TikTok mentiu sobre "bolha sombria" que levou adolescente a tirar própria vida
Por Marcelo Fischer |
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Um documento interno do TikTok, obtido pela Bloomberg, mostra que a empresa manteve milhões de usuários fora de uma atualização de segurança do algoritmo em 2021 para medir o impacto da mudança no tempo de uso do aplicativo. Entre os cerca de 15 milhões de pessoas que ficaram sem a proteção estava Chase Nasca, americano de 16 anos que recebeu milhares de vídeos sobre suicídio e depressão nas semanas anteriores à própria morte, em fevereiro de 2022.
O caso reacende o debate sobre a responsabilidade das plataformas na moderação de conteúdo voltado a adolescentes, tema que já motivou processos judiciais nos Estados Unidos e uma investigação criminal na França.
O que mostra o documento interno
Segundo a Bloomberg, o TikTok atualizou o algoritmo em 2021 para reduzir a exposição de usuários a conteúdo prejudicial de forma repetitiva. A empresa, porém, não aplicou a mudança a todos de uma vez.
Um grupo de controle formado por 10% dos usuários americanos, o equivalente a 15 milhões de pessoas na época, continuou com a versão antiga do sistema de recomendação.
Chase Nasca fazia parte desse grupo. Nas duas semanas anteriores à sua morte, o algoritmo recomendou a ele 7.563 vídeos, dos quais 73% traziam temas como depressão, solidão e luto amoroso sem violar as regras da plataforma. Cerca de 10% do total infringia diretamente as diretrizes do TikTok contra conteúdo que promove suicídio e automutilação, aponta o relatório interno, escrito em março de 2023 pelas equipes de segurança e algoritmo da empresa.
O documento afirma que as estratégias de prevenção contra bolhas de conteúdo não entraram em vigor para esse usuário por design, já que sua conta estava no grupo de teste. A avaliação interna também recomendou reduzir o tamanho do grupo de controle e o tempo de exposição dos usuários à versão sem proteção, mas alertou que mesmo um grupo menor deixaria cerca de 1,8 milhão de pessoas nos Estados Unidos sujeitas ao mesmo risco.
Depoimento ao Congresso e respostas por escrito
Duas semanas depois de concluída a análise sobre Chase Nasca, o CEO do TikTok, Shou Chew, testemunhou perante o Congresso americano, em março de 2023, e afirmou que a segurança de adolescentes era prioridade da empresa.
Em maio daquele ano, a TikTok enviou respostas por escrito a perguntas de parlamentares sobre eventuais danos causados por testes de algoritmo. A empresa negou que o uso da plataforma tivesse causado suicídios entre usuários e não mencionou o experimento que atingiu Chase.
Procurada pela Bloomberg para a reportagem publicada em agosto, o TikTok declarou que a segurança e o bem-estar dos usuários, sobretudo adolescentes, seguem entre suas prioridades, e afirmou manter investimentos em detecção e remoção de conteúdo que viola suas diretrizes.
Casos judiciais nos EUA e na França
A ação movida pelos pais de Chase Nasca contra o TikTok foi rejeitada por um juiz americano, que aceitou o argumento da empresa de que a Seção 230 da lei de decência nas comunicações a protege de responsabilização.
A família recorreu da decisão. Segundo a Bloomberg, o TikTok já fechou acordo em cinco processos por danos pessoais relacionados a suicídio ajuizados neste ano, embora não reconheça responsabilidade nos casos.
Fora dos Estados Unidos, a Justiça francesa abriu uma investigação criminal contra o TikTok em novembro de 2025, depois que uma comissão parlamentar concluiu que o algoritmo da plataforma poderia empurrar usuários vulneráveis ao suicídio, segundo a Reuters. A apuração também vai considerar relatórios do Senado francês e da Amnistia Internacional sobre riscos ligados ao uso excessivo e à moderação insuficiente de conteúdo.
O caso se soma a uma ação movida por sete famílias francesas em 2024, que acusam o TikTok de expor seus filhos a conteúdo sobre automutilação, transtornos alimentares e suicídio, informou a BBC. Duas adolescentes ligadas ao processo morreram por suicídio, entre elas uma garota de 15 anos identificada apenas como Marie.
O TikTok nega as acusações e afirma que suas diretrizes proíbem a promoção de suicídio e automutilação na plataforma.