Hackers russos teriam se passado pelo ISIS para ameaçar famílias de militares

Por Felipe Demartini | 09 de Maio de 2018 às 12h06
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Uma reportagem publicada pela agência de notícias Associated Press acusa hackers russos de se passarem por terroristas do ISIS para ameaçarem esposas e familiares de militares. Seria uma campanha voltada para o terrorismo psicológico, mirando, principalmente, os entes de oficiais de médio e alto escalão das Forças Armadas.

A matéria afirma que o CiberCalifado, suposto braço digital do Daesh, seria operado, na realidade, pelo Fancy Bear. O grupo de hackers russos é o mesmo responsável pela manipulação nas eleições americanas de 2016 e também pelo vazamento de e-mails de John Podesta, diretor da campanha presidencial de Hillary Clinton. As ameaças foram feitas no início de 2015 e amplamente divulgadas pela imprensa como parte de uma campanha contra a segurança nacional dos Estados Unidos.

“Sabemos tudo sobre você, seu marido e família. Estamos mais próximos do que você imagina”, dizia uma das mensagens enviadas por meio do Facebook Messenger para Angela Ricketts. Ela é a autora de No Man’s War, livro em que relata o cotidiano de esposas de militares enviados para pontos distantes do globo, falando sobre a morte de amigos, a distância de entes queridos e o dia-a-dia de quem se acostumou com a ideia de que uma despedida pode ser o último contato.

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O alvo da campanha era, justamente, gente com notoriedade. Familiares de militares com atuação ativista ou política, por exemplo, receberam ameaças de morte, principalmente enquanto seus maridos estavam em zonas de conflito. Autoras e blogueiras também foram levadas a acreditar que uma invasão a sistemas de e-mail e telefones celulares teriam exposto seus dados pessoais, algo que nem sempre era verdade.

Mais do que isso, as ameaças seriam parte de uma operação de espionagem ainda maior, envolvendo quase cinco mil jornalistas, políticos, oficiais de segurança do governo e empresas privadas ligadas aos ramos da defesa e do militarismo. A manipulação das eleições presidenciais, por meio de propagandas em redes sociais e vazamento de informações pontuais, era outra etapa dos atos realizados pelo Fancy Bear durante a guerra digital orquestrada pelo governo russo.

O último ato confirmado do tal CiberCalifado ocorreu em abril de 2015, quando os sistemas da rede de televisão francesa TV5 Monde foram completamente desativados. Sites oficiais e páginas da emissora nas redes sociais foram desfigurados para exibirem imagens relacionadas aos terroristas, enquanto redes internas de comunicação, bem como o sinal emitido aos espectadores, ficou fora do ar. Desde então, os terroristas digitais não assumiram a autoria de outros ataques nem estariam por trás de golpes subsequentes.

De acordo com especialistas, esse desaparecimento teria a ver com o fato de que o grupo, na realidade, nunca existiu, mas servia como uma fachada para que terceiros pudessem realizar atos sem serem descobertos. A ideia seria, justamente, afastar qualquer hipótese de associação entre o governo da Rússia e os ataques hackers, atribuindo-os a uma organização desconhecida e ramificada, que as agências de segurança possuem notória dificuldade em rastrear.

O objetivo final seria espalhar o pânico, criando o que especialistas militares já chamam de “terrorismo psicológico”. À distância, esses agentes seriam capazes de disseminar informações falsas e fazer ameaças que influenciariam em decisões importantes ou gerariam a movimentação de recursos. Tais atos podem ser acessórios de operações maiores ou, então, apenas uma maneira de fomentar o caos e espalhar desconfiança entre uma população inimiga.

É justamente essa a noção constatada por Ricketts. Falando à reportagem, ela disse que a ampla cobertura da mídia sobre as ameaças feitas às esposas e familiares de militares gerou exatamente o efeito que os responsáveis gostariam: um clima de incerteza e medo, mesmo que não existisse nenhuma ameaça real a ser enfrentada. “A reação foi, provavelmente, a que [os responsáveis] queriam ver”, completou.

Fonte: Associated Press

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