Terceirização em games: como funciona e por que quase todo estúdio usa
Por Gabriel Cavalheiro • Editado por Jones Oliveira |

A indústria dos videogames passou por mudanças profundas, assim como muitos outros setores, durante a pandemia da covid-19. Na época, as desenvolvedoras viram um boom de engajamento com jogos; afinal, quase todo mundo estava em casa em quarentena. Para atender a essa demanda fora do normal, os estúdios escalaram ainda mais os projetos e as equipes, o que viria a se tornar um problema num futuro próximo.
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Com o fim da pandemia, as produtoras se viram encurraladas com times gigantes, queda no faturamento anual e aumento nos custos de desenvolvimento. O setor ainda viu retração nos investimentos externos, e o resultado não poderia ser outro: demissões em larga escala, cancelamento de projetos, fechamento de estúdios e aumento nos preços dos jogos.
Apesar de caótico, esse cenário vem favorecendo empresas que nem sempre aparecem nas capas dos jogos, mas que definitivamente estão nos créditos. Estamos falando dos estúdios terceirizados.
Dados do relatório State of Video Gaming 2026, de autoria do CEO da Epyllion, Matthew Ball, e publicado no início deste ano, apontam que o investimento em desenvolvimento terceirizado representou um total de 35,5%. As empresas entrevistadas para a pesquisa afirmaram terceirizar entre 60% e 95% do trabalho em áreas como animação, áudio e design de ambientes.
Em qualquer setor que envolva trabalho humano, a terceirização sempre vai ser um tema polêmico. Muitos acreditam que a prática serve apenas para cortar gastos e pagar bem menos para que outras empresas façam um serviço de qualidade. Isso não é 100% mentira, mas resumir a terceirização à simples economia pode ser um pouco desonesto.
O que é terceirização em games?
A terceirização nada mais é do que contratar equipes e profissionais externos para executar partes do trabalho, ou até mesmo desenvolver um jogo em conjunto com o estúdio principal. Essa prática já é bem antiga, mas vem ganhando força e se expandindo para outras áreas, além da localização, trilha sonora e do departamento de QA (Teste de Qualidade).
As empresas terceirizadas costumam focar em áreas específicas e reúnem profissionais de todo o globo. Há as especializadas em ports, como a Panic Button (que levou Forza Horizon 5 ao PlayStation 5), enquanto outras cuidam da otimização, recursos multiplayer, etc.
A atividade pode envolver tanto partes específicas do projeto quanto o desenvolvimento como um todo. Claro que isso não significa que os estúdios que detêm o projeto não fazem nada. Também não significa queda de qualidade, desde que a detentora da IP (Propriedade Intelectual) mantenha um certo padrão e uma boa comunicação.
Por que os estúdios terceirizam?
Há inúmeros motivos para os estúdios contratarem desenvolvedores e profissionais externos, além do mero corte de gastos. A terceirização é uma porta de acesso a talentos globais que oferecem serviços mais especializados.
É uma opção mais viável para a empresa, tanto por razões financeiras quanto no quesito tempo. Pode demorar até que se encontre o profissional ideal para um determinado cargo, além de ser muito mais barato trabalhar com pessoal temporário em vez de manter um desenvolvedor fixo.
Outro motivo é a escalabilidade dos jogos AAA. Os games estão ficando cada vez maiores e com mais detalhes, o que demanda mão de obra extra e agilidade para as entregas dos marcos de desenvolvimento, ao passo que os processos se tornam cada vez mais caros. Parte disso é um problema de otimização das próprias empresas; basta ver produtoras japonesas como a Nintendo, que raramente se envolve em grandes cortes de pessoal.
Outro ponto importante que pode exigir o trabalho de terceiros é a cobertura global. Um estúdio da Europa pode ter problemas para chegar ao público brasileiro, por exemplo. Uma empresa terceirizada local, no entanto, pode oferecer um serviço mais personalizado para a região, seja na área de marketing ou até mesmo de localização.
