Em meio a demissões globais, Brasil vira "grande fábrica" de jogos AAA
Por Gabriel Cavalheiro • Editado por Jones Oliveira |

A indústria de games no Brasil está em uma fase de amadurecimento. Pode não demorar muito para que possamos ver ainda mais jogos grandes, no nível de Hollow Knight: Silksong ou Clair Obscur: Expedition 33. O que muitos não sabem é que já temos desenvolvedoras brasileiras envolvidas em grandes produções AAA por meio do outsourcing.
- Terceirização em games: como funciona e por que quase todo estúdio usa
- Você sabia que 95% do desenvolvimento de Silksong foi terceirizado?
Em seus primeiros anos de mercado, muitos devs apostam em produções para dispositivos móveis ou oferecem serviços de game design, animação, entre outros, para estúdios externos. Isso é o que chamamos de outsourcing, co-development, external development ou terceirização. Essa tática serve principalmente para que esses estúdios consigam arrecadar fundos para investir em suas próprias produções.
É neste cenário que temos exemplos como a Kokku, desenvolvedora do Recife que contribuiu com produções como Horizon Forbidden West e Call of Duty. Sabemos que o outsourcing já é tendência no mercado global, e o cenário não é tão distante do que vemos aqui no Brasil.
Uma pesquisa da Epyllion publicada no início deste ano apontou que 35,5% do investimento total em conteúdo dos desenvolvedores foi destinado à terceirização do desenvolvimento. Apesar de comum, a prática já foi relacionada a problemas, em especial por se aproveitar de mão de obra barata de mercados emergentes para reduzir custos de desenvolvimento.
Por um lado, estúdios brasileiros têm a oportunidade de se envolver com grandes produções aclamadas globalmente, por outro, o outsourcing pode representar alguns perigos, em especial a exploração de mercados menores. Para falar sobre esse tema, tive a oportunidade de conversar com o presidente da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Digitais (Abragames), Rodrigo Terra, durante a gamescom latam 2026.
Crescimento dos estúdios de outsourcing no Brasil é algo bom?
Com o crescimento do outsourcing no Brasil, as empresas estrangeiras de games começaram a olhar cada vez mais para o mercado de games brasileiro. Iniciativas promovidas pela Abragames e ApexBrasil permitiram esse maior nível de visibilidade.
Estúdios menores entram neste mercado justamente para trabalhar em propriedades intelectuais próprias, mas acabam no setor de prestação de serviços para manter a estabilidade financeira. Terra explica que toda essa exposição permitiu que o mercado brasileiro fosse notado globalmente.
O retorno financeiro de serviços de external development e co-development permitiu que estúdios como Kokku, Diorama e Pulga Studios se consolidassem nesse modelo de negócios. Para o presidente da Abragames, não se trata de preferência pelo outsourcing ou IP original. "Eu diria que hoje estamos com o mercado bem dividido", afirma.
Terra destacou a gamescom latam 2026 como a prova de que o mercado exterior está com olhos abertos para os jogos e estúdios brasileiros. "Você vê os compradores aqui que estão no B2B; eles não estão de olho apenas na compra de serviços, como também na compra de novos jogos", destaca.
Grandes players do mercado, como a Nintendo, marcaram presença na feira de games. O objetivo das empresas não está apenas em contratar serviços em certas áreas, como também em publicar jogos por aqui.
Em nossa conversa, abordamos como a prestação de serviços para desenvolvedoras de fora pode atuar como uma espécie de treinamento para os devs brasileiros. Terra destacou que, embora essas oportunidades sejam positivas, podem ser um entrave para estúdios que trabalham tanto com o external development quanto com IP da casa ao mesmo tempo. O que pode acontecer é a criação de diferentes habilidades e expectativas entre os times internos.
Outsourcing no Brasil: mão de obra barata ou custo-benefício?
Há muita preocupação sobre os investimentos em prestação de serviços por parte de grandes produtoras, em especial quando falamos em mercados subdesenvolvidos ou emergentes.
Há vários casos que envolvem interesse em mão de obra barata, o que afeta não somente o desenvolvedor que recebe menos do que poderia — seja por uma questão de câmbio ou leis trabalhistas locais —, como também afeta diretamente as demissões em massa na indústria. É mais fácil e menos custoso para um estúdio contratar serviços terceirizados do que integrar desenvolvedores ao time da empresa em definitivo.
