Do jogo ao trabalho: o que os games ensinam sobre liderança e desenvolvimento profissional
Por Paulo Fernandes |
:quality(85)/e04dfe26-d7f4-4de4-a4ce-d8032458ef90.jpg)
Ao longo da minha carreira, aprendi que liderar não significa ter todas as respostas, mas saber tomar decisões mesmo quando as informações são incompletas, adaptar a estratégia quando o cenário muda e confiar nas pessoas que estão ao seu lado. Essas são habilidades que desenvolvi e observei no ambiente profissional, mas que também fazem parte de outra experiência que me acompanha há quatro décadas: os games.
Durante muito tempo, os jogos foram vistos como uma atividade de lazer, separada da vida profissional e do desenvolvimento de competências. Essa visão vem mudando à medida que os games conquistam espaço na cultura e na rotina de diferentes gerações. Ainda assim, acredito que existe uma oportunidade pouco explorada pelas empresas: entender o que as pessoas aprendem quando se dedicam a uma atividade por vontade própria e como esse repertório pode contribuir para a formação de bons profissionais e líderes.
Segundo o Snapshot GC 2026, levantamento realizado pela Gamers Club no primeiro semestre deste ano, 97,4% dos entrevistados jogam por mais de uma hora por dia, enquanto 34% afirmam buscar constantemente desafios para superar a si mesmos e aprimorar seu desempenho. Esse nível de envolvimento ajuda a explicar como o interesse genuíno pode impulsionar o aprendizado: quem gosta do que faz tende a buscar conhecimento, praticar, testar estratégias, reconhecer erros e tentar novamente. É um ciclo de evolução contínua que as empresas procuram estimular no ambiente de trabalho, mas que também se desenvolve espontaneamente em atividades realizadas por prazer, como os jogos.
Como os games ajudam a desenvolver habilidades de liderança
Nos jogos competitivos, esse aprendizado se traduz em habilidades que também fazem diferença na vida profissional. Uma decisão precisa ser tomada em poucos segundos, a comunicação entre os integrantes da equipe deve ser objetiva e a estratégia nem sempre sobrevive ao primeiro contato com o adversário. Quando isso acontece, é preciso avaliar o cenário, entender o que mudou e encontrar outro caminho. Não há garantia de que o plano inicial dará certo, e insistir nele apenas porque foi a primeira escolha pode comprometer o resultado.
O ambiente profissional não é tão diferente. Mercados mudam, projetos encontram obstáculos e decisões precisam ser revistas diante de novas informações. Para quem ocupa uma posição de liderança, a capacidade de reconhecer essas mudanças é tão importante quanto planejar. Um bom líder não é aquele que nunca precisa alterar a rota, mas aquele que consegue entender quando isso é necessário e mobilizar a equipe para seguir em frente.
Outro aprendizado importante está na maneira como lidamos com os erros. Nos jogos competitivos, é comum rever uma partida para identificar o que poderia ter sido feito de outra forma. O objetivo dessa análise não deveria ser encontrar um culpado, mas entender quais decisões prejudicaram o desempenho e o que pode ser ajustado na próxima tentativa. O resultado se transforma em informação, e a informação ajuda a equipe a evoluir.
Levar essa lógica para as empresas exige uma mudança de postura. Quando o erro é tratado apenas como motivo de punição, as pessoas tendem a evitar riscos, esconder problemas e deixar de compartilhar dúvidas. Isso limita o aprendizado coletivo. Na minha experiência, a capacidade de manter a calma diante de uma falha, reconhecer o que aconteceu e definir os próximos passos vale muito mais do que tentar sustentar a imagem de alguém que sempre tem razão. Liderar também é criar um ambiente em que as pessoas possam assumir responsabilidades e aprender com o que não funcionou.
Os jogos também mostram que o desempenho individual tem limites. Em uma equipe, não basta que uma pessoa execute uma boa jogada se os demais integrantes não compreenderem a estratégia ou não souberem como contribuir. O resultado depende de comunicação, confiança e clareza sobre o papel de cada um. Essa percepção é especialmente relevante em organizações nas quais diferentes áreas precisam trabalhar juntas, muitas vezes com profissionais que têm experiências, repertórios e formas de pensar bastante distintas.
As habilidades profissionais vão além do currículo
É por isso que considero importante ampliar a maneira como as empresas enxergam o desenvolvimento profissional. Currículo, formação acadêmica e experiência continuam sendo referências fundamentais, mas não contam toda a história de uma pessoa. Hobbies, projetos pessoais e atividades realizadas por interesse próprio também podem revelar disciplina, capacidade de concentração, curiosidade, resiliência e facilidade para trabalhar em grupo. Essas experiências não garantem, por si só, que alguém será um bom líder, mas podem oferecer pistas valiosas sobre suas competências e seu potencial de desenvolvimento.
As empresas podem começar essa aproximação de maneira simples, criando oportunidades para que os profissionais compartilhem interesses, reconhecendo aprendizados adquiridos fora do trabalho e explorando novas formas de interação entre as equipes. O objetivo não é transformar todo hobby em treinamento corporativo, nem presumir que qualquer pessoa que joga desenvolveu automaticamente determinadas habilidades. É reconhecer que o aprendizado não acontece apenas em cursos, reuniões ou programas formais de capacitação.
Depois de mais de 28 anos de carreira e 40 anos como gamer, vejo nos jogos uma oportunidade de refletir sobre questões que vão muito além do entretenimento. Eles nos colocam diante de desafios, exigem escolhas, mostram as consequências de nossas ações e nos convidam a tentar novamente. No fim, a experiência ensina que evolução depende menos de acertar sempre e mais da disposição para aprender com cada resultado.
Aproveite para ler também: quando a IA passa a agir por você, quem passa a cuidar dos seus dados?