Entrevista | Horizon Chase Turbo chega para turbinar mercado brasileiro de jogos

Por Jessica Pinheiro | 18 de Maio de 2018 às 13h37

Um dos maiores sonhos da comunidade, sem dúvidas, é ir a uma loja de videogames e ver nas prateleiras diversos títulos desenvolvidos por brasileiros. Embora já tenhamos muitos jogos produzidos em terras tupiniquins vendidos digitalmente, ter eles em caixinha muda a perspectiva do mercado como um todo, inclusive dos jogadores. Imagina ter uma seção de games feitos no Brasil entre o seu catálogo de mídias físicas? Que legal seria, não é mesmo?

O cenário pode estar mudando com um importante primeiro passo dado esta semana, graças ao lançamento de Horizon Chase Turbo, o primeiro game brasileiro lançado em mídia física para PlayStation 4. Originalmente lançado para dispositivos mobile em 2015 e arrancando elogios por onde quer que passasse, Horizon Chase foi um sucesso de crítica e de público; agora, é relançado em uma versão aprimorada.

Nós sabemos a importância desse lançamento para o mercado brasileiro de jogos e, para destrinchar melhor o que esse momento significa e até mesmo nos dar alguns insights legais sobre o processo por trás dessa remasterização, nós entrevistamos Sandro Manfredini, diretor de negócios e sócio do estúdio gaúcho Aquiris, responsável por Horizon Chase.

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Mudanças gerais na versão turbinada

Abrimos nossa conversa com Sandro perguntando se houve algum motivo a mais para o relançamento de Horizon Chase, além da monetização envolvida, o que é importante para o mercado e todos os empregados na área; afinal, o game já havia sido muito bem-recebido quando foi lançado há cerca de três anos. O executivo nos explicou que o subtítulo Turbo foi agregado ao game justamente porque o PlayStation 4 e os PCs precisavam de uma outra experiência.

Horizon Chase Turbo é o primeiro game brasileiro a sair em mídia física para PlayStation 4 (Foto: Derek Keller/Canaltech)

“Tudo é diferente, desde o controle na mão à tela grande. A gente na verdade fez uma outra versão”, comenta. Este novo game, inclusive, demorou mais do que a versão original, do ponto de vista de desenvolvimento, em suma por conta dos modos novos como, por exemplo, o multiplayer local e o Ghost Mode, que são um pouco complexos de serem feitos. “A gente mudou todo a interface de usuário, ela tem mais conteúdo, tem pistas e carros novos, e mesmo as pistas que a gente reaproveitou, nós fizemos um redesign nelas”, complementa Sandro. As mudanças foram feitas também por conta do joystick, o que pode exigir mais do jogador, já que agora ele não fica limitado a apenas ficar tocando a tela de um dispositivo.

Quando questionado se as mecânicas também tiveram mudanças drásticas, Sandro respondeu que basicamente não, mas a versão Turbo recebeu algo que não existia no mobile, que é o botão de freio. “Mas a grande diferença são os modos de jogo, como o multiplayer”. O executivo confessa que a equipe vem batendo muito em uma tecla específica, que é a de que o gamer irá chamar os amigos para jogar em casa com o multiplayer local.

Uma alternativa ao multiplayer local é o Ghost Mode, que permite aos jogadores competirem com amigos à distância; também há o Tournament, que oferece quatro corridas aleatórias, e, por fim o Endurance, que faz o jogador correr por 12, 36 ou 109 corridas randômicas, exigindo que ele chegue ao menos em 5º lugar para progredir e chegar até o final. “E quem fizer as 109 corridas sem cair de posição, desbloqueia um dos últimos carros do jogo”, revela Sandro. Parece bastante desafiador, certo? Bom, segundo o executivo da Aquiris, dá para salvar o progresso, mas é exigido que se chegue sempre em pelo menos 5º no ranking ao fim da corrida.

Sobre conteúdo retirado, a ideia é que a versão Turbo fosse uma adaptação bem-feita para uma plataforma nova porque o jogo alcançou 88 no Metacritics em 2015, consolidando-se entre os trinta melhores games do mundo em termos de notas, considerando todas as plataformas. “Foi algo que as pessoas realmente gostaram, e não queríamos estragar o que já estava bom, mas sim fazer essas adaptações, exigir um pouco mais do jogador, etc”.

