Como o FBI capturou 'Dread Pirate Roberts' e fechou o Silk Road

Por Gabriel Tonobohn | 03 de Outubro de 2013 às 12h40

O Silk Road, o maior mercado online de drogas do mundo, foi finalmente fechado pelos agentes federais nos Estados Unidos depois de dois anos operando. O líder do site, conhecido como Dread Pirate Roberts, foi também capturado.

Mas se todos sabiam desde 2011 que o Silk Road era um lugar onde drogas eram comercializadas livremente, por que o FBI demorou tanto para conseguir encerrar suas operações? Para responder essa pergunta, é preciso saber como foi feita toda a operação.

O Terrível Pirata

Ross William Ulbricht, o "Dread Pirate Roberts", é uma contradição ambulante. O governo afirma que ele arrecadou cerca de 80 milhões de dólares com o Silk Road, mas vivia em uma casinha de um quarto em São Francisco, dividia com outras duas pessoas, pagando um aluguel de US$ 1.000 por mês. Seu perfil no Linkedin fala sobre o fim da violência e uso da força, mas o FBI afirma que ele chegou a contratar um assassino de aluguel para matar um usuário do Silk Road, que estava tentando extorquir dinheiro dele.

Ulbritch foi capturado pelo FBI dentro da biblioteca pública de São Francisco, perto de onde morava. Segundo Michelle Jeffers, diretora da biblioteca, de seis a oito agentes entraram no local e prenderam Ross, levando também o laptop que ele estava usando, sem encontrar resistência do rapaz.

Não é exatamente o futuro promissor que se imagina para um jovem formado em Ciências de materiais na Universidade da Pensilvânia.

Silk Road: um site "sobre a liberdade"

O Silk Road era, segundo seu fundador, um site sobre liberdade. É claro, esse era o tipo de liberdade onde você poderia comprar LSD, ecstasy, cocaína, heroína e outras drogas (legais e ilegais), mas ainda assim, sobre liberdade.

O Dread Pirate Roberts explicava no site o seu objetivo: "Se transformar em uma força que pode desafiar os poderes constituídos e, finalmente, dar às pessoas a opção de escolher a liberdade sobre a tirania."

Por isso, o Silk Road só era acessível usando a rede encriptada Tor Network, que conectava os usuários anonimamente. Para entrar no site, o usuário tinha que primeiramente instalar o cliente do Tor no computador e visitar urls estranhas como silkroadfb5piz3r.onion. A recompensa por todo esse trabalho era um fórum recheado de vendedores de drogas do mundo todo.

A droga era enviada pelos correios diretamente ao comprador, sem intervenção nenhuma do Silk Road. A única coisa que linkava o site à venda era o dinheiro. Sabendo disso, Dread Pirate começou a usar apenas a moeda virtual Bitcoin, para tornar tudo ainda mais difícil de ser rastreado. Ele ainda rodava um programa chamado "tumbler" que criava uma rotina para os pagamentos serem feitos via uma complicada série de transações burras, o que tornava o Bitcoin praticamente impossível de ser rastreado.

Silk Road

Sobre liberdade... e sobre dinheiro

De cada transação realizada pelo site, Roberts ficava com 8 a 15% do valor, dependendo do volume e tamanho. Mais de 1,2 milhão de operações depois, Roberts havia acumulado 80 milhões de dólares em comissões, segundo o FBI.

Como os federais chegaram até ele

Por ser tão difícil relacionar o tráfico de drogas ao site diretamente, o FBI juntou forças com a Drug Enforcement Administration, a Internal Revenue Service e a Homeland Security Investigations para continuar investigando o Dread Pirate e os maiores vendedores do site.

Não era uma tarefa fácil. Inicialmente, os agentes não conseguiram rastrear o dinheiro até Roberts e nem mesmo encontrar o local físico dos servidores do Silk Road, o que também o impedia de ser derrubado.

Sem provas digitais, eles tiveram que apelar para meios menos tecnológicos: voltando de pouco em pouco no tempo até encontrar a primeira pessoa que havia mencionado o Silk Road na internet. Se essa pessoa fosse encontrada, ela poderia ser a própria fundadora do site, ou ao menos alguém bem próxima disso.

Eles então encontraram um post em um fórum chamado shroomery.org, de um usuário chamado "altoid", dizendo que havia encontrado "esse tal site Silk Road", onde era permitido vender coisas anonimamente. O post direcionava os leitores para o site silkroad420.wordpress.com, onde haviam instruções para acessar o verdadeiro Silk Road.

Este blog do Wordpress havia sido criado no dia 23 de janeiro, apenas quatro dias antes do post de Altoid. Era certamente uma das primeiras menções ao site na internet. Restava então descobrir quem era este usuário.

