Conheça a história dos buscadores e veja como o Google alcançou o topo

Por Joyce Macedo | 16.08.2015 às 15:15

Você consegue lembrar (ou imaginar) como era usar a internet no inicio dos anos 1990? Para quem não vivenciou essa época, pode parecer surreal descrever a grande bagunça que era a rede mundial de computadores.

Pense em um amontoado de links jogados sem a menor forma de organização e a ausência dos famosos buscadores. Isso era a web. Você deve estar se perguntando: então como as pessoas faziam para encontrar as informações desejadas? Basicamente, elas seguiam links aleatórios e torciam para encontrar algo útil no caminho.

Atualmente, com a variedade de motores de busca disponíveis no mercado, não damos o devido valor para essa tecnologia, mas saiba que ela foi imprescindível para que a internet evoluísse até a forma como conhecemos hoje.

Quando falamos nesse assunto é impossível não lembrar do gigante das buscas, o Google. Mesmo depois de tantos anos, seus concorrentes (Ask, Bing, Yahoo, DuckDuckGo, Baidu) ainda não conseguiram ultrapassar a popularidade da empresa de Mountain View. A diferença entre eles tem diminuído ao longo dos anos, mas o Google ainda é rei quando o assunto é relevância de resultados, velocidade de indexação de sites e de execução de pesquisas.

Em dezembro do ano passado, o Google Brasil registrou 94,31% de participação nas buscas realizadas na internet, de acordo com a ferramenta global de inteligência digital da Serasa Experian. Em segundo lugar em participação nas buscas no país durante o mesmo período ficou o Google.com, com 2,05%, seguido do Bing, com 1,71%. O Yahoo! Brasil apareceu em quarto lugar, com 1,18%, e o Ask em quinto, com 0,54%, da preferência dos usuários.

Mas como uma empresa criada nos corredores de uma universidade norte-americana conseguiu dominar um mercado tão complexo dessa forma? Para entender melhor como o Google se tornou naquilo que ele é hoje, é preciso olhar para trás e conhecer algumas tecnologias e empresas que ajudaram a impulsionar o mercado de motores de busca. A internet só começou a funcionar comercialmente no Brasil em 1995, mas antes disso muita água rolou debaixo dessa ponte.

Archie: os primórdios da busca online (1990)

Archie

Em 1990, um estudante canadense chamado Alan Emtage criou uma ferramenta chamada Archie. O programa é considerado por muitos a primeira forma de realizar buscas na internet. Embora aparentemente primitivo, o Archie era um programa capaz de indexar sites públicos de FTP (File Transfer Protocol) para facilitar a vida dos usuários. Ele trazia as listas de diretório de todos os arquivos localizados nesses sites públicos anônimos, criando uma base de dados que permitia a busca por nome de arquivos.

Isso aconteceu em um mundo pré-WWW (world wide web), então era preciso acessar os servidores do Archie usando um cliente local ou a Telnet, um protocolo de rede que permite a conexão de dois computadores na mesma rede. O Archie estimulou a inovação em tecnologias que operavam de forma semelhante à sua, como Veronica e Jughead, VLib, Gopher, entre outras. Essas tecnologias foram as pioneiras na indústria de pesquisa, mas como o mundo tech não para, elas logo foram substituídas por ferramentas mais avançadas.

Wandex: primeiro banco de dados de indexação de sites (1993)

Com a evolução da internet, o primeiro motor de busca para a web foi criado. O Wandex foi idealizado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e foi o primeiro sistema a capturar os endereços das páginas (URLs), gerando a primeira base de dados de sites. Basicamente, tratava-se de um programa automatizado que acessava e percorria os sites seguindo os links presentes nas páginas.

Excite: início da sofisticação nas buscas (1993)

Excite

A Excite foi um projeto criado por seis alunos de graduação da Universidade de Stanford que tentaram usar a análise estatística das relações na linguagem comum para melhorar a relevância da indexação. Em vez de compilar os endereços, o site era um real buscador, pois bastava o usuário digitar um termo desejado para que automaticamente a ferramenta realizasse uma busca dentro das demais páginas que continham a expressão indicada.

