Análise | Wargroove traz um conteúdo imenso para amantes de estratégia em turno

Por Wagner Wakka | 27 de Maio de 2019 às 13h40
Wagner Wakka/Canaltech

A Chucklefish é uma desenvolvedora recente, mas não por isso menos relevante. A companhia data de 2011, como publicadora de grandes títulos tais quais Risk of Rain e Stardew Valley. Foi só muito depois que a companhia de fato resolveu fazer seu próprio jogo.

Quando o time lançou, lá em 2016, Starbound, ainda nem poderia saber o sucesso que esse primeiro título faria. Elogiado pela narrativa interessante, aliada a uma aventura bem resolvida e gameplay carismática, a empresa começou a desenvolver seu próximo título.

É neste contexto que nasce Wargroove, um game de estratégia por turno com estilo bastante cartunesco e divertido. Com seus três anos de desenvolvimento, o grupo teve tempo de sobra para experimentar e colocar tudo que aprendeu após o lançamento do debute em 2013.

Wargroove nos coloca na pele, principalmente, de Mércia. Ela é uma princesa que se vê rainha de Carmesinta diante da morte do pai após o ataque Sigrid. Ela é uma serva do Valder, lorde de Vilhein, reino vizinho e rival.

História é contada por elementos de pixel art (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Toda a trama do jogo é bastante simples, com alguns bons toques de reviravolta e mistério. Contudo, a ideia aqui não é contar uma história gigantesca, mas oferecer um pequeno embate entre vários reinos, cada qual com suas características.

Abundância

O que impressiona, e muito, em Wargroove é a quantidade de coisas que tem para fazer. A própria Chucklefish apresentou o título como quando “Advance Wars encontra Fire Emblem”. E eles acertaram exatamente aí.

É possível ver inspirações em ambos os games. Do lado de Advance Wars, vem muito das mecânicas de gameplay. Já de Fire Emblem, a inspiração estética e de criação de mundos é bastante clara.

Com isso, não espere contar apenas com algumas poucas variações de unidades com que você pode jogar ou enfrentar, mas ao menos 20 diferente tipos de soldados, armas e comandantes nos quatro reinos diferentes do mapa.

O interessante é que cada ambiente tem suas particularidades e história, em que você pode se aprofundar dentro dos códices.

Na parte de gameplay, ainda, há 14 diferentes terrenos nos quais você pode estar e que influenciam no seu ataque e defesa.

Tudo isso cria um sem número de combinações e exigem que o jogador tenha um certo tipo de empenho para entender e aproveite de todas as possibilidades a seu favor.

Mecânica

Uma das ideias mais inteligentes de Wargroove é a mecânica de ataque e contra-ataque. Na maioria das vezes, quando se está usando um soldado terrestre, atacar também significa sacrificar parte da vida da sua unidade. Isso porque a ação também vai gerar uma reação do inimigo, que muitas vezes pode ser até mais forte que seu ataque.

Todo personagem ainda tem um número pequeno na parte debaixo que indica a porcentagem de vida que ainda resta. Ou seja, se ele está com um número 5 indicado e meu ataque retira 78% da vida do adversário, ele provavelmente vai morrer antes de me contra-atacar.

Elementos de ataque e defesa mudam o jogo (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Outra ideia criativa de Wargroove é que as unidades (com o perdão da antítese) são na verdade conjuntos de um mesmo item. Ou seja, embora apareça apenas um bonequinho de soldado na tela, na animação há uma infantaria batalhando. Como consequência, quanto menos vida aquela unidade tem, menos poder de ataque ela também possui já que ela representa um grupo menor.

isso cria uma dinâmica muito, mas muito inteligente para Wargroove. Uma estratégia possível (que só fui aprender lá pelas tantas) é que um inimigo com menos de 10% de vida quase não tem força de ataque. Logo, pode nem valer a pena gastar um movimento para matá-lo aproveitando a rodada para seguir com seu objetivo.

Disparado, entender essa mecânica é a coisa mais difícil e prazerosa de Wargroove. Contudo, o game é muito bom em apresentar informações e oferecer ao jogador dados para que ele possa tomar a melhor decisão de jogada sem efetivamente ser levado pela mão.

