Google, Pokémon e Harry Potter: a trajetória de realidade aumentada da Niantic

Por Wagner Wakka | 13 de Março de 2019 às 13h36
Twitter/Niantic
Tudo sobre

Niantic

Saiba tudo sobre Niantic

Ver mais

Quando criou, lá em 2001, a Keyhole, John Hanke talvez não imaginasse que suas pesquisas em geolocalização o levariam para o universo dos videogames. A sua companhia foi comprada em 2004 pela Google, sendo Hanke o responsável pela criação do Google Earth, então sistema revolucionário de mapeamento do globo terrestre.

Antes de ser comprada pela Google, a Keyhole já tinha produzido o Earth View, uma espécie de programa prévio ao Google Earth. Depois, Hanke também encabeçou projetos como Google Maps e Street View, todos sempre voltados para geolocalização e este setor. Mas como ele foi parar no cenário de games?

Para isso, é preciso voltar no tempo. Depois de se formar, trabalhar na imigração dos Estados Unidos e fazer projetos no Myammar, Hanke resolveu que era hora de seguir seu sonho. No início dos anos 90, ele se juntou ao amigo Steve Sellers e, juntos, montaram um startup em games chamada Archetype Interactive. O principal produto daquele momento era o desenvolvimento de um jogo chamado Meridian 59, um dos primeiros MMORPGs lançados no 3DO em 1996. Antes mesmo de o título chegar ao console, ambos venderam a empresa para a própria 3DO e Hanke daria um tempo dos jogos.

Só em 2010 é que ele fundaria a Niantic, empresa que nasceu dentro da Google como um braço para o desenvolvimento interno de alguns jogos, trabalhando com realidade aumentada.

Todo esse passado do CEO da Niantic é importante para mostrar a ferramenta mais importante que a companhia já construiu com a Keyhole em 2001: a sua capacidade de usar mapeamento e geolocalização.

Os anos de desenvolvimento desta tecnologia culminaram no que hoje é o Niantic Real World Platform, um sistema já avançado de mapeamento unido com realidade aumentada.

“Entendo a realidade”

A tecnologia foi apresentada em junho do ano passado em post da própria companhia. A desenvolvedora adquiriu no começo de 2018 a Escher Reality, uma companhia voltada a produzir realidade aumentada em escala global. Além disso, a Niantic também comprou a Matrix Mill, empresa que desenvolve sistemas de machine learning para aparelhos de realidade aumentada.

A proposta dessas companhias foi ajudar a fazer o que eles chamam de RA Avançada. Para conseguir fazer uma projeção em um ambiente tridimensional plano (em cima de uma mesa lisa, por exemplo), há menos esforço do que em um local mais complexo (em meio a árvores, por exemplo).

Para isso, é preciso que, antes de projetar um objeto, o app seja capaz de “entender a realidade” a sua volta. Então as duas empresas precisam trabalhar coordenada para reconhecer o que está na tela e propor um tipo de projeção em realidade aumentada.

No exemplo dado pela Niantic, há uma sala de reunião na qual o app precisa projetar um Pikachu. Contudo, a ideia é que ele apareça em cima da cadeira e não da mesa. Para colocá-lo na posição correta, é preciso que o sistema de machine learning reconheça o que é cadeira e mesa para só então colocar o Pikachu na posição correta.

Sistema de machine learning de realidade aumentada (Foto: Niantic)

Outra proposta também é permitir que o sistema de realidade aumentada possa reconhecer e interagir com o mundo a sua volta. Por exemplo, em jardim, no sistema de realidade aumentada convencional, a projeção se sobrepõe à uma coluna ou mureta. Na RA Avançada, a projeção desaparece sempre que o objeto se esconde atrás de alguma coisa, dando uma profundidade 3D muito maior para o sistema de realidade aumentada.

O mundo de Ingress

Em 2014, a Niantic lançou Ingress, um game que instigava o jogador a sair pelas ruas de sua cidade em busca de portais que precisavam ser fechados para salvar a humanidade. O game chegou a ter mais de 7 milhões de jogadores em seu auge, em 2015, mas, para além do sucesso em vendas, ajudou a Niantic a criar algo ainda maior.