A Excite – então conhecida como Architext – utilizava jornalistas para escrever breves comentários sobre os sites a fim de melhorar sua usabilidade quando comparada aos primitivos motores e diretórios de busca baseados em links. Até então, eles criaram a forma mais sofisticada de busca, uma espécie de versão rudimentar do que conhecemos hoje.

Yahoo! e o boom dos motores de busca (1994)

Yahoo 1994

Página inicial do Yahoo! em 1994

Enquanto os brasileiros comemoravam loucamente o tetracampeonato do Brasil na Copa do Mundo há 21 anos, estudantes de universidades da Califórnia estavam focados num novo mercado que parecia cada vez mais promissor. Esse foi, provavelmente, o maior ano da história dos motores de busca. Dentro de um período de 12 meses, vimos o lançamento de nomes icônicos do setor que prepararam o caminho para o Google, como Infoseek, AltaVista, WebCrawler, Yahoo! e Lycos.

Neste mesmo ano, dois alunos de engenharia elétrica da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, começaram a vasculhar a internet em busca de informações para um concurso sobre a Liga de Basquete Universitária. O que Jerry Yang e David Filo não imaginavam é que isso resultaria na criação de uma grande empresa de tecnologia, o Yahoo!. A dificuldade na pesquisa fez com que a dupla percebesse nessa lacuna uma oportunidade para criar um site de buscas capaz de filtrar as pesquisas e oferecer resultados mais precisos.

A novidade se espalhou pela instituição e o número de usuários do serviço de buscas cresceu assustadoramente, tanto que eles precisaram pensar em uma maneira de monetizar sua tecnologia para aprimorá-la. Nesse ponto da história é que a publicidade se associa aos sistemas de busca, em 1995. Para tentar gerar renda e corresponder às expectativas dos investidores que haviam conseguido, eles decidiram arriscar e começaram a disponibilizar espaço para anunciantes colocarem banners na página do Yahoo!. A novidade deu certo e mostrou que era possível ganhar muito dinheiro na internet. Esse foi o tiro de largada para uma corrida de empresas que desejavam lucrar com esse mercado.

Yahoo 1997

Página do Yahoo! em 1997

Cadê?: Brasil entra no mercado das pesquisas na web (1995)

Enquanto o Yahoo! dominava o mercado mundial de buscas na internet, dois brasileiros resolveram apostar suas fichas em uma versão nacional desse tipo de site. Os estudantes de engenharia elétrica Gustavo Viberti e Fábio de Oliveira criaram uma ferramenta de busca que foi um grande sucesso durante muitos anos, o Cadê?.

No início, o serviço lembrava bastante o início do norte-americano Yahoo!, tanto pela sua interface quanto pelas guias com categorias e subcategorias compiladas manualmente pela dupla de fundadores e pela aceitação de propagandas.

Cadê?

Sem dúvidas, o Cadê? foi um marco na internet brasileira, mas com o passar do tempo a ferramenta foi comprada por várias empresas e atualmente pertence ao Yahoo! Brasil, que na época da aquisição tentou usar a marca nacional para dar mais visibilidade ao seu próprio buscador no país.

Até o final dos anos 1990, Cadê?, Yahoo! e Altavista dominaram o mercado de buscas brasileiro, até que o Google começou a ganhar popularidade no país.

Cadê?

Tela do Cadê? informando o número de acessos ao site que mostram um crescimento gigantesco no período de 1 ano (Foto: Reprodução/PWI)

Google: o inicio de uma nova Era (1996)

O grande problema do sistema de diretórios utilizado até então por serviços como Yahoo! e Cadê? era que as combinações de palavras não funcionavam bem e a maioria dos resultados era relacionado a publicidade de produtos que os anunciantes tentavam empurrar para os usuários.

Contudo um projeto de outra dupla de estudantes da Universidade de Stanford foi o pontapé inicial para o que se tornaria uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. Na época, Larry Page e Sergey Brin teorizavam sobre um sistema de buscas no qual a relevância tivesse um papel mais importante do que a quantidade de vezes que um termo aparecia na primeira página.

