Como a IA vai criar o carro de F1 do futuro antes mesmo de colocá-lo nas pistas
Por André Lourenti Magalhães • Editado por Jones Oliveira |
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Enquanto o Brasil se prepara para receber mais um Grande Prêmio da Fórmula 1, a próxima geração do automobilismo é desenvolvida com a inteligência artificial (IA) como protagonista e capaz de moldar diferentes cenários do esporte sem sequer colocar os carros nas pistas.
O caminho é traçado com uma nova parceria entre a Amazon Web Services (AWS) e a Federação Internacional de Automobilismo (FIA), entidade que comanda a F1 e outras modalidades do automobilismo. A AWS vai fornecer tecnologia de dados, IA e computação para simular novos regulamentos e regras para carros no ambiente digital, o que reduz custos com produção de peças.
A empresa também fornece a tecnologia responsável por coletar e interpretar os dados de cada volta durante as corridas da F1. As informações são usadas para municiar a estratégia das equipes e contar histórias para os fãs que acompanham pela TV.
Para entender mais sobre o impacto da IA na principal categoria do automobilismo, o Canaltech conversou com a líder de Gestão de Soluções para Clientes da AWS do Brasil, Fernanda Spinardi. A executiva mostra o panorama da parceria com a FIA e reforça como a Fórmula 1 é um exemplo de sucesso no uso de dados.
Projetando o carro do futuro
A nova parceria entre AWS e FIA permite determinar mudanças no regulamento de todas as categorias do automobilismo de forma digital, sem a necessidade de produzir novas peças somente para os testes. A divisão de nuvem e IA da Amazon tem uma estrutura para comparar os dados de simulações e aplicar inteligência artificial para que as construtores trabalhem em cima dos dados.
Vale reforçar que a regulamentação não implica somente nas regras da corrida nesse caso, mas também nas especificações em que os carros precisam ser desenvolvidos.
Desenhar o carro do futuro é um dos pilares da parceria, segundo Fernanda Spinardi. Para isso, a IA cria simulações aerodinâmicas, consegue prever padrões e identificar cenários.
“Há uma simulação digital que vai testar como é que o fluxo de ar, por exemplo, se relaciona com o desenho aerodinâmico do carro. Depois, pode fazer ajustes nesse desenho aerodinâmico sem a necessidade de produzir a peça física. A cada ajuste, você roda novamente a simulação e isso faz com que você tenha um resultado sem a necessidade de passar pelo pelo processo físico”, explica.
Os insumos também são usados pela FIA para monitorar e fiscalizar se os carros seguem as diretrizes. O potencial da mudança é garantir mudanças mais estáveis de regulamento e até evitar polêmicas da temporada de 2026 da Fórmula 1, no qual a entidade precisou intervir durante o ano para ajustar regras.
“Eles teriam tempo de processar esses cenários, essas simulações e essas informações pré-temporada, fazer o ajuste de regulamento e e ter uma temporada livre de interferências, tão significativas”, destaca a executiva da AWS.
Carros da F1 coletam “600 filmes por segundo”
A AWS é parceira da Fórmula 1 desde 2018 e tem o trabalho de gerenciar toda a avalanche de dados de telemetria obtidos pelos carros durante as provas. São mais de 300 sensores espalhados entre veículos e pistas para coletar 1,1 milhão de pontos de dados por segundo — uma quantidade de dados equivalente a fazer o streaming de 600 filmes por segundo, revela Fernanda Spinardi.
A F1 é uma modalidade que sempre caminhou junto com telemetria, tempos de volta e outras informações metrificadas. O primeiro trabalho foi importar toda a base de dados de 70 anos de corridas para depois incorporar com os novos insights obtidos nas provas posteriores.
“O exemplo da Fórmula 1 é um caso de muito sucesso porque essa disciplina de tratar a camada de dados já acontece há muitos anos. Hoje, vemos a aceleração da adoção de tecnologia de IA muito por conta dessa disciplina que aconteceu nos anos anteriores”, destaca.
A inteligência artificial entra no processo para analisar os dados e contar a história a partir disso. Durante a corrida, é possível analisar qual é a melhor estratégia para um pit stop ou em qual volta um carro terá a oportunidade de ultrapassar o outro ao manter o ritmo de velocidade.
A possibilidade de prever cenários também alimenta o campo das hipóteses num esporte em que as decisões precisam ser tomadas em pouco segundos e têm consequências por toda a prova. A pergunta “e se o piloto fizesse isso?” ganha outro contexto com o impulso da IA.
“A inteligência artificial para fazer censo desses dados e trabalhar não no olhar histórico do que aconteceu, mas trabalhar também um olhar de predição: o que poderia acontecer no futuro com diferentes decisões nessa corrida. Se o piloto tivesse feito uma curva com um pouco mais de de aderência, quanto tempo eu teria ganho e o que teria acontecido como resultado?”, detalha Fernanda Spinardi.
O fã como parte da corrida
Quem já assistiu a uma transmissão recente da F1 pode notar as diversas inserções de dados e elementos gráficos que reforçam as disputas que ocorrem entre todas as posições.
No GP de Interlagos, disputado no domingo (08) com dois brasileiros no grid, não vai ser diferente.
Alguns fãs mais apaixonados podem até adotar uma segunda tela para acompanhar os tempos de voltas junto com a corrida, mas a própria transmissão original já reforça algumas das disputas e números mais importantes da prova.
Antes de uma decisão de parar nos boxes, por exemplo, o espectador pode entender qual é a melhor janela ou o tempo necessário para que isso não ameace a posição de um dos pilotos. “Dá a possibilidade de pensar em ser um estrategista de uma equipe de Fórmula 1”, defende Fernanda Spinardi.
