Análise | The Swords of Ditto é um excelente avanço para o gênero roguelike

Wagner Alves/CanalTech

Quando a OneBitBeyond resolveu criar The Swords of Ditto, queria que o jogo fosse uma experiência única. Para o bem, ou para o mal, ele é. Toda vez que se começa uma nova jornada, personagens, mundo, armas e até a narrativa podem ser diferentes. “O que a gente queria é que os jogadores não tivessem, nem de longe, uma típica experiência de 22 a 23 horas de aventura. Assim, a gente teve de fazer as coisas não serem sempre as mesmas. Então, por exemplo, as dungeons mudam toda vez”, explica o diretor do jogo, Jonathan Biddle em entrevista.

Ou seja, mesmo que você não queira, sempre será algo novo. A proposta já está no nome, com Swords, no plural. O jogador precisa encarar a aventura de um herói silencioso que encontra a espada de Ditto, uma região tomada pela vilã Mormo. O plural em “espadas” vem para mostrar que o salvador da ilha não é um personagem em si, mas qualquer um que pegue a arma e se torne automaticamente a “Espada de Ditto”.

Toda esta narrativa é para justificar a primeira mecânica deste game: ele é um roguelike. Se você não está familiarizado com o termo, um roguelike é um gênero cujo personagem tem sempre apenas uma vida. Se ele morre, é preciso iniciar novamente ou seguir o jogo (este é o caso aqui) como outra pessoa.

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Em Swords of Ditto, quando se morre, outro personagem é acordado e precisa ir ao cemitério buscar a espada e os itens para seguir na trama. Isso traz todas as vantagens e consequência do estilo. O seu personagem é silencioso, não tem um grande background e há um motivo a mais para não se arriscar nas batalhas. A novidade aqui, contudo, é o caráter cíclico e arbitrário do game. Toda vez que se morre, o mundo é levemente modificado, sendo que as áreas - mesmo que algumas se mantenham - são dispostas de forma diferente no mapa.

Mas uma vez, isso traz as vantagens e os defeitos da randomização. Por exemplo, em uma das vezes, foi preciso matar meu personagem para seguir na história, pois a disposição do mapa travava uma entrada crucial para a trama. Resultado, foi preciso cometer suicídio para que um novo mundo se criasse. Vale ressaltar aqui que esta análise foi feita com uma cópia em acesso antecipado ao lançamento, cuja quantidade de bugs pode ter atrapalhado a experiência. Problemas estes que provavelmente foram com o patch de lançamento.

Gameplay

Para se entender como funciona a jogabilidade de The Swords of Ditto, é preciso recordar das primeiras versões de Zelda. A mecânica é muito semelhante a de um RPG de aventura com visão aérea, com combate sem turnos e vários gadgets que não só ajudam a enfrentar os inimigos, mas também alcançar novas áreas. A comparação ajuda, mas pode ser injusta quando The Swords of Ditto inova tanto em fluidez como em mecânicas. Uma delas, por exemplo, é conseguir jogar um inimigo em outro. Com o taco de golf mágico, pode-se jogar um inimigo que explode em cima do outro, causando maior dano.

Outro ponto interessante é que quaisquer características de dano como fogo ou veneno podem tanto ser atribuídos ao jogador quanto aos inimigos. Então, a criatividade para as batalhas é bastante incentivada - até porque morrer significa recomeçar em um mundo novo.

Cada dungeon é apresentada de uma forma diferente quando se entra novamente (Foto: Wagner Alves/Canaltech)

Narrativa

A trama agrada em The Swords of Ditto. Ela é simples e suficiente para o que o jogo propõe. Contudo, há um detalhe que deixa a narrativa maior. Em post no Twitter, o escritor do game, Ed Fear, explicou que a trama tem duas camadas.

A primeira é a já apresentada aqui: do herói ou heroína que precisa combater a maligna vilã Mormo e salvar a ilha de Ditto. O que acontece, entretanto, é que o jogo dá a você sete dias para fazer isso, de forma que é possível voltar no tempo para melhorar até a batalha final — bom, na verdade há mais que isso, mas a narrativa para além disso será ignorada para evitar spoilers. Caso queira descobrir, veja toda a thread do escritor.