A ideia era relativamente simples: a quantidade de vezes que uma página da web era listada em outro site indicaria a medida de sua utilidade ou relevância para os internautas. Eles entendiam o link de um site para outro como uma espécie de recomendação. Surgia uma das métricas mais utilizadas por diversos buscadores atuais: o PageRank.

A dupla então começou a trabalhar em um mecanismo de pesquisa chamado BackRub, que operou nos servidores de Stanford por mais de um ano, até que ocupou muita largura de banda e os estudantes precisaram sair e fundar a própria empresa. Em 1997, o Google finalmente foi registrado como um domínio.

Google 1998

Google em 1998

O Google também causou um grande impacto na forma de ganhar dinheiro com publicidade na internet. Em vez de gerar spams e mostrar links aleatórios para os usuários conforme o valor pago pelos anunciantes, a companhia "roubou" a ideia de uma outra empresa chamada Idealab e a aprimorou: começou a separar resultados orgânicos dos anúncios. O problema com a "dona" do conceito original foi resolvido por meio de um acordo financeiro e aparentemente vantajoso para as duas corporações.

Para bancar o projeto, Page e Brin tentaram vender sua tecnologia inovadora para diversos concorrentes, entre eles a Excite. A empresa, que já estava no mercado de buscas há algum tempo, pensou em comprar ou licenciar a tecnologia do Google para ganhar a guerra contra o Yahoo!, mas a diretoria da entidade não achou que ela faria tanta diferença e acabou rejeitando a oportunidade de comprar o Google por "apenas" US$ 750 mil – atualmente a empresa vale mais de US$ 385 bilhões (qual será o tamanho do arrependimento?).

De volta ao seu projeto, Page e Brin continuaram melhorando sua tecnologia para atingir uma meta ambiciosa: eles queriam organizar toda a informação do mundo e torná-las facilmente acessível. E o plano deu certo: em 2000, o Google se tornou o maior motor de busca do planeta com cerca de 3,3 bilhões de pesquisas realizadas diariamente.

Atualmente, o Brasil é o segundo maior mercado em número de buscas para o Google, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. A companhia abriu o seu primeiro escritório em São Paulo em 2005, inicialmente voltado à venda de espaços publicitários. Hoje, as operações da empresa no país já são muito mais expressivas.

Google Search

Infográfico da Smart Insights sobre a evolução do sistema de busca do Google entre 1997 e 2013

Metaminer / UOL (1996)

Em 1996, os estudantes de ciência da computação Victor Ribeiro e Nivio Ziviani, da Universidade Federal de Minas Gerais, criaram o Metaminer (também conhecido apenas como Miner). Conforme o próprio nome indica, o Metminer é um site de Metabusca, ou seja, um sistema de busca na web que permite ao usuário pesquisar em vários mecanismos simples, simultaneamente. Diferente dos serviços anteriores, ele não possui nenhum tipo de banco de dados.

Basicamente, a plataforma "minerava" informações em outros 13 sistemas de buscas (como Cadê? e Altavista) e as ordenava em diretórios. Em 1999, a dupla vendeu sua tecnologia para o grupo Folha/UOL e a Miner se tornou o principal mecanismo de busca do BOL.

Metaminer

Aonde (1997)

Falando um pouco mais do mercado nacional, outros nomes também merecem destaque nessa linha do tempo, e um deles é o Aonde.com. Criado por um adolescente carioca de 14 anos, Edgard Nogueira, o site Aonde.com tinha cerca de 4 milhões de páginas visualizadas por mês e chegou a ser avaliado em US$ 10 milhões – o investimento inicial do garoto foi de R$ 150.

Aonde

Aonde.com permanece ativo até hoje

A ideia surgiu quando o jovem inseriu uma busca direta para outro sistema de procura em sua página pessoal e isto despertou seu interesse sobre este tipo de site. O Aonde.com cresceu com a Internet brasileira em 1997 e a divulgação na grande mídia começou a acontecer em meados de 1999.

Edgard não vendeu a empresa e por isso acabou perdendo mercado para outros portais de busca gigantes, como o Google e o Yahoo!. O jovem empresário ainda mantém o site no ar, mas lucra mais com outros dois serviços que criou: o site de relacionamentos Aondenamoro.com e o AfiliAds.com, um programa de afiliado parecido com o AdSense.

