Prévia | Daymare: 1998 é a mistura de Survival Horror com os sonhos dos fãs

Por Felipe Demartini | 21 de Julho de 2019 às 12h10

Você pode já ter virado o game de cabeça para baixo e até se esquecido dele, mas houve um tempo em que um remake de Resident Evil 2 ainda parecia um sonho distante. Após o belíssimo trabalho feito por Shinji Mikami em 2002, trazendo de volta o primeiro jogo da franquia de horror de forma ainda mais interessante, os fãs logo se perguntaram: e a sequência? Afinal de contas, estamos falando aqui de um dos jogos mais importantes de todos os tempos.

Durante mais de uma década de pedidos, petições e rumores que nunca davam em nada, recaía sobre os fãs o trabalho de trazer de volta, com gráficos e mecânicas atuais, um dos títulos mais renomados do mundo. E ao lado da obra do brasileiro Rod Lima, outra chamava a atenção: o remake de Resident Evil 2 que estava sendo desenvolvido pelos italianos do Invader Studios. O projeto acabou se tornando o padrão a ser seguido por todos os interessados nessa empreitada, mas o tempo passou, o jogo oficial veio e, agora, temos o primeiro contato com a evolução de todo esse trabalho.

Daymare: 1998 nasceu ainda em 2015, quando o produtor Yoshiki Hirabayashi, da Capcom, proferiu as famosas palavras “We Do It” no antológico vídeo de anúncio do remake de Resident Evil 2. Convidados a irem até o Japão para conferirem o que a empresa estava fazendo e, ao mesmo tempo, darem seu feedback sobre o trabalho que vinham realizando, os membros do Invader Studios retornaram para a Itália cheios de ideias. Eles sabiam que o que tinham em mãos era precioso e que, além disso, estávamos em um momento de ressurgimento dos jogos de terror.

Mais de três anos se passaram e, agora, o resultado desse retorno às raízes está prestes a chegar às nossas mãos. Com lançamento previsto para o início deste segundo semestre, Daymare: 1998 carrega consigo o passado e o presente. Jogando, dá para sentir claramente a influência dos clássicos de Resident Evil, mas também das mecânicas contemporâneas de uma jogabilidade que, ao mesmo tempo, oprime ao mesmo tempo que dá ao jogador diferentes meios para combater as ameaças.

Prévia de Daymare: 1998 traz os primeiros momentos de uma das três aventuras principais do game (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

O jogador controla Liev, um dos três protagonistas que estarão na versão final do game. Com ares misteriosos e aparência de quem já viu sua bela cota de combates, o agente da H.A.D.E.S. é enviado a uma instalação de pesquisa para recuperar amostras de um agente químico, enquanto percebe rapidamente que o local já foi para o inferno devido a um vazamento. Soa familiar?

O intuito da demonstração, mais do que dar uma amostra do que está por vir, é exibir as características de Daymare: 1998. E o game, logo de início, já chama a atenção pelo clima de desolação, com um cenário completamente devastado e que demonstra, claramente, que algo de muito ruim aconteceu ali. Quando o primeiro zumbi aparece, em meio à fumaça e os ótimos efeitos de iluminação, é só a continuidade de um pesadelo que já dizimou muita gente.

Progressão e quebração de cabeças

Enigmas de Daymare: 1998 fazem referências e exigem raciocínio e exploração de cenários (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Quando falamos do remake de Resident Evil 2 e Daymare: 1998, estamos falando de projetos em grande escala que caminham lado a lado. Sendo assim, fica difícil saber exatamente quem bebeu da fonte de quem. Mas a verdade é que isso não importa, principalmente quando um dos aspectos mais presentes dos velhos jogos de terror é um dos fios principais da oferta da Invader Studios. Aqui, nada de ação e loucura, mas sim muito cuidado a cada passo. Até demais, para ser sincero.

A versão permite dar uma olhada no sistema de controles que propiciam o combate, mas também garantem a exploração e a visualização dos cenários em busca de itens. Eles são poucos, com uma escassez que chega a passar dos limites quando percebemos ter quase que a exata quantidade de munição necessária para finalizar o primeiro arco da demo. Caso o jogador erre alguns disparos, algo nada surpreendente levando em conta o peso da jogabilidade, pode se ver em maus lençóis.

Durante nossos testes, nos vimos em um momento de “quebra” quando realizamos os enigmas necessários para enfrentar o primeiro boss, entretanto não tínhamos as balas necessárias para dar cabo dele. Sem um sistema progressivo de saves manuais, não era possível retornar a um momento anterior, obrigando o reinício completo da jogatina para que a munição fosse preservada, ou encarar o monstro com os fraquíssimos ataques corporais que, menos do que porradas, servem apenas como forma de afastar os inimigos em uma situação de perigo.