Terra acredita que no passado já houve uma percepção neste sentido, mas que o Brasil alcançou um nível de qualidade maior do que outros mercados, o que torna o setor de games por aqui uma espécie de custo-benefício para as empresas de fora. Segundo o presidente da Abragames, os estúdios nacionais conseguem entregar trabalhos em um nível de responsabilidade e qualidade no mesmo patamar das grandes produtoras.
"Agora, o nosso custo-benefício é que a gente tem uma disparidade do dólar real que favorece. Você consegue fazer uma empresa muito competitiva, sem precisar baixar seu preço", conta. O Brasil também possui vantagens geográficas em relação ao fuso horário para trabalhar com empresas da Europa e América do Norte, explica.
Para o presidente, a maturidade das empresas brasileiras reduz custos de coordenação que seriam mais altos em mercados como a China. "É muito melhor ele pagar mais para fazer no Brasil do que pagar mais barato na China, que ele vai ter um custo de coordenação muito alto", afima.
Estúdios brasileiros conquistam empresas de fora; mas e os consumidores?
É inegável que os estúdios brasileiros estejam chamando cada vez mais a atenção de empresas de fora. Esse aumento de visibilidade, no entanto, acaba se restringindo apenas ao polo B2B.
Terra identifica uma grande resistência dos jogadores brasileiros em consumir obras nacionais. Isso não fica restrito apenas aos videogames; o cinema também sofre com baixas bilheterias em território brasileiro. "Historicamente, a gente consome esse tipo de conteúdo vindo de fora", conta.
Ele explica que um dos motivos para isso é que a indústria brasileira de games ainda é muito recente. "Apesar de termos um Renato Degiovani desbravador nos anos 80 com [o jogo] Amazônia, não tínhamos um mercado nem nos anos 2000", relata. Terra deixa claro que há um grande desafio para o setor: que os jogadores entendam o potencial e vejam o valor do jogo brasileiro.
A percepção global dos jogos tem mudado ano após ano. O The Game Awards 2025 foi emblemático por abrigar três jogos considerados independentes na categoria de Jogo do Ano. Aliado a isso, jogos AAA estão cada vez mais distantes um do outro e caros. Os próprios estúdios têm tentado focar em produções mais baratas e de menor escopo, como a Obsidian Entertainment, do Xbox, por exemplo.
Neste cenário, o jogo brasileiro entra como uma espécie de curinga. "Além da originalidade, o jogo brasileiro está muito em voga com o que a sociedade quer consumir, que são jogos com uma perspectiva diferente, que tragam frescor, inovação e histórias novas", afirma o presidente da Abragames. Ele acredita que estúdios que estão produzindo novas propriedades intelectuais estão conseguindo chamar a atenção do mercado global. "A gente tem um problema de que, provavelmente, [os jogos] vão ter que fazer sucesso lá fora para depois virem para cá".
Quando os jogos brasileiros vão chegar ao nível de grandes mercados?
Uma das maneiras para estúdios brasileiros quebrarem a resistência de consumo de jogos nacionais por aqui é trazendo grandes produções de níveis globais. Mercados como a Polônia, Coreia do Sul e China têm firmado uma posição privilegiada, em especial por trazer grandes produções que não veríamos no passado fora da América do Norte, Europa e Japão.
Para Rodrigo Terra, o mercado de jogos brasileiros alcançará esse prestígio global em menos de uma década. "Não sei se vai ser o Assassin's Creed ou o FIFA, mas pode ser um novo Hollow Knight ou um Clair Obscur". O presidente acredita que o Brasil vai jogar no território aberto por grandes produções indie e AAA e que o país tem plena capacidade de jogar nesse campo.
Embora ainda não tenhamos um Gustave brasileiro, já temos visto algumas produções pesadas por aqui e com uma qualidade altíssima, mesmo para padrões globais.
Em 2025, recebemos o Zelda-like metroidvania Pipistrello and the Cursed Yoyo, da Pocket Trap. Também temos o frenético Mullet Madjack (Hammer95 e Epopeia Games), que conquistou uma média no Metacritic maior do que muitas produções AA e AAA. Não podemos esquecer da Pulsatrix Studios, que entregou AILA no ano passado e atua como uma verdadeira vanguardista no quesito técnico entre os estúdios brasileiros.