Neurociência e IA: por que o cérebro não acompanha a tecnologia
Por Marcelo Fischer Salvatico | •

A inteligência artificial avança em velocidade que o cérebro humano, do ponto de vista fisiológico, não consegue acompanhar. Essa é a avaliação de André Cruz, CEO da Neura e especialista em neurociência e comportamento, ao Podcast Canaltech desta sexta-feira (8), onde aponta riscos ainda subestimados dos impactos da IA sobre memória, atenção e comportamento.
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"O cérebro está bugando", afirma Cruz. "Nunca tivemos tanto burnout, tanta dúvida do que tem que fazer”.
Para ele, o excesso de conexão, de informação e de interações simultâneas cria uma demanda contínua por dopamina que o organismo ainda não aprendeu a regular.
Entre os efeitos mais imediatos, Cruz aponta o déficit de atenção e o que chama de "superficialidade cognitiva": a tendência de o cérebro parar de processar informações com profundidade quando elas chegam prontas e em alta velocidade.
A memória de longo prazo também é afetada, já que o acesso fácil a respostas reduz a necessidade biológica de retenção. Para o futuro, ele vê riscos de manipulação cognitiva e de erosão da identidade individual em cenários de dependência excessiva da tecnologia.
No plano social, o especialista avalia que a expansão das interações com IA pode pressionar a empatia e o senso de pertencimento, dimensões que, segundo a neurociência, são estruturais na formação humana.
IA na educação e no trabalho
A China decidiu não esperar pelo debate. Desde setembro de 2025, o país tornou obrigatório o ensino de IA nas escolas primárias e secundárias, com no mínimo oito horas anuais para alunos a partir dos seis anos de idade.
Cruz vê nessa decisão uma resposta ao que considera inevitável: "uma criança com essa educação entende que aquilo faz parte do seu dia a dia, seu cérebro entende melhor”.
No ambiente corporativo, o desafio segue a mesma lógica. O medo de perder o emprego para a IA precisa ser substituído por uma cultura organizacional que posicione a tecnologia como ferramenta de apoio, não como substituta. "Não é a IA tirando o humano, mas é o humano trazendo o melhor dele, com a possibilidade do uso de IA", defende Cruz.
O especialista é também favorável às interfaces cérebro-computador — como as desenvolvidas pela Neuralink, de Elon Musk. Para ele, a tecnologia representa uma oportunidade real de restaurar capacidades físicas e ampliar o potencial humano.
"Você pode não andar e ter a liberdade de se movimentar. Como não usar isso?", questiona. O risco, segundo Cruz, está no acesso desigual: quanto maior o custo, maior a distância entre quem pode e quem não pode se beneficiar.
A neuroplasticidade, capacidade do cérebro de criar novas conexões e hábitos, é, na avaliação do especialista, o mecanismo que vai determinar como a humanidade atravessa essa transição. "O cérebro vai se adaptar a isso", afirma Cruz. O que está em aberto é o ritmo e o custo dessa adaptação.
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