Na versão prévia de Daymare: 1998, dificuldade ainda estava desbalanceada, com pouquíssimos itens e somente os recursos essenciais para seguir (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

O momento representou uma falha de jogabilidade já que, mesmo na dificuldade mais baixa, a demo de Daymare: 1998 parecia não entregar os recursos mínimos necessários para prosseguir. No segundo arco da demonstração, já na cidade devastada de Keen Sight, encontramos um único item de cura para um longo trecho cheio de zumbis e monstros, em que a munição é igualmente escassa. Um trabalho de balanceamento, aqui, parece ser apenas um dos tantos elementos nos quais a Invader Studios ainda precisa trabalhar antes do lançamento.

Essa ausência de itens de cura também nos levou a passar boa parte da demonstração com um mísero ponto de vida, enxergando os cenários completamente em preto e branco. Felizmente, os puzzles disponíveis na demo não exigiam que enxergássemos em cores, enquanto mais referências saltavam aos olhos. Foi com um sorriso no rosto que ligamos a energia do complexo ao melhor estilo Jurassic Park, enquanto olhamos para o teclado do próprio computador que usávamos para jogar de forma a cumprir outro enigma que exigia traduzir letras para o grego.

Podem parecer elementos pequenos, mas eles são fruto de uma abordagem que nem mesmo existe nos dias de hoje, nas quais os puzzles de um título desafiam o jogador tanto quanto os combates em si. Como nos velhos tempos de Resident Evil e Silent Hill, explorar o cenário é essencial não apenas para obter munição e itens de cura, mas também para encontramos o conhecimento necessário para resolvermos enigmas.

Daymare: 1998 investe pesado na ambientação para aterrorizar, mas expressões faciais ainda requerem muito cuidado (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Para alguns, isso pode soar como uma desaceleração da jogatina, mas trata-se de uma sensação maravilhosa que há muito tempo não sentíamos. Fica clara, aqui, a ideia de trazer os elementos de um passado tão distante e irretocável, até mais do que a obra da Capcom, fruto de um desenvolvimento segmentado que uma empresa do tamanho da japonesa, em um projeto do calibre do remake de Resident Evil 2, simplesmente não poderia alcançar. E é ótimo que tenhamos essas duas faces de uma mesma moeda aparecendo com tal força.

Daymare: 1998 ainda carrega um aspecto um bocado único, que não vamos revelar aqui por se tratar de um spoiler no enredo, mas que o diferencia de forma bastante acentuada de suas raízes. Os fãs sempre clamaram por um jogo protagonizado pelo personagem HUNK, alguém que caminha no limite entre o bem e o mal. Isso nunca aconteceu por meios oficiais, mas a Invader Studios parece criar um alinhamento claro para seu personagem principal e, acima de tudo, coloca o jogador em uma posição na qual ele jamais esteve em toda a saga Resident Evil.

Encare seus medos

Daymare: 1998 nasceu como um projeto de remake de Resident Evil 2, feito por fãs, e evoluiu para algo muito maior (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

No contato com a demonstração de Daymare: 1998, sempre temos de levar em conta se tratar de um jogo em desenvolvimento, que ainda está sendo trabalhado. Entretanto, sabemos também que a previsão de lançamento é para o verão americano de 2019, no qual estamos atualmente, e acaba em algumas semanas. A triste constação, na somatória de maravilhas e problemas, é que não estamos diante de um título pronto para chegar ao mercado.

Seja pelo já citado peso nos controles ou pela escassez demasiada de itens, a ponto de atrapalhar a jogabilidade, ou pelos bugs nas animações e a cara de cera dos personagens principais, percebemos que estamos diante de um trabalho altamente promissor, mas que ainda possui um longo caminho a seguir. No que percebemos pela demonstração disponibilizada de forma bastante limitada, não parecemos estar diante de um título prestes a ser lançado.

Essa acaba sendo a maior ameaça a um projeto de tamanha magnitude e com gente claramente talentosa no comando, mas também exibindo suas limitações. O mundo do Survival Horror é escuro, conturbado e cheio de características grotescas, com todas elas aparecendo aqui de forma bastante pertinente. A alma é aterrorizante, como no passado do qual tanto sentimos falta; o corpo, entretanto, ainda requer pesquisas e desenvolvimento para se tornar apto para os anseios de seus criadores.

Daymare: 1998 tem lançamento previsto para o começo do segundo semestre deste ano, inicialmente nos PCs. Versões para o Xbox One e o PlayStation 4 também estão nos planos dos desenvolvedores.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.