80% dos brasileiros já viram deepfakes, mas quase ninguém os detecta
Por Marcelo Fischer Salvatico |

A capacidade humana de identificar um deepfake está próxima do acaso. Uma pesquisa da Veriff, empresa de verificação de identidade digital, em parceria com a Kantar, mostra que 80% dos brasileiros já encontraram esse tipo de conteúdo online, o maior índice entre todos os países analisados, contra 60% nos Estados Unidos e no Reino Unido.
🎧Ouça o Podcast Canaltech no Spotify
🎧Ouça o Podcast Canaltech na Deezer
🎧Ouça o Podcast Canaltech no Apple Podcasts
No teste de detecção aplicado pelo estudo, a pontuação média dos participantes brasileiros foi 0,08 em uma escala de 1,0: quase nenhuma vantagem sobre um palpite aleatório.
Os dados integram o Deepfakes Report 2026. No Podcast Canaltech desta sexta-feira (15), a diretora de Mercados Emergentes da Veriff, Andrea Rozenberg, explica por que os critérios que as pessoas aprenderam a usar para detectar manipulações já não funcionam.
"Antes o conteúdo parecia robótico, você via pessoas com um dedo a menos, faltando um pedaço da orelha", diz Rozenberg. "As pessoas ainda estão presas em como esses conteúdos eram dois, ou dez anos atrás. A verdade é que hoje elas não conseguem identificar”.
A produção ficou acessível a qualquer pessoa. "Com duas fotos e um trecho de voz, já se consegue gerar um vídeo falando qualquer coisa", afirma a especialista. Segundo a Sumsub, as fraudes com deepfakes cresceram 126% no Brasil em 2025, mantendo o país responsável por 39% de todos os deepfakes detectados na América Latina.
Dos apps de namoro às eleições
Os golpes que exploram esse cenário variam em escala. Rozenberg cita perfis falsos em aplicativos de relacionamento, fraudes em transações bancárias e vídeos com candidatos políticos "falando coisas que nunca disseram, em lugares que nunca estiveram".
Com as eleições de 2026 no horizonte, e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tendo endurecido as regras para uso de IA em campanhas, o risco de desinformação eleitoral por deepfake é concreto.
O levantamento indica que 87% dos brasileiros têm medo de golpes e fraudes de identidade, o maior nível de preocupação entre os países pesquisados. Outros 81% temem que conteúdos manipulados interfiram no debate político.
Diante desse cenário, Rozenberg defende proteção em múltiplas camadas: algo que o usuário sabe (senha), algo que tem (celular) e algo que é (biometria facial). "Se a gente pegar só uma delas, fica muito frágil", diz. O alerta se estende às empresas: segundo ela, muitas ainda estão aprendendo sobre a sofisticação dos ataques.
Para reduzir a exposição no dia a dia, as recomendações são diretas: desconfiar de pedidos urgentes, criar palavras-chave com familiares para verificar identidade em contatos pelo WhatsApp, não reutilizar senhas e ativar autenticação em dois fatores sempre que disponível.
No longo prazo, Rozenberg prevê que mecanismos de verificação digital se tornem infraestrutura básica da internet, o que a Veriff chama de "passaporte digital universal". "O que não tiver esses selinhos, a gente realmente tem que desconfiar muito", conclui.