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Risco à privacidade: MPF e ANPD são acionados para investigar óculos da Meta no Brasil

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zuckerberg usando óculos rayban meta
Divulgação/RayBan

O Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) e a organização Coding Rights protocolaram nesta quinta-feira (20) uma representação contra os óculos inteligentes Ray-Ban Meta no Brasil. O documento foi enviado à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e ao Ministério Público Federal (MPF).

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As entidades pedem que os três órgãos investiguem, de forma coordenada, se a comercialização do produto respeita a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Código de Defesa do Consumidor (CDC). O pedido também foi encaminhado ao Ministério da Justiça.

Câmera discreta é o principal alvo da representação

Os óculos chegaram ao Brasil em setembro de 2025 e são vendidos por R$ 3.990 no site da Ray-Ban. O dispositivo tem câmeras, microfones e alto-falantes embutidos na armação e permite tirar fotos, gravar vídeos, captar áudio, atender ligações e transmitir conteúdo diretamente para redes sociais.

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Recursos de inteligência artificial, como tradução em tempo real e respostas sobre o ambiente observado pelo usuário, também estão disponíveis. Para o Idec e a Coding Rights, o problema central está na dificuldade de quem está ao redor perceber que está sendo filmado. Um celular precisa ser erguido para registrar uma cena. Os óculos dispensam esse gesto, o que torna a gravação mais discreta.

O equipamento tem um LED que acende durante a captura de imagens. As entidades afirmam que a luz é pequena e pouco perceptível, e que pode ser desativada com modificações físicas no aparelho, ensinadas em tutoriais disponíveis na internet.

Dados captados podem treinar modelos de IA

O ofício também questiona o destino das imagens e dos áudios registrados pelos óculos. Segundo as entidades, esse material pode ser enviado aos servidores da Meta e usado no treinamento de sistemas de inteligência artificial, com revisão e rotulagem por prestadores de serviços terceirizados. A alegação se baseia em reportagens do jornal sueco Svenska Dagbladet.

Em março, a Justiça Federal da Califórnia já havia recebido uma ação coletiva contra a Meta e a EssilorLuxottica, dona da Ray-Ban, por suposta falta de informação aos consumidores sobre esse envio de vídeos a terceirizados, segundo apurou a Bloomberg.

Reconhecimento facial preocupa entidades

A funcionalidade de reconhecimento facial não está disponível nos óculos atualmente, mas as entidades citam indícios de que a tecnologia já foi testada pela empresa.

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A revista Wired encontrou no sistema operacional do dispositivo um trecho de código chamado "name tag", associado ao programa de reconhecimento facial usado no Instagram e no Facebook. A Meta removeu o código após ser contatada pela publicação.

A empresa também solicitou, em fevereiro, o registro de uma patente para óculos com reconhecimento facial no Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos (USPTO), documento divulgado pelo Cnet. Em 2024, dois pesquisadores do MIT já haviam demonstrado que o dispositivo podia ser adaptado para essa finalidade transmitindo vídeo ao vivo no Instagram com um filtro de reconhecimento facial.

Casos de uso indevido reforçam o pedido

A representação cita episódios concretos para sustentar o pedido de investigação. Em Salvador, um médico ginecologista foi denunciado por usar os óculos durante o atendimento a uma paciente e chegou a ser preso em flagrante. A prisão foi anulada depois que a Justiça não encontrou imagens armazenadas no aparelho, embora a defesa tenha admitido o uso do equipamento na consulta.

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Os óculos também têm sido usados em vídeos de "pegadinhas" que circulam nas redes sociais, muitas vezes gravando pessoas em locais públicos sem que percebam. Em julho, o chefe do Instagram, Adam Mosseri, anunciou o banimento desse tipo de conteúdo na plataforma, mas os vídeos continuam circulando em outras redes sob hashtags como #rizz e #pegadinha.

O que as entidades pedem às autoridades

Idec e Coding Rights solicitam a abertura de investigações pela ANPD, pela Senacon e pelo MPF, além de uma análise dos riscos do produto para consumidores e para terceiros que podem ser filmados sem saber. As organizações também pedem a criação de mecanismos que permitam a essas pessoas exercer os direitos garantidos pela LGPD, como solicitar a exclusão de imagens.

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Outro pedido é a proibição da ativação de recursos de reconhecimento facial no dispositivo sem autorização prévia das autoridades brasileiras. As entidades sugerem ainda que o MPF avalie a abertura de uma ação civil pública com pedido de indenização por danos morais coletivos, caso irregularidades sejam confirmadas.

Meta diz que privacidade foi incorporada desde o início

Em nota, a Meta afirmou que a privacidade foi considerada desde o desenvolvimento dos óculos. Segundo a empresa, todos os pares contam com um LED de captura que pisca durante o registro de fotos ou vídeos, não pode ser desligado pelo usuário e desativa a câmera caso alguém cubra ou danifique a luz.

A companhia também negou que o reconhecimento facial seja uma funcionalidade disponível nos óculos atualmente. A Meta acrescentou que o dispositivo é usado para ouvir música, fazer traduções simultâneas e realizar ligações com as mãos livres, e que cabe aos usuários cumprir a legislação ao utilizar o equipamento.

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O debate sobre privacidade nos óculos inteligentes também avança fora do Brasil. Mais de 7 milhões de unidades foram vendidas no mundo em 2025, e autoridades de proteção de dados na Alemanha estudam medidas para impedir filmagens ocultas e aplicar multas em casos de uso irregular.