“A primeira história é, essencialmente, a história de plano de fundo: mil anos de história, contada a partir de múltiplas perspectivas, que explica como Dito acabou do jeito que está agora. Você aprende isso coletando Tábuas Antigas que você obtém aleatoriamente enquanto explora o mundo. Então, isso não está relacionado ao seu sucesso ou fracasso: quanto mais você joga, mais você aprende”, ele diz.

A outra camada da narrativa está em contar como nasceu a Maldição de Ditto, que não é bem uma escolha para os habitantes que se tornam “a espada”.

“A história foi projetada para ser discreta, porque o jogo é um roguelike, e nem todo mundo se importa com isso. Mas está aí! Uma narrativa escura, escondendo-se logo abaixo da superfície fofa como uma torta”, escreve em seu post.

“Outra coisa: no que diz respeito à história de fundo e às Tábuas Antigas, há uma ordem cronológica de como os 52 se encaixam, mas você os obtém totalmente ao acaso. Isso significa que, tecnicamente, você pode obter uma super-spoiler logo no início do jogo, embora nenhum deles seja verdadeiramente um spoiler quando isolado. Por isso, esperamos que você olhe e pense 'O QUE? Essa é a conexão entre X e Y? Mas como pode ser?' E de repente caia na real: 'isso é o mistério, não a conexão!'”, acredita.

A verdade é que a história, como mencionado por Fear, é um pano de fundo bem lá no fundo, mas que vale ser apreciada. Embora não tenha grandes textos em jogos, Fear tem uma boa experiência e ambienta The Swords of Ditto de forma suficiente e satisfatória. Para quem gosta de se aprofundar no universo, há um prato cheio esperando. Ed Fear também foi responsável pela história de Heavenstrike Rivals, jogo tático da Square-Enix lançado gratuitamente para celulares em 2015.

A Espada de Ditto precisa enfrentar a vilã Mormo em sete dias (Foto: Wagner Alves/Canaltech)

A narrativa ainda é a total desculpa para que o gamer não caia na mesmice. Caso não se vença Mormo nos sete dias propostos, o jogador vive a calamidade final e morre. Tendo que recomeçar tudo novamente. A desculpa para que tudo esteja bastante diferente é que, todo ciclo de renascimento, pressupõe uma passagem de 100 anos da morte da última Espada.

Gráfico

O visual de The Swords of Ditto é um deleite à parte. Com personagens e ambientações desenhadas, o jogo garante um carisma gigante. Não raro, o jogador pode se pegar fugindo da legenda para observar a reação dos personagens às falas. Texto este que, por sinal, dá um bom dinamismo e ironia ao contexto. As animações estão bastante dinâmicas e fluem de forma muito boa, com possibilidade de otimização para 60fps na versão de PC - mesmo em máquinas não tão potentes. O game também tem adaptação para telas ultrawide.

Localização

O game chega ao Brasil totalmente traduzido em português, com uma localização muito bem feita. A história traz trejeitos nossos, sem fazer aquela tradução direta e idiomática que não funciona. Como grande parte da graça e apresentação das personagens é intimamente ligada à fala, uma boa tradução foi essencial para garantir o carisma.

Game está muito bem traduzido para o português brasileiro (Foto: Wagner Alves/Canaltech)

The Sword of Ditto é uma experiência excelente para quem gosta do gênero roguelike. Traz um certo ar de nostalgia nas mecânicas que lembram Zelda, mas avança e muito nos puzzles e mecânicas de batalha.

Diferente de muitos games do gênero, tudo é explicado pela narrativa, que amarra história, jogabilidade e universo de forma bem feita. Ainda, só de ficar olhando para aqueles espaços bonitos, já vale umas horinhas do jogo. Vale lembrar que ainda é possível jogar em modo cooperativo em duas pessoas.

The Swords of Ditto foi desenvolvido pela OneBitBeyond e publicado pela Devolver Digital em 24 de abril de 2018. O jogo está disponível para PC e PlayStation 4. No Canaltech, ele foi analisado no PC com cópia digital cedida gentilmente pela Devolver.

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