Fomos à Ongame ver de perto como funciona uma publicadora de jogos

Por Wagner Wakka | 25 de Julho de 2019 às 13h40
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Quando a Ongame nasceu em 2004 no Brasil, o mercado nacional de jogos tinha ainda uma outra proposta. A companhia se enveredou em um cenário ainda incipiente na época: a de publicar games online por aqui. Sua estreia foi com Gunbound, o game competitivo em turnos semelhante a Worms.

O sucesso do título ajudou a empresa a crescer. Agora, 15 anos após a entrada da Ongame no universo dos jogos online no Brasil, o Canaltech foi convidado a conhecer a sede da empresa em São Paulo. Além disso, a companhia abriu informações sobre o Battle Cup, novo modo battle royale para o FPS Point Blank. Mas vamos por partes.

Desenvolvedora? 

Antes de mais nada, é preciso tirar uma confusão do ar. A Ongame é uma publicadora de jogos, não uma desenvolvedora. “Essa é uma confusão bastante comum dos nossos jogadores, não entender realmente o papel da Ongame em tudo isso”, conta Bruno Pequeno, responsável pelo marketing da Ongame.

Em termos simples, isso significa que a empresa não faz o título do zero, mas garante a publicação dele aqui no Brasil. Ou seja, lida com toda a parte burocrática, de servidores e, até mais importante, contato com público e localização dos jogos.

“A gente fica até feliz quando algum jogador explica isso para a comunidade em uma de nossas páginas”, brinca Júlio Camargo, game master do Point Blank.

Embora tenha nascido do Gunbound, hoje a companhia conta com a publicação de quatro títulos. Aika Online, é um MMORPG voltado para batalhas entre jogadores em servidores com milhares de jogadores; Metin 2, também MMORPG; Point Blank, o FPS em estilo Counter-Strike da empresa; e, o mais recente, Cavaleiros do Zodíaco: Saint Seiya Online, baseado na saga dos mangás da série.

Todos os títulos são gratuitos para o jogador acessar e cada um conta com uma desenvolvedora diferente. Três deles vêm diretamente da Coréia do Sul: Metin 2, criado pela Ymir Entertainment; Point Blank, pela Zepetto; e Aika Online, pela HanbitSoft. Só o título de Cavaleiros que é feito no Japão, em parceria entre Perfect World, SEGA e Shueisha.

Só isso mostra o nível de complexidade da publicação e distribuição desses títulos por aqui. Embora tudo venha até que bastante pronto lá de fora, ainda há espaço para o toque brasileiro nos jogos.

Brasilidade

Uma das funções da Ongame por aqui é garantir que o público nacional se identifique com os produtos que são publicados. Para isso, existe um trabalho de localização.

Diferente da simples tradução dos termos, a localização busca colocar textos e expressões para que os jogadores daqui possam reconhecer e se familiarizar com os jogos.

Um exemplo que o grupo da Ongame apresentou foi o de um evento para Aika Online. A desenvolvedora programou alguns itens e celebrações para o mês do ramadã. A celebração religiosa islâmica representa a revelação do livro sagrado Corão e é acompanhada de jejum entre os praticantes. Embora seja celebrado em países de maioria islâmica, não é amplamente conhecido no Brasil.

O período pode, por vezes, coincidir com o Carnaval nacional. Foi exatamente neste momento que a Ongame tentou convencer a desenvolvedora abrir uma exceção para o Brasil e oferecer, no lugar da celebração islâmica, outros itens e eventos para a maior festividade brasileira.

Da esquerda para a direita: Júlio Camargo, Leandro Aguilera e Bruno Pequeno (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

A companhia também consegue fazer algumas funções de desenvolvedora, sugerindo modificações para o público local. Em alguns momento, até de balanceamento. “Existe uma polêmica que, às vezes, o jogador brasileiro não gosta de ouvir. Mas a gente precisa facilitar um pouco as missões por aqui, porque o brasileiro não gosta muito de grinding, de ficar muito tempo pegando itens, crescendo personagem. Então, em uma missão, por exemplo, que você precisa de 40 itens, a gente diminui para 20 por aqui”, explica Camargo.

Outras questões culturais também entram na conta. Em países orientais, há uma preocupação com o quanto os jogadores passam em frente à tela do computador jogando. O vício e mortes relacionadas a horas em um jogo é comum nessas regiões, motivo pelo qual avisos e restrições são impostas a jogadores, buscando controlar o tempo dentro do game.

Contudo, isso não é comum aqui no Brasil, sendo que tais avisos podem ser somente um incômodo para o jogador. A Ongame, então, sugere ajustes para esse tipo de questão também no Brasil.

Como conhecer o jogador? 

Como uma empresa nacional, a Ongame conta com um escritório em São Paulo, tomando metade de um andar em um prédio comercial próximo à Avenida Paulista. Como uma publicadora de jogos, a expectativa é de que a companhia conte com um ambiente cheio de videogames e toda sorte de entretenimento.

“Não dá muito para fugir do ambiente corporativo”, conta Pequeno em tour pelo andar da empresa. A ideia é que os game masters, mais em contato direto com a comunidade, conversem e tenham acesso ao feedback dos jogadores.

Empresa conta com metade de um andar em prédio próximo à Paulista (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Aliás, a empresa não conta, na maioria das vezes, com testes locais. Estamos falando de uma companhia de jogos online e nada mais natural que essas tarefas sejam feitas também de forma remota.