Com sorte, foi encontrado um post desse mesmo usuário em 11 de outubro de 2011, procurando um profissional de TI que trabalhasse com Bitcoins, mesma moeda usada no Silk Road. O post pedia que fossem enviados e-mail de interessados para o endereço "rossulbritch at gmail dot com".

Bastou então um busca rápida no Google para descobrir que essa conta pertencia a Ross Ulbritch. Havia também uma conta do Google+ do mesmo usuário, onde Ulbritch havia postado alguns de seus vídeos favoritos. Os vídeos eram da instituição libertária Mises Institute, que tinha pontos de vista bem parecidos com o de Dread Pirate Roberts. O "pirata" tinha inclusive postado alguns vídeos da Mises Institute em posts no Silk Road.

O quebra-cabeça começava a tomar forma.

Buscando outros perfis de Ulbritch nas redes sociais, eles encontraram muitos discursos que se encaixavam com a figura de Roberts, onde Ross afirmava que estava insatisfeito com sua graduação e tinha mudado seus objetivos, querendo criar agora uma forma de dar às pessoas "uma experiência do que seria viver em um mundo sem o uso sistêmico da força".

Outra grande pista foi um artigo publicado anonimamente no jornal The Austin Cut, em Austin, onde Ulbritch cresceu. O artigo falava sobre como criar o Silk Road e explicava o que havia de tão incrível no site: "liberdade" e "ausência de força".

O autor do artigo defendia que o Silk Road eliminava o fator violência das negociações de drogas. Era tão simples comprar e vender que você esquecia de como um traficante pode ser perigoso. O comprador não corria perigo nenhum.

Mesmo com tudo isso, os agentes federais ainda não tinham uma prova concreta de que Ulbritch era a pessoa responsável pelo Silk Road.

Felizmente, Ulbritch cometeu um deslize. Ele registrou um usuário usando sua conta do Gmail no site StackOverflow, pedindo ajuda para um código para um servidor Tor escondido, usando curl em php. Ele incluiu algumas linhas de código em que estava trabalhando. Percebendo que isso poderia não ser uma boa ideia, ele rapidamente mudou o nick para "frosty", mas o FBI já havia registrado a ação.

Enquanto isso, o FBI estava investigando um servidor, onde encontrou várias informações. Uma delas, por exemplo, continha uma chave terminada em "frosty@frosty. Além disso, ele continha uma versão pouco modificada do código postado no StackOverflow por Ulbritch, com os erros consertados.

A história toma rumos ao estilo "Breaking Bad"

Muito pior do que isso, eles encontraram informações nos fóruns privados que levavam a crer que Roberts havia mandado matar um dos usuários do site. Eles acharam uma mensagem do usuário "friendlychemist", que tentou extorquir Roberts, afirmando que havia hackeado o servidor e encontrado informações pessoais de compradores do site, que ele liberaria para o mundo a não ser que Roberts o pagasse.

O usuário exigia 500 mil dólares para pagar suas dívidas pessoais. Ao invés disso, Roberts decidiu pagar 150 mil para os próprios traficantes a quem o usuário devia, para colocar um "fim na história".

O assassino contratado exigiu 150 mil por uma morte "não limpa", ou 300 mil por uma "limpa". Roberts disse que sabia do valor de um serviço como esse, pois já havia pago 80 mil anteriormente por uma outra "morte limpa".

É aí que a história fica cada vez pior. Os agentes descobriram posteriormente que Roberts realmente encomendou um assassinato por 80 mil apenas algumas semanas antes. Não bastasse isso, parece que o assassino contratado era um agente federal.

Foi constatado depois que Ulbritch realmente realizou uma transação de 150 mil usando Bitcoins.

O site finalmente é fechado

O FBI conseguiu então rastrear a localização física dos servidores do Silk Road. A agência não revela exatamente como isso foi feito, mas aparentemente eles conseguiram hackear o site apenas o suficiente para conseguir um IP e um telefone de onde estava hospedado. Depois, ligaram para a empresa que o hospedava e solicitaram uma imagem de todo o conteúdo que havia no servidor.

Silk Road

Com todas as provas em mãos, os agentes finalmente conseguiram prender Ulbritch e fechar o Silk Road, mas a polêmica ainda vive. Outros "Dread Pirates" vão continuar existindo na internet, e o caso levanta a discussão sobre a privacidade na rede.

Criptografias e outros sistemas de segurança podem ajudar a expandir a liberdade do usuário na rede, mas até que ponto isso é benéfico? Com casos como o do Silk Road e o vazamento de informações com Edward Snowden, segurança e privacidade se tornam assuntos quentes novamente.

Sobre o Silk Road, pode ser que o caso ainda não tenha exatamente acabado. O FBI ainda pode - e deve - ir atrás dos maiores vendedores de drogas no site. Quem achava que estava seguro com o anonimato do Silk Road, pode ainda ser pego e obrigado a responder por seus atos.

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