Variações

Wargroove também é muito bom em tentar fugir da mesmice. No modo história, você pode passar por diferentes desafios diante do mesmo jogo. Veja bem, enquanto outros títulos de estratégia por turnos caem em fazer com que você destrua a base inimiga, aqui há sempre um objetivo maior em cada fase.

Elementos em tela podem ser variados com o tempo de jogo (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Em uma, é preciso apenas resgatar os aldeões que estão em perigo. Em outro, fugir perdendo o mínimo do seu exército. Claro que em algumas basta matar o comandante ou castelo inimigo para que tudo acabe. O ponto aqui é que as motivações são bem explicadas, justificando todos momentos de movimentação sem que isso se torne vazio.

Os ambientes e introdução de elementos, sobretudo no modo história, também são bem interessantes. Como o jogo tem muita coisa em seu menu, vai apresentando ao poucos diante da história, quase um tutorial para o modo multiplayer.

Isso faz com que até mesmo lá pelas 8 horas de jogo você ainda tenha uma coisinha nova para aprender e explorar. A curva de aprendizado aqui, apesar de por vezes lenta até demais, ajuda e muito na hora de pegar todas estratégias que Wargroove pode oferecer. E, provavelmente, você vai precisar delas.

Dificuldade

Não se engane com esse clima fofinho de pixel art do game. Apesar da vibe super positiva que ele traz, Wargroove vai moer com sua cabeça sem dó nem piedade. O jogo sugere que você comece na primeira vez no difícil. A minha sugestão é que você jogue inicialmente já em uma dificuldade abaixo (embora eu não tenha feito isso).

Este nível é realmente desafiador e pode fazer com que você se empaque em várias batalhas no modo história. O ponto complicado é que por conta de embates complexos e do alto nível da inteligência artificial, as fases e batalhas se tornam longas, bem longas.

Já no segundo ato do game, há uma batalha contra um outro comandante que supostamente seria seu aliado. Ele conta com uma habilidade especial que cria barreiras de árvores ao redor de si mesmo, como proteção. Na primeira vez que tentei vencê-lo a briga durou 1h30 de avanços e retraídas.

Ponto positivo para a inteligência artificial muito bem programada. Destaque altamente negativo para o meu nível de frustração de passar todo esse tempo dando murro em ponta de faca. O desgosto foi grande a ponto de abandonar um pouco o jogo e só animar de pegar de volta no dia seguinte.

Por outro lado, estamos falando de um jogo de Switch, que pode muito bem, pelo nível de potabilidade, ser desligado e ligado para continuar exatamente de onde começou. Mesmo que você precise efetivamente desligar o console (não apenas colocar no modo de espera) há uma opção de salvamento do próprio jogo.

Mesmo assim, se você jogar dando pequenas pausas durante a batalha, isso pode quebrar um pouco do raciocínio e, na hora que você voltar, lá na frente, pode não lembrar bem da estratégia que gostaria de aplicar aqui.

Bom, cada escolha é uma renúncia, não é mesmo?

Velocidade

É preciso dizer que este embate de 1h30 também aconteceu com todas as opções de animação ligadas. O próprio jogo reconhece que não tem tantas variações de vídeos de personagens se batendo assim, o que torna só pedante observar de novo e de novo os mesmos golpes.

Assim, ele permite que você corte todas as animações, ou as deixe ativadas somente para ataques especiais e do seu time. Ainda, é possível acelerar os movimentos da inteligência artificial, jogando este número para, pelo menos, metade do tempo original.

Essa é uma boa pedida para depois de muito tempo que você já está imerso neste mundo. Por outro lado, o jogo só passar a ser um sistema de mecânicas quase que automático sem a magia e o carisma inicial de ver a movimentação das unidades.

Outro problema de ritmo é que, diante de lutas tão demoradas (mesmo com tempo avançado, pode esperar uns 30 a 45 minutos nas fases mais simples), a história se perde, já que lá pelas tantas já é possível ficar perdido sobre o motivo de estar lutando mesmo.

Vários modos

Se a história de Wargroove pode render perto de umas 13 horas de jogatina, você ainda vai ter muito, mas muito o que fazer. Além da narrativa, ele ainda conta com outros dois modos.

