Cultura de crunch na Naughty Dog é tão forte que veteranos evitam trabalhar lá

Por Wagner Wakka | 18 de Março de 2020 às 12h50
Divulgação

A cultura do trabalho exagerado dentro da indústria de games não é uma novidade. A mídia especializada tem até um termo para isso: “crunch”. Segundo o jornalista Jason Scheirer, em seu livro Sangue, Suor e Pixels, a palavra se refere à onomatopeia para o barulho de ranger os dentes. Contudo, literalmente ela significa varar noites e ficar horas extras trabalhando para finalizar o desenvolvimento de um jogo. O estresse é tamanho que as pessoas começam a ranger os dentes, daí o crunch.

A existência de uma palavra para descrever o fenômeno demonstra a existência renitente dele. É comum que, no final do desenvolvimento de games e de produtos tecnológicos no geral, haja horas extras para refinar um produto. Contudo, a Naughty Dog, empresa sob o guarda-chuva da Sony, agora parece ter ido além dos já forçados limites.

O próprio Scherier, em texto para o Kotaku, descreve as condições de trabalho dos desenvolvedores na empresa. Ele fez entrevistas com atuais e ex-funcionários da companhia que está trabalhando no aguardado The Last of Us Part II. O título é a continuação da saga pós-apocalíptica de Ellie e Joel, um dos principais games do PlayStation 3.

Segundo os relatos, a empresa vai além até das costumeiras horas de crunch já esperadas para o desenvolvimento de um game. Um dos entrevistados (cujas identidades foram mantidas em segredo) relatou um episódio em que, perto das 9 da noite, um cano caiu sob a mesa de um dos funcionários. Por sorte, ninguém estava perto, mas o caso foi considerado simbólico pelos empregados. A empreiteira contratada disse que só trabalharia quando o espaço estivesse vazio, por questões de segurança, mas isso nunca aconteceu porque sempre havia alguém trabalhando.

Os funcionários relatam uma cultura de excelência que faz que os empregados cobrem de si mesmos o máximo, ficando até tarde, por vezes passando da meia-noite, e trabalhando aos sábados. A lei da Califórnia, onde fica o estúdio, não exige pagamentos de horas extras. Logo, as pessoas trabalham a mais na esperança do lançamento do produto, quando devem receber um bom bônus relacionado ao desempenho de vendas ou notas que o game recebe da crítica.

Insustentável

Scheirer conta que vários funcionários relataram uma cultura que os levaram ao burnout. O termo é relativo a um nível tão alto de estresse que as pessoas entram em estafa, sem conseguir pensar e com consequências severas de saúde. Por conta disso, uma série de veteranos da Naughty Dog pediu demissão da nos últimos meses.

Entre eles está Bruce Straley, um dos diretores de The Last of Us. Em entrevista concedida a Scheirer em 2018, ele disse ter deixado a companhia por estar sofrendo de estafa. Além de Straley, vários outros veteranos, principalmente do setor de design, deixaram a empresa. Com isso, a Nauthy Dog passou a ter dificuldade para encontrar funcionários seniores que topassem entrar para a equipe de desenvolvimento de seus jogos.

O cenário é reforçado por Jonathan Cooper, animador que trabalhou em Uncharted 4 e contribuiu no começo do ciclo de desenvolvimento de The Last of Us 2 antes de pedir demissão. Pelo Twitter, ele relata uma cultura parecida com a descrita por Scheirer: “Quando eu saí da Naughty Dog no ano passado, eles ameaçaram segurar meu pagamento final até eu assinar um documento adicional me comprometendo a não falar sobre as práticas de produção deles. Eles retrocederam quando disse que aquilo era meio que ilegal”.

Segundo o relato de Cooper e de fontes de Scheirer, a empresa passou a buscar funcionários menos experientes para dar conta do desenvolvimento. Contudo, exatamente por terem menos experiência e não estarem habituados às práticas de desenvolvimento da Naughty Dog, eles acabavam atrasando o desenvolvimento e gerando mais crunch, numa espécie de bola de neve.

“A reputação de crunch em LA era tão ruim que era quase impossível contratar animadores temporários para terminar o desenvolvimento de games. Assim, fomos para os animadores de filmes”, disse Cooper.

O problema é que esse tipo de animador está acostumado a trabalhar em uma indústria muito diferente da dos games. A falta de experiência em jogos também atrapalhou o resto da equipe, aponta Cooper.

Scheirer disse ter buscando tanto a Sony quanto a Naughty Dog para comentar sobre o caso e nenhuma das duas quis enviar um posicionamento.

The Last of Us Part II tem lançamento agendado para 29 de maio exclusivamente para o PlayStation 4.

Fonte: Kotaku, Jonathan Cooper (Twitter)

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