Brasileiro premiado pela Sony avalia o futuro da fotografia com IA
Por Marcelo Fischer Salvatico | •

A inteligência artificial e os avanços em equipamentos digitais alteraram a dinâmica de produção e consumo de imagens. O fotógrafo brasileiro Gui Christ, eleito o melhor na categoria de retratos do Sony World Photography Awards, abordou essas transformações no Podcast Canaltech desta quarta-feira (8).
🎧Ouça o Podcast Canaltech no Spotify
🎧Ouça o Podcast Canaltech na Deezer
🎧Ouça o Podcast Canaltech no Apple Podcasts
Ele foi o primeiro brasileiro a vencer uma categoria nos 17 anos de história da premiação internacional.
A tecnologia no processo criativo
Christ utiliza ferramentas digitais em diversas etapas do seu trabalho. A IA atua na pré-produção para a criação de storyboards, permitindo antecipar problemas de iluminação e enquadramento de projetos documentais.
Durante a captura, algoritmos de IA integrados aos sistemas de autofoco das câmeras minimizam as chances de erro em situações de movimento rápido, rastreando objetos mesmo quando estes viram de costas ou cruzam obstáculos.
O profissional, que integra o programa Alpha Partners da Sony, participa ativamente do desenvolvimento de novos produtos junto aos engenheiros da fabricante japonesa. Segundo ele, o equipamento profissional continua sendo fundamental, mesmo com o avanço tecnológico das câmeras de smartphones modernos.
Ele compara o uso de um celular na fotografia profissional a colocar um piloto para correr com um Fusca em vez de um carro de Fórmula 1. A diferença reside em três pilares técnicos principais: a qualidade óptica das lentes intercambiáveis, o tamanho e a resolução do sensor de imagem, e a capacidade bruta de processamento da máquina.
Inteligência artificial e a materialidade da imagem
A geração de imagens hiper-realistas por algoritmos reacendeu o debate sobre o que constitui uma fotografia contemporânea. Para o fotógrafo, a situação atual assemelha-se ao desafio enfrentado pelos pintores há cerca de 200 anos, quando a câmera fotográfica foi inventada e automatizou a reprodução visual.
"Segmentos onde a imagem não tem necessidade de ser real, como um encarte de supermercado, você pode fazer com inteligência artificial", explica Christ, destacando a independência da verdade física nestes casos.
Por outro lado, áreas que dependem da validação factual, como o fotojornalismo e a fotografia científica, permanecem protegidas por trabalharem diretamente com a materialidade e possuírem a chancela da sociedade.
Cultura visual na economia da atenção
A superexposição a imagens em redes sociais reduz o tempo de contemplação do usuário a poucos segundos, limitando a retenção das informações visuais apresentadas nas telas.
Christ aconselha estudantes e novos profissionais a buscarem referências e conhecimentos técnicos no meio analógico, visitando exposições, museus e consultando livros. Essa prática ajuda o criador a contornar o filtro de tendências temporárias imposto pelos algoritmos das plataformas digitais.
"Temos que pensar um jeito de a coisa continuar depois de 15 minutos e ser lembrada", afirma o fotógrafo sobre a longevidade do trabalho.
A quebra da lógica pautada na economia da atenção e na busca imediata por curtidas é o caminho correto para produzir trabalhos com relevância mercadológica, capacidade de preservação histórica e impacto social duradouro.
🎙️Confira o episódio completo no Podcast Canaltech: