagar ideias perigosas que vão resultar em violência. E não é difícil traçar um paralelo entre os mutantes e quaisquer outras minorias perseguidas.