O primeiro é o arcade. A ideia aqui é não ter história, mas apenas vencer desafios oferecidos pelo jogo. É preciso escolher entre os comandantes que se abre jogando o modo história e enfrentar quaisquer outros 11 de forma aleatória. Você tem apenas uma vida para vencer os três de uma vez só.

Modo arcade coloca você para enfrentar outros comandantes de uma só vez (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

O outro modo single player é o enigma. Aqui, o game tem 25 quebra-cabeças em formato de desafio para que você resolva. Os mapas envolvem desde matar todos os inimigos ou levar um personagem específico até um ponto X com apenas uma rodada. Ou seja, o desafio é saber se você já conhece todos os elementos de Wargroove para usá-los a seu favor.

Assim como na campanha, não vá pensando que são simples. Aliás, já na primeira fase, eu posso ter gasto umas boas 20 tentativas até resolver o enigma.

Se só nisso já há muita coisa para se fazer, Wargroove ainda tem uma ferramenta para você criar a sua própria campanha. Veja bem, não estamos falando de montar apenas uma fase, ou enigma. Aqui, de forma até que bastante fácil (mas trabalhosa), você pode basicamente recriar todo o jogo usando os mesmos elementos que os criadores. Até mesmo as cenas, com diálogos e efeitos. Tudo pode ser usado para contar a sua própria história.

Modo enigma oferece uma disputa realmente desafiadora. No caso, é preciso matar todos os inimigos em uma só rodada (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Um elemento que mostra que a desenvolvedora sabia muito, mas muito bem como usar suas próprias tecnologias e sistemas. O nível de opção para o modo criativo é algo que poucas vezes vi em um jogo de videogame. Palmas para a Chucklefish.

Multiplayer

O título ainda oferece opções de jogo multiplayer em até quatro pessoas ao mesmo tempo. Como o game é jogado em turnos, não é preciso que se tenha mais que um controle, pois você pode simplesmente passar o joystick para outra pessoa fazer seus movimentos.

O game também conta com várias fases e objetivos que podem ser jogados com duas a quatro pessoas. O mapa coloca todo mundo em ambientes com pé de igualdade, não favorecendo ninguém. Assim, é possível decidir o vencedor apenas na habilidade de cada um, não na sorte de um bom terreno.

Ainda, há a opção de jogar online. Aqui, apesar do péssimo serviço que a Nintendo geralmente oferece em servidores para se jogar na internet, o gameplay funciona bem, já que atraso não faz realmente diferença nos movimentos. Logo, jogar pela internet também é uma boa pedida em Wargroove.

Golpe final

Wargroove é uma das obras do gênero mais completas e carismáticas no que se propõe a ser. Ele não oferece um embate por turno tão complexo e minucioso como a série XCOM, por exemplo. Contudo, há uma gama bastante variada de elementos de acordo com terreno, golpes especiais e ataques críticos de cada uma das unidades. Tudo isso de forma muito bem apresentada e clara para o adversário, criando efetivamente um jogo de xadrez muito bonito.

A pixel art em alta definição também é um show a parte, com personagens bem diferentes entre si e muito carismáticos.

Modo de criação permite criar absolutamente TUDO no jogo e montar a sua própria campanha (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Por fim, um ponto baixo do game é a sonorização. Os personagens não falam, mostrando vez ou outra algumas expressões apenas. O ideal aqui é que Wargroove vire aquele game que você joga ouvindo um podcast ou uma boa música de fundo, ignorando totalmente os efeitos sonoros do título.

Diante de tudo isso, se você gosta de jogos de estratégia em turno, com certeza Wargroove vai ser uma boa pedida para você. Ele oferece todo o desafio que o gênero exige em uma quantidade simplesmente imensa de coisas a se fazer. Tudo isso, com um nível bastante alto de polimento.

Wargroove foi desenvolvido e publicado pela Chucklefish para PC, Switch e Xbox One em 1º de fevereiro. Há também uma versão do título programada para ser lançada em algum momento para PlayStation 4. Esta análise foi realizada com uma versão do jogo para Switch gentilmente cedida pelos desenvolvedores.

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