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Tarifaço dos EUA: celulares e notebooks vão ficar mais caros no Brasil?

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donald trump assinando um documento
Reprodução/Casa Branca

A tarifa de 25% anunciada pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros entra em vigor em 22 de julho e afeta uma extensa lista de exportações do Brasil para o mercado estadunidense.

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A medida, porém, não significa que celulares, notebooks, tablets e outros eletrônicos vendidos no Brasil vão ficar automaticamente mais caros.

O motivo é simples: a tarifa recai sobre o que o Brasil exporta aos EUA, não sobre o que o país importa. A maior parte dos eletrônicos comercializados no varejo brasileiro vem da Ásia, principalmente China e Vietnã, ou é montada em território nacional, na Zona Franca de Manaus.

Impactos indiretos ainda podem ocorrer, ligados ao câmbio, à percepção de risco sobre o Brasil e a uma eventual resposta do governo brasileiro por meio da Lei de Reciprocidade Econômica.

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Abaixo, o Canaltech responde às principais dúvidas sobre os impactos do "tarifaço" nos eletrônicos e no comércio digital:

  • Os eletrônicos vão ficar mais caros após o tarifaço?
  • O que acontece se a Lei da Reciprocidade entrar em vigor?
  • O que muda para as compras online?
  • O Pix é o culpado pelo tarifaço?
  • Por que os EUA tarifaram o Brasil?

Os eletrônicos vão ficar mais caros após o tarifaço?

Não imediatamente. O tarifaço incide sobre produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, entre eles etanol, vestuário, calçados, máquinas agrícolas e itens manufaturados, segundo lista divulgada pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR).

Celulares, notebooks e tablets vendidos no Brasil não entram nessa conta, porque o fluxo é o oposto: o país compra esses produtos de fora, não os exporta aos estadunidenses.

Ricardo Schirmer, sócio do Unikowski Advogados, explica que a nova cobrança atinge quem exporta do Brasil para os EUA, não quem compra eletrônicos no varejo nacional.

"O aparelho que o consumidor brasileiro compra não é exportado do Brasil para os Estados Unidos, o Brasil é um forte importador desses produtos", afirma em entrevista ao Canaltech.

Ainda assim, existem caminhos indiretos para o consumidor sentir o efeito da tarifa.

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Uma eventual valorização do dólar, provocada pela piora da percepção de risco sobre a economia brasileira, encarece componentes importados, como semicondutores, telas e chips, cotados em dólar.

Custos logísticos mais altos e uma possível retaliação brasileira completam a lista de fatores que poderiam pressionar preços, embora nenhum deles decorra diretamente da tarifa anunciada pelos EUA.

Maioria dos eletrônicos vendidos no Brasil não vem dos EUA

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Os Estados Unidos têm participação pequena na cadeia de fornecimento de eletrônicos do mercado brasileiro. Segundo nota técnica do Ministério da Fazenda, a China responde por cerca de 46% dos celulares importados pelo Brasil, seguida pelo Vietnã, com 7,9%.

Boa parte dos aparelhos vendidos no país, porém, nem chega a ser importada: 95% dos smartphones comercializados no Brasil em 2025 foram montados localmente, a maioria na Zona Franca de Manaus, com peças importadas.

Notebooks seguem lógica parecida, com forte dependência de componentes fabricados na Ásia. Chips, telas e outras peças usadas na montagem de computadores e celulares no Brasil também têm origem majoritariamente asiática, o que reforça a distância entre o tarifaço dos EUA e o preço final desses produtos no varejo nacional.

Essa distribuição de fornecedores explica por que a tarifa anunciada pelos Estados Unidos não altera diretamente a cadeia de abastecimento das varejistas brasileiras. Olívia Flôres, CEO da Magno Investimentos, resume:

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"O imposto americano incide sobre produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos, e não sobre celulares produzidos na Ásia ou notebooks vendidos no varejo brasileiro".

O que acontece se a Lei da Reciprocidade entrar em vigor?

Ela pode mudar esse cenário, mas não torna automaticamente todos os produtos mais caros.