Com a terceirização, as empresas se expõem a menos riscos, desde que ambas as partes dancem conforme a música. Muitas desenvolvedoras optam por manter a parte criativa de um determinado projeto nas mãos da equipe interna, enquanto terceirizam a parte mais técnica e braçal da produção, mantendo, assim, um certo controle criativo.
As desenvolvedoras e os profissionais terceirizados têm um papel ainda mais forte no atendimento a estúdios independentes. Esse tipo de parceria permite que o dev indie possa concretizar ideias com escopos maiores, mesmo com uma equipe pequena. Esse é o caso de Hollow Knight: Silksong, usado como exemplo no relatório da Epyllion. De todos os envolvidos no projeto, 95% não fazem parte do núcleo da Team Cherry, formado por apenas três pessoas. Obviamente, isso não significa que os criadores de Silksong ficaram com a menor parte do trabalho; muito pelo contrário.
O que é preciso para dar certo?
Para a terceirização de um jogo ser bem-sucedida, é necessária uma comunicação nada menos que perfeita entre contratado e contratante. O estúdio dono da IP precisa deixar claro o que fica a cargo da equipe interna e o que fica para a parceira terceirizada desde o início do projeto.
Os marcos de desenvolvimento precisam estar bem alinhados e representar algum tipo de valor. Muitas parceiras terceirizadas cobram por marcos alcançados, dependendo do tipo de contrato e serviço. Nessa parte, os critérios de satisfação da desenvolvedora que contratou a terceirizada precisam ser muito claros. Qual é o nível de desempenho e qualidade aceitável?
Também é preciso integrar bem os times externos na forma como o estúdio trabalha, incluindo as ferramentas que usam, a cultura e o processo de onboarding. Isso permitirá que o pessoal terceirizado não só alcance os marcos de desenvolvimento, como também entregue um trabalho de qualidade.
Há também a necessidade de o estúdio proprietário definir alguém responsável por supervisionar e acompanhar o time terceirizado (avaliando desde as entregas até as demandas da equipe), garantindo, assim, ainda mais uniformidade.
Outro detalhe extremamente importante é como será a gestão de recursos e da propriedade intelectual da empresa contratante. Quais tecnologias e assets devem ser devolvidos para a desenvolvedora interna? Qual é a multa estipulada para vazamentos e quebras de NDAs (Acordos de Confidencialidade)?
A terceirização está longe de ser um mar de rosas
Apesar de permitir que jogos com grandes escopos ganhem vida, não podemos ignorar os sérios problemas relacionados à prática da terceirização. O primeiro deles é o famigerado corte de custos.
Embora as necessidades de um determinado estúdio estejam além do corte de custos, a terceirização pode gerar uma precarização nos salários dos trabalhadores internos contratados, que podem passar a receber menos para trabalhar em um número ainda maior de projetos.
Há relatos de que grandes produtoras se utilizam de mão de obra barata em mercados de países em desenvolvimento. Em uma reportagem do canal People Make Games, jovens desenvolvedores de estúdios da Malásia e da Indonésia relatam jornadas semanais de trabalho de 70 horas, com produtoras que economizam no pagamento de horas extras e folgas compensatórias.
Além dos problemas envolvendo os profissionais, a terceirização traz vários outros riscos ao desenvolvimento de jogos. Há, por exemplo, a perda de controle criativo, o que pode ser um problema grave — em especial para grandes franquias, cujos fãs costumam ser bem exigentes. Outro problema frequente é a falta de comunicação e a gestão do cronograma, que pode fugir totalmente do controle da empresa contratante e resultar em atrasos.
Terceirização deve se expandir
A terceirização do desenvolvimento de jogos está entre nós há anos e deve crescer com o passar dos anos, devido ao crescimento do escopo técnico e criativos dos jogos que vem chegando. Enquanto estruturas de localização, um ótimo exemplo é o da The Pokémon Company, e outros setores como QA e trilha sonora, já faz parte da terceirização há um tempo, novos setores como animação e arte também estão entrando neste balaio.