The Town of Light: um jogo com muito a dizer [Análise]

Por Felipe Demartini

Em uma primeira olhada, The Town of Light pode se parecer com um jogo de terror como tantos outros que temos por aí. Desenvolvido de forma independente pelo estúdio italiano LKA e usando a engine Unity, assumimos a visão da protagonista, em primeira pessoa, enquanto descobrimos os segredos de um local abandonado.

Isso quando, apenas, vemos as imagens de divulgação. Logo de início, o jogo já nos surpreende com algo inusitado – toda a história contada é baseada em fatos reais de um sanatório desativado na região italiana da Toscana. O local de paisagens belíssimas e um grande destino para o turismo, aqui, é a casa de uma trama horripilante, mas sem monstros ou assombrações. O que não faz com que o título seja menos aterrorizante.

Ao assumirmos o papel de Renée, uma das pacientes do hospício, entramos nos olhos de alguém que enfrentou o horror de uma instituição psiquiátrica de meados do século passado. Era um local onde os indesejáveis eram levados para serem esquecidos, sob o pretexto de terem suas enfermidades tratadas, com procedimentos que confundiam a transformação de alguém em um vegetal com a cura.

Seguindo pelos labirintos da mente da protagonista e também do hospício italiano fielmente recriado para o game, nos colocamos diante de uma história de abuso, violência e melancolia. Ao caminhar pelos corredores e encontrar documentos e artigos, vamos montando as peças de um quebra-cabeça que fica cada vez mais perturbador enquanto Renèe se lembra de tudo o que passou naquele lugar.

A diferença entre loucura e realidade é incrivelmente tênue em um ambiente no qual seus habitantes são considerados menos do que seres humanos, estando à mercê de enfermeiros que colocam para fora seus desejos mais cruéis e médicos experimentam como se estivessem diante de cobaias de teste. Nada disso chega ao lado de fora, e estar lá dentro, mesmo que virtualmente, é simplesmente aterrorizante.

Reprodução fiel, mas cheia de falhas técnicas

Chega a ser estranho comparar o primor técnico da reprodução do sanatório em que se passa The Town of Light com o restante do conjunto do título. De um lado, temos uma reconstrução completamente fiel e assustadora, que fica ainda mais forte depois que se termina o game e assistimos ao clipe da música tema, que traz imagens reais do local.

A história também é contada por desenhos crus e extremamente imperfeitos, mas que dão a dose completa da loucura que a permeia. Nas cutscenes ou nos diários de Renèe, presenciamos de maneira visceral a perda de sua mente, as relações familiares destroçadas e os caminhos que levaram ao sanatório. Ruim de fora, pior lá dentro, já que os terrores da instituição também se apresentam de forma incrivelmente cruel.

Por outro lado, o que vemos são gráficos apenas medianos, com uma série de repetições de elementos e muitos pop-ins. Não será incomum ver arbustos, desenhos ou outros aspectos do cenário simplesmente surgindo na frente do jogador enquanto ele anda pelos corredores ou fica preso em paredes invisíveis que surgem aqui e ali.

Em sua configuração padrão, os controles também deixam a desejar principalmente no que toca a sensibilidade da câmera, que felizmente, pode ser regulada. Os poucos comandos, que envolvem apenas acender ou apagar uma lanterna ou interagir com objetos, nem sempre funcionam como deveriam, muitas vezes impedindo o usuário de abrir uma porta ou pegar um item essencial para avançar, a não ser que ele esteja posicionado exatamente em frente.

The Town of Light também chama a atenção por sua linearidade, mas não entrega muitos artifícios para que o jogador consiga seguir de forma direta até o objetivo. Em um jogo como esse, indicadores poderiam estragar a experiência, mas, ao mesmo tempo, andar a esmo pelos mesmos corredores do sanatório enquanto tentamos encontrar o caminho a seguir pode tornar a experiência monótona.

Toda a navegação acontece por meio das falas da personagem, que, ao recuperar a memória, leva o jogador pela mão. Entretanto, suas indicações são pouco conclusivas, assim como o sistema de dicas, e uma olhada nos mapas espalhados pelo local não é suficiente para indicar o caminho a seguir. Enquanto vaga em busca de continuidade, o jogador pode acabar vendo a proposta aterradora se esvaziando.

O título apresenta ainda o que parece ser um sistema de escolhas, que surge sem nenhum tipo de explicação e parece não exercer mudança alguma sobre a história. Em alguns momentos de quebra da quarta parede, o jogador parece ser capaz de se comunicar com Renèe, fazendo questionamentos ou prestando auxílio emocional.

O sistema funciona com múltipla escolha e uma resposta errada pode colocar tudo a perder. Os reflexos disso sobre o enredo ou alinhamento da personagem, entretanto, não são nada claros e o jogo parece continuar como se nada tivesse acontecido, independente do resultado da comunicação. Algo que deixa o jogador com uma interrogação na cabeça e que também acaba entrando no caminho da história.

Com tudo isso, The Town of Light acaba sendo um game que merece ser conhecido, mas que não apresenta a melhor das experiências quando é efetivamente jogado. A história horripilante e com uma forte mensagem antimanicomial é interessante, mas, para muita gente, pode acabar afogada em meio a mecânicas ruins e pouco conclusivas.

The Town of Light foi analisado no PlayStation 4 em cópia gentilmente cedida pela Wired Productions

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