Aluguel bilionário: Google fecha contrato com SpaceX por infraestrutura de IA
Por Marcelo Fischer Salvatico |

O Google vai pagar US$ 920 milhões (cerca de R$ 4,76 bilhões) por mês à SpaceX a partir de outubro, em um contrato que se estende até junho de 2029. O acordo, divulgado em documento regulatório na última sexta-feira (5), garante ao grupo acesso a cerca de 110 mil GPUs da Nvidia, além de CPUs, memória e outros componentes instalados nos data centers da empresa de Elon Musk.
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A justificativa oficial veio de um porta-voz do Google Cloud. O contrato existe para "garantir capacidade de ponte diante da demanda crescente pela plataforma de agentes Gemini Enterprise, que foi ainda maior do que o esperado". A empresa lançou o Gemini Enterprise, voltado a grandes corporações, em outubro do ano passado.
Aluguel de emergência
A explicação do Google posiciona o contrato como uma medida temporária, e os termos do acordo reforçam esse caráter. Ambas as partes podem rescindi-lo com 90 dias de aviso prévio após 31 de dezembro de 2026. Até setembro deste ano, o acesso aos equipamentos será feito de forma gradual, com tarifa reduzida.
O documento registra ainda uma cláusula de proteção ao Google. Se a SpaceX não conseguir entregar o volume acordado de GPUs até 30 de setembro de 2026, o contratante poderá encerrar o acordo imediatamente ou aceitar o número disponível com redução proporcional no valor mensal, após um período de carência de um mês.
A posição do Google contrasta com a da Anthropic, que fechou um acordo similar com a SpaceX em maio. A fabricante do Claude tinha restrições significativas de capacidade antes do contrato e elevou seus limites de uso no mesmo dia em que o acordo foi anunciado. O Google, por sua vez, é apontado por algumas estimativas como o maior proprietário individual de infraestrutura de IA do mundo.
Segundo grande contrato da SpaceX
O acordo com o Google é o segundo firmado pela SpaceX no mercado de aluguel de infraestrutura desde sua fusão com a xAI, concluída em fevereiro por uma avaliação conjunta de US$ 1,25 trilhão.
O primeiro foi com a Anthropic: US$ 1,25 bilhão por mês para uso de toda a capacidade disponível no data center Colossus 1, localizado em Memphis, no Tennessee. O contrato com o Google corresponde a aproximadamente metade desse volume de processamento. A SpaceX não especificou qual data center será utilizado pelo Google.
Musk já havia indicado publicamente que o Colossus 2 seria reservado para as operações da própria xAI, divisão de inteligência artificial da SpaceX que desenvolve o modelo Grok.
O negócio chega em momento estratégico, já que a SpaceX deve ter suas ações listadas na Nasdaq nas próximas semanas, com expectativa de captar cerca de US$ 75 bilhões a uma avaliação de aproximadamente US$ 1,75 trilhão, o que seria o maior IPO da história. Os contratos de aluguel de capacidade computacional com terceiros integram a tese de que a empresa pode monetizar os data centers construídos originalmente para a xAI.
Gastos crescentes do Google
Do lado do Google, o contrato se insere em um ciclo de expansão agressiva de gastos. A Alphabet revisou em abril sua previsão de despesas de capital para entre US$ 180 bilhões e US$ 190 bilhões neste ano, acima da estimativa anterior de até US$ 185 bilhões, e sinalizou que o valor deve "aumentar significativamente" em 2027.
Para financiar parte dessa expansão, a empresa anunciou na última semana a emissão de US$ 85 bilhões em ações, incluindo um aporte de US$ 10 bilhões da Berkshire Hathaway.
O Google é também investidor de longa data na SpaceX. Sua participação na empresa de Musk data de 2015, quando a companhia valia US$ 12 bilhões. Com o IPO avaliando a SpaceX em US$ 1,75 trilhão, a fatia da Alphabet deve ultrapassar US$ 100 bilhões.
O acordo inclui ainda uma camada de ironia corporativa: há cinco anos, os papéis eram invertidos. Em 2021, foi o Google que forneceu infraestrutura de computação e rede à SpaceX para suportar o serviço de internet via satélite Starlink, com estações terrestres instaladas nos data centers do grupo.