A Lei de Reciprocidade Econômica foi aprovada pelo Congresso Nacional em abril de 2025 e sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva três meses depois, na mesma semana em que Donald Trump havia anunciado tarifas de 50% sobre produtos brasileiros.

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O texto permite ao governo brasileiro suspender concessões comerciais e elevar tarifas sobre produtos de países que imponham barreiras contra o Brasil.

Nesta quinta-feira (16), o Governo Federal confirmou que vai retomar os trâmites para acionar o mecanismo, suspenso após trégua anterior dos EUA. Caso a retaliação avance, alguns eletrônicos importados do país estadunidense, softwares corporativos e máquinas industriais podem sofrer aumento de custo. Olívia Flôres detalha o alcance da medida.

"Equipamentos tecnológicos, softwares corporativos, máquinas industriais, produtos químicos, medicamentos e componentes eletrônicos importados dos Estados Unidos poderão sofrer aumento de custos, que tende a ser repassado ao consumidor ao longo do tempo", afirma.

A própria lei prevê limites para essa retaliação. O decreto que a regulamenta determina que as medidas de resposta devem minimizar o impacto sobre a atividade econômica brasileira e evitar custos administrativos desnecessários, o que reduz a chance de um reajuste generalizado e imediato em toda a cadeia de eletrônicos.

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O que muda para as compras online?

Não há motivo para esperar reajustes automáticos em lojas como Magalu, Amazon e Mercado Livre.

Essas varejistas trabalham majoritariamente com produtos vindos da Ásia, fora do escopo da tarifa americana, e um eventual aumento de preços dependeria de fatores distintos do tarifaço em si.

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Ricardo Schirmer aponta o caminho mais provável para qualquer reajuste: "Para o consumidor brasileiro, um eventual aumento seria indireto, decorrente sobretudo de efeitos sobre o aumento do preço do dólar ou por eventual retaliação do governo brasileiro". O câmbio, o custo de frete internacional e a logística global pesam mais nesse cálculo do que a tarifa anunciada pelos EUA.

A lógica vale também para roupas, calçados e eletrodomésticos vendidos no varejo brasileiro. Como a maior parte desses itens tem origem em fornecedores asiáticos, o tarifaço americano não altera diretamente seus custos de importação. Um reajuste generalizado nessas categorias só ganharia força caso o Brasil aplicasse a Lei de Reciprocidade sobre produtos originários dos Estados Unidos.

O Pix é o culpado pelo tarifaço?

Não. O sistema de pagamentos instantâneos aparece na investigação dos EUA, mas é apenas um dos argumentos usados pelo USTR para justificar o tarifaço.

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O órgão também citou etanol, regulação de plataformas digitais, propriedade intelectual, combate à corrupção e desmatamento entre as práticas consideradas prejudiciais aos interesses americanos.

O economista Roberto Kanter, professor da FGV, considera exagerado atribuir ao Pix o peso da decisão do governo de Donald Trump. "A importância do PIX é puramente o marketing. É uma justificativa criada", afirma.

Segundo ele, o impacto do sistema brasileiro sobre bandeiras estadunidenses de cartão, como Visa e Mastercard, é pequeno diante do volume total de comércio entre os dois países.

Reduzir a crise comercial ao Pix ignora o restante do processo, que envolve acusações sobre tarifas preferenciais concedidas pelo Brasil a México e Índia, decisões do Supremo Tribunal Federal contra plataformas digitais e um índice de percepção de corrupção citado pelo USTR.

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Afinal, por que os EUA tarifaram o Brasil?

A decisão não foi motivada apenas pelo Pix. O tarifaço resulta de uma investigação de um ano conduzida pelo USTR com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo que permite ao governo do país norte-americano apurar práticas comerciais consideradas por eles como desleais em outros países.

O relatório final classificou políticas brasileiras como irracionais ou restritivas em sete frentes: Pix, ações do Supremo Tribunal Federal contra big techs, tarifas preferenciais a outros parceiros comerciais, desmatamento, etanol, propriedade intelectual e corrupção.

O governo brasileiro rejeita as acusações. Em nota, classificou a decisão estadunidense como um "marco lastimável" nas relações entre os dois países e afirmou que vai acionar tanto a Lei de Reciprocidade quanto o mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.