O game foi lançado nesta terça-feira (15) para PS4 e PCs. (Imagem: Aquiris)

A trilha sonora, por sinal, também recebeu uma atenção especial, mais uma vez. “O Barry [Leitch] é apaixonado por esse projeto, e ele não fazia mais nada para jogos há algum tempo. Quando a gente achou ele em 2015 ele comprou muito a ideia e obviamente que ele não ia ficar de fora dessa nova versão”. A trilha sonora de Horizon Chase Turbo, inclusive, está sendo vendidas a parte na PlayStation Network e na Steam, como DLC. “As pessoas adoram ouvir a trilha sonora. Eu mesmo tenho o CD [da trilha], e quando eu estou na estrada eu coloco e é muito louco”.

Para todos os públicos, de todos os países

A nostalgia pode ser uma faca de dois gumes e podem surgir problemas quando se tenta agradar muito o público mais velho ou aqueles que são mais apegados às suas memórias afetivas. Todavia, Horizon Chase Turbo possui classificação livre, então perguntamos como foi a abordagem para chamar o público mais infantil, e também os jogadores que estão se aventurando nessa franquia pela primeira vez.

Sandro nos disse que o game cai superbem para esse tipo de público, muito embora as pesquisas de mercado que são feitas não detenham de informações especificamente voltadas para os mais jovens. O que existe é a observação em eventos, quando a Aquiris participa de algum; além dos depoimentos que a empresa recebe de sua base de fãs. “A gente recebe [depoimentos] de pais dizendo ‘nossa, esse jogo é incrível porque além de eu matar a saudade, eu consigo jogar com meu filho’, isso vira um elo. A gente está muito feliz com essa união de gerações que esse jogo está trazendo”.

Quanto ao público fora do Brasil, Sandro afirma que “visibilidade é o grande desafio da nossa indústria”, muito embora Horizon Chase tenha ido muito bem mundialmente, alcançando mais de 10 mil downloads. Todo esse histórico do projeto e assessorias de imprensa internacionais estão ajudando a Aquiris nos demais mercados, sobretudo o norte-americano e o europeu, com divulgação em veículos importantes. “Está indo bem na medida do possível”, alega o executivo. O principal voto de confiança também provém da comunidade, afinal as análises positivas geram curiosidade e chamam mais pessoas para partilhar desta experiência. “Os reviews que estamos vendo na Steam, 98% positivos, é o que às vezes dá tração”, explica.

Sandro visitou nossos escritórios para nos contar um pouco do processo e as novidades dessa nova versão, além de contar estratégias e planos para o futuro do mercado brasileiro de games. (Foto: Derek Keller/Canaltech)

Abragames e investimentos

Sandro também assumiu a presidência da Associação Brasileira de Desenvolvedores de Jogos Digitais (Abragames) há pouco tempo – mais especificamente no final de fevereiro. “Nós somos um grande grupo de empreendedores no mercado de games que se voluntaria para organizar essa instituição”, explica. “Eu entrei na indústria em 2011 e sempre procurei entender como é essa instituição e como eu poderia me juntar com outros colegas para a gente melhorar o que temos aqui”. Na prática, isso significa que não é possível e nem viável que somente uma empresa se dê bem; na verdade, é necessário um ecossistema para que todos os profissionais do segmento possam crescer. Com a união e o auxílio, a associação se tornou o que é hoje.

O atual presidente da associação também nos explicou um pouco da jornada da Abragames, contando-nos sobre eventos que geraram pesquisas de mercado e como eles esses estudos foram apresentados para o governo como uma espécie de plano de ação. Houve, ainda, o apoio da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX), cujo convênio concede à instituição a possibilidade de estar presente e, assim, poderem fazer negócios em eventos de games ao redor do mundo, tais como a GDC, a Game Connection, etc. Mais recentemente, houve uma parceria com a Ancine com dois editais publicados e R$ 20 milhões em investimentos em jogos que já estão em desenvolvimento.

O trabalho dos empresários que formam a Abragames é pautado basicamente em gerar tração para apoios que são fundamentais para o mercado brasileiros de jogos. “A gente espera que mais projetos legais surjam, estamos com expectativa de conquistar mais algum apoio ainda este ano”, complementa Sandro. Exemplo disso, diz o executivo, é o anúncio recente de um fundo de investimento para o setor de audiovisual, e os videogames são citados nessa divisão, o que sugere um possível aumento na verba de investimentos em 2018.

“A gente vê videogames como uma forma de cultura, de gerar receita e investimentos para o Brasil, de exportar o nosso trabalho... Todo mundo está vendo isso também, estamos em um bom momento”. Sandro inclusive adianta que a Abragames vai buscar algumas coisas relacionadas à regulamentação do setor, afinal os videogames ainda não constam na lei do audiovisual – o que, por sinal, é fundamental para que o segmento avance dentro do país.