Ao colocar milhões de smartphones seguindo um mapa e interagindo com cenários por realidade aumentada, a empresa foi alimentando um banco de dados de mapeamento de regiões com mais jogadores e locais com os quais eles mais interagiam.

Ingress também incentivava que as pessoas indicassem pontos em que os portais poderiam ser criados, geralmente marcos turísticos como estátuas, pinturas, pontos de ônibus, museus e outros.

Toda essa experiência de 7 milhões de usuários foi suficiente para que a companhia fechasse negócio com a The Pokémon Company para o desenvolvimento de um título semelhante com a franquia da Nintendo e sua turma.

O investimento de US$ 30 milhões foi tão grande que a companhia se desligou da Google e passou a funcionar de forma independente da gigante de tecnologia.

Assim, quando o fenômeno Pokémon Go chegou ao mercado, em 2016, já contava com todo o mapeamento de pontos importantes de Ingress, os quais foram usados como PokéStops neste novo game.

Essa mesma Niantic Real World Platform está sendo usada no título em desenvolvimento da companhia em conjunto com a WB Games, chamado de Harry Potter: Wizards Unite. Hanke, em apresentação na sede da empresa em San Francisco, informou que esta plataforma é o que permite que a companhia não precise começar sempre do zero quando vai criar novos games, deixando que os desenvolvedores sempre adicionem novas ferramentas de mapeamento e realidade aumentada.

Assim, Wizards Unite chega com o mesmo sistema de mapas e locomoção usados em Ingress e Pokémon Go, mas adiciona uma nova tecnologia de realidade aumentada: aqui é possível fazer uma volta em 360 graus no personagem, aproveitando mais de ferramentas de desenvolvimento. O jogo chega ainda este ano para iOS e Android, sendo que o Canaltech já pode ver uma prévia do game.

Presente e futuro

A Niantic conta atualmente com uma sede para uma centena de funcionários no Porto de São Francisco, escritório em um dos principais pontos turísticos da cidade. A escolha do lugar faz referência ao The Niantic, um icônio navio que era um dos principais transportadores de ouro na época da corrida pelo metal na década de 1840 na Califórnia. Várias peças deste navio ficam em exposição na entrada da empresa.

Em janeiro deste ano, a Niantic também recebeu mais uma rodada de investimentos de US$ 245 milhões da Institutional Venture Partners (IVP). A proposta é investir em novas tecnologias para o sistema da companhia.

Ela também anunciou no final do ano passado que já está começando pesquisas para aproveitar possibilidades da implementação do 5G em todo mundo. “Para conquistarmos esse objetivo, anunciamos uma parceria com a Deutsche Telekom - e com seus servidores MobiledgeX Edge e rede 5G - em novembro de 2018 com o intuito de criar experiências do usuário finais altamente escaláveis”, informa a companhia. A ideia é acelerar o desenvolvimento de novas APIs que possam integrar tecnologias de realidade aumentada voltadas para o 5G, entre elas a computação em nuvem para plataformas mobile.

Por fim, a empresa também está trabalhando em sistemas de jogo multiplayer para que várias pessoas possam interagir com uma mesma projeção. O desafio é fazer com que todos jogadores participem de um mesmo cenário sem que haja latência.

Atualmente, a Niantic trabalha com dois projetos para demonstrar esta ferramenta. O Codename Neon é um jogo em demonstração que coloca os participantes em um ambiente competitivo em que precisam se acertar com raios. Todos em um mesmo servidor, eles conseguem ver quem atira em quem.

Já o Codename Tonehenge busca mostrar a interação entre vários jogadores em um ambiente cooperativo, em que precisam movimentar estátuas e resolver quebra-cabeças em conjunto.

Ambos, apenas em demonstração, não têm precisão nem confirmação de lançamento.

Fonte: Niantic (1) (2), Forbes, CNBC

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.