Radix (1999)

O Radix surgiu a partir de uma tese de doutorado desenvolvida no Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em meados de 1999. Enquanto seus concorrentes da época, como o Cadê? e o próprio Yahoo!, trabalhavam com o conceito de diretórios e inserção manual de sites, o Radix.com já utilizava o cadastro e a indexação automática de páginas.

Radix

Os motores de buscas atuais, como Google e Bing, usam algoritmos sofisticados para catalogar e recuperar informações indexadas, mas o Radix merece destaque por ter sido pioneiro na sofisticação tecnológica do segmento no Brasil. Além dos algoritmos automatizados de busca e indexação, recursos considerados modernos no final dos anos 1990, a empresa ficou famosa por usar a linguagem XML na manipulação e tratamento das informações.

Como o Google consegue permanecer no topo?

Uma coisa é fato: o Google não para. Sempre que anunciantes e especialistas em motor de busca aprendem a manipular seu sistema, a empresa faz algumas mudanças. Quando novas tecnologias – como as mídias sociais – começam a desempenhar um papel importante e ativo em nossa forma de comunicação, o Google encontra uma maneira de integrá-los no seu algoritmo para melhorar a relevância. Quando os hábitos dos usuários mudam, a companhia também muda.

Adaptabilidade pode ser a melhor palavra para descrever como o Google continua sendo o motor de busca mais utilizado no mundo. A empresa está constantemente observando, analisando e evoluindo. Ao utilizar quantidades maciças de dados coletados a partir de todos aqueles que utilizam os seus serviços, ela é capaz de oferecer produtos mais relevantes para o nosso dia a dia do que seus concorrentes. Um exemplo recente dessa constante evolução é a criação da Alphabet, que vai servir como a cabeça de todos os negócios do Google e de seus esforços de investimento e aquisição.

Futuro do mercado de buscas

Apesar dos números astronômicos do Google, é importante lembrar que as coisas mudam rapidamente na web. Por isso, diversas empresas do setor estão sempre correndo para inovar e atrair ou manter a preferência dos usuários. Entre as ferramentas modernas utilizadas estão a busca semântica, que melhora o entendimento por trás das palavras digitadas nos motores, a ênfase em sistemas de localização, que permite encontrar resultados próximos a sua localização atual, e uma melhora na experiência móvel.

Em meados de 2012, o Google lançou o "Gráfico de Conhecimento", um novo método de buscas que tem como objetivo ajudar os usuários a obter respostas, entender conceitos e explorar resultados. A ferramenta faz com que as pesquisas por filmes, nomes de celebridades ou consultas relacionadas à localização apresentem resultados na parte superior da página.

Para buscas rápidas, isso pode ajudar a poupar tempo dos usuários e eliminar o trabalho de "cavar" mais fundo nos resultados ou visitar vários sites até encontrar as informações desejadas. Isso também tem grandes implicações no setor mobile, bem como na busca por voz (como Siri ou Google Now), uma vez que esses recursos são geralmente utilizados para encontrar respostas rápidas.

Gráfico de Conhecimento Google

Gráfico de Conhecimento Google

Também é importante destacar que o mercado mobile tem se mostrado extremamente importante para os buscadores. Em 2015, Google anunciou que o número de pesquisas feitas em sua ferramenta de busca através de dispositivos móveis superou aquelas feitas através de PCs. Além do marco histórico, a mudança pode significar alterações importantes nos direcionamentos da companhia. As propagandas posicionadas ao lado dos resultados das pesquisas através de browsers de desktop são consideradas como os anúncios mais lucrativos do marketing digital.

Mesmo assim, o preço por esses anúncios tem caído seguidamente ao longo dos anos. Uma das causas apontadas pelos especialistas para essa queda de preço é justamente a ascensão do uso de aparelhos móveis para realizar as pesquisas no buscador, e que os anúncios dos dispositivos móveis não rendem as mesmas taxas dos realizados nos computadores.

Como podemos ver nesta linha do tempo, o mercado de ferramentas de busca evoluiu muito ao longo dos anos e tudo indica que muitas mudanças ainda estão por vir. Resta saber se o Google ainda vai conseguir se manter na liderança durante muitos anos.