O futuro da Aquiris e o easter egg do amor

Nos finalmentes de nossa conversa, pedimos para Sandro comentasse sobre o que o estúdio gaúcho pretende fazer no futuro. “Parte do plano é seguir investindo nessa franquia”, revela, acrescentando que existe a expectativa de que as versões físicas de Xbox One e Switch cheguem ainda este ano.

Depois, pedimos que o executivo nos contasse alguma curiosidade sobre o desenvolvimento do jogo. Ele falou sobre o easter egg do coração que foi incluído no game. Ao desenhar um coração na tela do smartphone no início da pista de São Francisco (a primeira corrida do jogo), aparece o pedido de casamento do compositor Barry Leitch para a sua hoje esposa. A história dos dois, inclusive, é contada brevemente em meio à cena especial quando o easter egg é desbloqueado.

“Na época [do desenvolvimento], o Barry contou a história dele e de seu antigo caso de amor”. A intenção era que o compositor fizesse o pedido de casamento à distância, porque não era possível que os dois se reunissem na época. “A gente adorou a ideia e falamos ‘cara, vamos fazer disso um easter egg’”, revela Sandro. A inclusão de algo tão simbólico corrobora com a ideia original por trás de Horizon Chase, que é justamente uma carta de amor aos antigos jogos de corrida. “Uma coisa foi juntando com a outra e [o Barry] topou muito a ideia”.

Outra história interessante por trás desse easter egg é a de quando um gamer achou o pedido de casamento antes de Barry mostrá-lo à sua pretendente. A equipe da Aquiris entrou em contato com o usuário pelo Twitter e pediu que ele guardasse esse segredo, pois o próprio compositor queria mostrar isso para sua mulher.

A partir disso, o estúdio bolou um esquema para que o aguardado momento se concretizasse: eles inventaram de chamá-la para um café com a desculpa de que todas as esposas, namoradas, etc. dos integrantes da equipe de desenvolvimento de Horizon Chase estavam sendo convidadas para dar um depoimento. “[O Barry] entrou por Skype com ela e pediu para ela entrar no jogo e fazer o coração. E aí ela viu pela primeira vez o pedido. É bem emocionante”, complementa Sandro.

Um preço justo para um game equilibrado

Por fim, Sandro comentou que “o mercado precisava de um jogo assim”. Afinal, os amantes de games do gênero de corrida cada vez mais recebem experiências densas e complexas de simulação, que exigem dedicação e até acessórios extras para aumentar a imersão. Horizon Chase, não. “Com quatro cliques você está jogando, tá se divertindo, já com outras pessoas junto...”.

“Não é fácil juntar o que a gente quer fazer com o que o mercado espera, e entregar”, complementa. Ele também destaca o equilíbrio entre a nostalgia e a memória afetiva e o novo, em especial porque Horizon Chase relembra muito aos mais saudosistas de títulos como Top Gear e OutRun. “Quando você compara algo com jogos tão importantes para a nossa cultura, também tem o risco, que é, se não entregar à altura, virar uma tentativa de cópia lixo”.

Horizon Chase também deu muito certo não apenas por trazer esse equilíbrio, mas também por conta de seu game design, cuja margem de aprendizado é bastante fluída; e a trilha sonora composta pelo icônico Barry Leitch, o que Sandro considera como os principais pilares do game. Para o executivo, o estilo de gráficos também é um forte fator, uma vez que o estúdio evitou utilizar pixel art e decidiu apostar em algo novo para o gênero na época.

Ter um game totalmente brasileiro em caixinha para PS4 nas prateleiras enche os gamers do Brasil de orgulho (Foto: Derek Keller/Canaltech)

O preço de R$ 49,90 de Horizon Chase Turbo para PlayStation 4 foi, inclusive, um trabalho conjunto com a Sony, revela Sandro. “Já que vamos trazer essa parceria inédita, como que a gente traria um preço que falasse com o público brasileiro?”. Ele explica que a Sony fez um estudo, já que ela possui mais experiência na parte de retailing e distribuição. O acordo, no fim das contas, envolveu cada parte contribuindo para que o título chegasse em um preço matador. Inclusive, na Steam, o game está sendo oferecido a R$ 37,49.

“A gente também acha que o efeito da estante vai ajudar”, brinca Sandro, acrescentando mais alguns fatores, como o fato de ter um selo na capa indicando que o jogo é 100% brasileiro; e que tudo isso fará com que o consumidor se sinta atraído a adquirir a sua cópia física, orgulhando-se do feito como um todo.

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