Atualmente, a Ongame tem alguns moderadores em servidores de seus jogos, usuários dispostos a ajudar a publicadora a botar ordem na casa. É por eles, geralmente, que a companhia sabe o que está ou não funcionando e se compensa colocar uma nova funcionalidade no jogo.

“A gente tem bastante participação dos moderadores, um pessoal que joga há muito tempo e auxilia a moderação com os jogadores. E tem sempre pessoal que se destaca mais na comunicação, pessoal que conversa no canal do Discord, no canal do Facebook. São esses jogadores que a gente sabe que estão sempre presentes, sempre jogando, e têm conhecimento do jogo. A gente leva mais o feedback deles em consideração. Esse pessoal ajuda muito mesmo”, explica Leandro Aguilera, project manager de Point Blank.

Da cabeça ao jogo

Quando uma nova ideia surge, existe todo um processo até que seja implementada no game. Os gerentes organizam a proposta, pensam em objetivos, montam o que a desenvolvedora pode fazer e, só então, entram em contato com ela.

Aguilera explica que aqui começa uma relação de negociação que nem sempre é fácil, pelo próprio aspecto inerente de diferenças culturais. “São três línguas envolvidas. Nós pensamos tudo em português aqui, comunicamos para o time em contato com a gente em inglês e, lá [na Coreia do Sul], eles traduzem ainda para o coreano. Se é algo simples, flui bem. Só que tem coisa técnica também. Aí eu preciso entender, explicar de forma leiga em inglês para fazer acontecer. Às vezes a gente precisa colocar especialista com especialista para conversar até rolar. Nem sempre é simples”, conta Aguilera, em certa parte, se divertindo com o processo.

Atualmente, a Ongame sugeriu uma nova atualização em um dos títulos para uma desenvolvedora, tema que a companhia ainda não pode descrever por contrato. Contudo, a ideia foi tão bem recebida que a companhia já pediu para levar também para servidores que não só o brasileiro.

E quanto tempo demora este processo? “Demora um pouco. Às vezes um mês para lançar algo, mas é porque o pessoal quer trazer o melhor conteúdo, tem desenvolvimento, testes. Em um cenário bem positivo, leva umas duas semanas. Em um cenário bem negativo, chega demorar até seis meses”, confessa Aguilera.

Point Blank

Um dos conteúdos exclusivos para o Brasil tem sido o teste do Battle Cup, o modo battle royale que chega a Point Blank. Segundo Camargo, somente o nosso país está contando com acesso ao beta do game.

A Ongame já realizou dois testes fechados, somente com alguns usuários da comunidade de Point Blank. Camargo explica que este deve ser um trabalho mais demorado, uma vez que é um estilo totalmente novo para o FPS e que inclui uma série de novas mecânicas.

"No caso do Point Blank, a gente liberou bastante chave, exatamente para ter um bom feedback de jogadores, porque é o modo que está em desenvolvimento, é totalmente novo”, explica o game master.

A empresa terminou a fase de beta fechado e agora começam os testes abertos para todos jogadores.

O modo traz a maioria das mecânicas de um battle royale clássico. No Battle Cup, são no máximo 16 jogadores (o que os servidores da empresa aguentam) em um novo mapa, cinco vezes maior que os outros já apresentados pela companhia.

A proposta é oferecer uma experiência mais mecânica, em que jogadores precisam enfrentar outros em modo single player. Ou seja, nada de equipes aqui.

Os participantes também não terão uma narrativa para fomentar a gameplay. “Não tem queda de avião. Os jogadores escolhem o ponto em que querem nascer e o jogo começa dali. Com o personagem ou a personagem sem nenhum equipamento”, conta Camargo.

A mecânica cria uma tensão bastante singular de Point Blank. Antes de entrar nas partidas, é preciso apontar as poucas regiões do mapa em que se quer nascer. Ao lado delas, existe um indicador, semelhante ao eletrocardiograma, que informa se muita gente também escolheu aquele mesmo ponto que você. O som das batidas em alta frequência já cria uma adrenalina antes mesmo de a partida começar.

Aguilera explica que a proposta não é transformar Point Blank em um batte royale, mas chamar mais jogadores para dentro do título. Por isso, haverá mecanismos para estimular que se jogue também outros modos.

Por exemplo, o final de cada partida vai resultar na premiação por uma caixa chamada battle box, dentro da qual há itens específicos geralmente voltados para utilização em outros modos.

O modo, assim como o resto do jogo, será gratuito, mas é preciso que o jogador tenha tickets para entrar nas partidas. Tais itens são renovados com o tempo e podem ser comprados com moedas do próprio jogo. A ideia é, novamente, incentivar a gameplay em outros modos enquanto se espera uma nova oportunidade de entrar no battle royale.

Também haverá adição de armas e mecânicas novas. “A recuperação de energia e itens como calças e luvas existe somente dentro do Battle Cup”, lembra Camargo.

O modo pode ser acessado em beta por qualquer usuário gratuitamente. Basta baixar Point Blank e escolher a opção Battle Cup. O período de beta começou neste dia 24 de julho e vai até o final do mês, encerrando no dia 30 de julho.

Beta do modo já está disponível com destaque dentro do jogo Foto: Wagner Wakka/Canaltech)
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