Especial Crowdfunding: destrinchamos o mercado das 'vaquinhas digitais'

Por Stephanie Kohn | 31.07.2017 às 06:45

Para os mais antenados o termo ‘crowdfunding’ já é bastante conhecido, mas para quem ainda não está familiarizado, basta pensar em uma ‘vaquinha digital’. Pois é, o crowdfunding é um financiamento coletivo feito pela internet que está presente no Brasil há seis anos e que, segundo Murilo Farah, co-fundador do Benfeitoria, ultrapassou a barreira de R$ 100 milhões em 2016.

Dentro do crowdfunding existem inúmeras modalidades, a mais popular é o financiamento coletivo pontual em que é preciso levantar um valor X para iniciar o projeto. Neste caso, todo o projeto tem uma meta mínima e recompensas para cada faixa de colaboração, de R$ 50 a R$ 100, por exemplo. Se ao final do período da campanha o valor for arrecadado, o dinheiro vai para o autor da ideia e ele distribui as recompensas àqueles que ajudaram. Caso o projeto não alcance a meta mínima, o montante volta aos colaboradores.

Outro modelo de crowdfunding é o financiamento coletivo recorrente, que como o próprio nome sugere, o projeto tem metas de arrecadação todos os meses e promete algum tipo de realização toda a vez que cumpre o objetivo. Murilo explica que a campanha é constante e os colaboradores se tornam assinantes pela faixa escolhida. A cada faixa batida o projeto realiza alguma entrega. “Dessa forma o projeto ganha mais poder de financiamento e aprofunda a relação com seus apoiadores”, ressalta.

Cada plataforma de crowdfunding acaba criando sua modalidade. No caso da Benfeitoria, eles apostaram no matchfunding. O funcionamento é bem simples: para cada real que uma pessoa colocar em um projeto, o patrocinador coloca mais um real. Ou seja, se o projeto arrecadar R$ 25 mil através da multidão, o patrocinador coloca mais R$ 25 mil na conta. Grandes empresas já participaram da novidade, como Natura e Itaú.

Já a Kickante oferece uma “campanha flexível” em que o autor do projeto leva o que arrecada mesmo que não atinja a meta estabelecida. A contrapartida é uma taxa de administração maior do que nas campanhas tradicionais.

Lá eles também criaram um terceiro modelo de negócio voltado para ONGs. “O Eventos do Bem, que tem mais de 300 ONGs cadastradas na plataforma, permite que terceiros que se sensibilizam com a causa iniciem uma campanha de arrecadação de fundos para esta organização. O valor arrecadado é enviado diretamente para a
instituição, evitando, assim, o risco de fraudes”, explica Candice Pascoal, CEO.

Ainda neste cenário encontramos também o equity crowdfunding que substitui a recompensa por quotas/ações de startups.

Vantagens

O crowdfunding não oferece apenas benefícios aos realizadores, mas aos colaboradores também. Para Murilo, os autores dos projetos conseguem aprofundar a relação com consumidores e a rede, já os apostadores se sentem parte de algo que acreditam e tem acesso a experiências, produtos e serviços diferenciados. “E tem benefícios ao mundo também, podemos o CF dissemina uma nova cultura através de valores como confiança, colaboração, cuidado e criatividade", comenta.

Candice também lembra que pelo financiamento coletivo os realizadores tem uma forma eficaz e positiva de apresentar seu projeto, e inclusive já verificar como ele é aceito pelos consumidores, como um teste de mercado sem custo. "Vale ressaltar a possibilidade de fazer uma pré-venda sem risco ou custo inicial, contando com uma equipe de experts gratuitamente.”

Murilo concorda e reforça: "ainda há redução de risco do empreendimento já que os autores dos projetos validam a proposta sem nenhum investimento prévio e só produzem as recompensas com o dinheiro no bolso."

“Nos conformes”

Apesar de quase uma década no país foi somente na primeira quinzena de julho que o crowdfunding foi regulamentado. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) deu sinal verde para a captação de investimentos por micro e pequenas empresas via crowdfunding e equity crowdfunding.

A regulamentação permite que empresas com receita anual de até R$ 10 milhões realizem ofertas por meio de financiamento coletivo na internet. Uma das condições é que este tipo de oferta somente ocorra por meio de plataformas que passarão pelo processo de autorização junto à autarquia. 

Vale reforçar que a nova norma não regulamenta a modalidade que tem como contrapartida o oferecimento recompensas (brindes, bens ou serviços) somente aquelas que possibilitam a conversão do valor investido em participação societária. Para o especialista Ricardo Vieira, sócio do BTLAW, a inovação regulatória pode gerar um crescimento significativo de novos negócios coletivos.

Tupiniquins digitais

Mais de R$ 180 milhões já foram doados no Brasil por meio de plataformas de crowdfunding tradicional, sendo um terço desse total apenas no ano de 2016. Veja abaixo os números em torno das plataformas do país:

Na próxima matéria do Especial Crowdfunding, vamos contar histórias de quem se arriscou na ‘vaquinha digital’ e se deu bem e mal.

Com informações do SEBRAE e StartSe.