Análise | The Surge 2 não empolga, mas traz boa dose de desafio

Por Felipe Ribeiro | 29 de Setembro de 2019 às 10h20
Focus Home Interactive

Dark Souls é um game que foi tão competente no que se propôs, que acabou por criar um sub-gênero próprio: os "souls-like". Traduzindo: RPGs de mundo aberto (ou não) que trazem um desafio absurdo e que possuem estilo de combate próprio. Lançado em 2017 pela Deck13, The Surge veio com uma proposta de trazer todas as características presentes no RPG da From Software, mas em um universo futurista, pós-apocalíptico e, por que não, absolutamente doido.

Passados quase dois anos, chegamos em The Surge 2, que pensávamos que fosse trazer uma evolução considerável com relação ao seu antecessor, mas, ao invés disso, podemos dizer, apenas, que temos um jogo mais maduro, com um nível que seria mais indicado para o primeiro título da franquia.

Em The Surge 2 perdemos um pouco da identidade que tivemos no 1 para ganhar um pouco mais de mistério e liberdade - até demais. Na jogabilidade, mudanças sutis fizeram com que o desafio ficasse ainda melhor e mais estratégico. Mas, a sensação que dá é de que a evolução do primeiro para o segundo jogo foi bem pouca, em um âmbito geral.

Uma história completamente nova

Esqueçam Warren e sua redenção, marcas do primeiro game. Em The Surge 2, não temos um protagonista. O jogador é quem monta seu personagem e se joga dentro do enredo, que começa com um acidente de avião que leva nosso "boneco" para um hospital dentro da cidade de Jericho, lugar em que passaremos, facilmente, mais de 30 horas para concluir toda a trama.

Um dos pontos "pacificados" de Jericho City/ Captura de Tela: Felipe Ribeiro

Com sequelas graves por causa da queda do avião, nosso personagem vira uma espécie de cobaia deste hospital. Ele precisa sair de lá imediatamente porque a cidade está a mercê de vírus chamado dFrag, oriundo de um desastre nuclear. Esse episódio transforma Jericho em um pandemônio, com grupelhos de paramilitares e rebeldes enfrentando o governo local, que busca fazer um rígido controle armamentista para evitar rebeliões. Com isso em mãos, você vai em busca de respostas sobre o que aconteceu e tentará, ao mesmo tempo, evitar algo pior na cidade.

A premissa parece boa no início, mas, a partir do momento em que você parte para a ação, as coisas começam a ficar confusas. The Surge 2 não é um jogo linear; pelo contrário, é "livre" demais, não havendo uma sequência clara de ações. O "mundo", apesar de não ser tão grande, é bastante confuso e cheio de atalhos, apesar de apresentar uma variedade de "temas" bem interessante, com o acréscimo de uma região de floresta. Sabendo disso, é bom se resignar e aceitar que será normal se perder em Jericho, pois os mapas ficam estampados em paredes e murais, com o jogador tendo que prestar bem a atenção e decorar onde está.

Pode parecer estranho, mas, as próprias conquistas/troféus de The Surge 2 mostram a falta de linearidade do game. Elas estão muito mais relacionadas a feitos de combate e pequenos momentos do que à execução de missões relativas à história principal. Para efeito de teste, fomos direto ao ponto, até porque, as mortes foram INÚMERAS.

Captura de Tela: Felipe Ribeiro

Com tudo isso que listamos, somado ao fato de não termos um personagem forte que leva a trama, as coisas ficam muito sem sentido, sem motivação. Nem mesmo a jovem Athena, uma espécie de "guia" (e algo a mais que não revelaremos, claro), passa algum tipo de intimidade para que nos envolvêssemos mais no jogo.

Os envolvimentos do nosso "eu" também são bem confusos. Ora com parcerias, ora com traições. Há, também, missões secundárias, que não servem para outra coisa a não ser somar mais sucata, material principal para a evolução do personagem e itens de aprimoramento, que são inúmeros e infindáveis. De positivo por aqui, é a interação com boa parte dos NPCs, algo que não ocorria no game anterior.

A porrada corre solta em The Surge 2/ Captura de Tela: Felipe Ribeiro

Apesar de todos esses problemas, The Surge 2 funciona com sua narrativa. Mas isso vai depender mais do jogador do que do jogo, propriamente. Tenha paciência aqui e não espere nada muito profundo.

Mais do mesmo?

Mesmo com problemas claros, que vamos citar adiante, The Surge 2 brilha mesmo é na jogabilidade, que fora melhorada para este game. O combate típico dos souls-like está presente, mas com uma boa pitada de futurismo e loucura que torna, o jogo, pelo menos nesse sentido, especial.

Logo no começo, ganhamos nosso exoesqueleto criado pela CREO, tal qual no primeiro jogo da franquia. É com ele que faremos toda a carnificina e o "maquinicídio" durante a trama. Em um primeiro momento, pode parecer assustador, mas, com o passar do tempo, fica muito divertido montar sua máquina de combate humanoide. Cada inimigo possui uma característica diferente de ataque, que é baseada em suas armas e trajes. É importante, aqui, não apenas matar os adversários, mas colher todo o tipo de material que eles "deixam cair", como as próprias armas e partes do corpo.

E, para fazer isso, use e abuse dos golpes direcionados. Pois é com eles que você vai colher as partes dos inimigos que servirão para o seu próprio traje. Além disso, é importante observar bem que tipo de adversário está enfrentando. Uma arma leve, por exemplo, por mais rápida que seja, não consegue impedir golpes de uma arma pesada, sendo necessário, neste caso, uma esquiva ou, até mesmo, um bloqueio, que nesse jogo se faz ainda mais útil do que no primeiro, uma vez que, em vários momentos, enfrentamos armas infectadas ou que te sugam energia.

Combinar armaduras semelhantes te dá mais pontos de ataque e defesa em The Surge 2/ Captura de Tela: Felipe Ribeiro

Em paralelo ao exoesqueleto, precisamos evoluir nosso núcleo de energia, que é o que abastece nosso corpo. É com ele que, por exemplo, podemos instalar armas e armaduras melhores, além de itens injetáveis e de melhorias, chamados de implantes, que ajudam demais na progressão e no combate. Isso sem falar nas três barrinhas malditas que vão tirar nosso sono durante todo a jogatina (tal qual em Dark Souls): vida, vigor e bateria.

No nível 44, seu exoesqueleto está quase "pronto", mas é possível evoluir ainda mais/ Captura de Tela: Felipe Ribeiro

Para deixar o desafio ainda mais "irritante", a Deck13 resolveu aumentar um pouco a gama de inimigos que enfrentaremos, com diferentes pesos de ataque e níveis de armamento. Além disso, diferente do que aconteceu em The Surge, teremos mais chefes dentro do mapa, o que deixa a progressão no game ainda mais complicada. Resumindo, é um mais chato do que o outro. Em contrapartida, a variedade de armas e complementos está três vezes maior do que o primeiro jogo da franquia.

Não é demais lembrar que morrer em The Surge 2 é altamente punitivo. Tal qual no seu game inspirador, você tem que voltar to último "check point" que, no caso desse jogo, são os MedCentros. Isso é bom por um lado, pois ali você pode armazenar a sucata que colhe, além de ser o único lugar onde é possível melhorar seu equipamento. Apesar dessa punição, temos muitos MedCentros espalhados por Jericho, então, não se preocupe - pelo menos com isso.

Drone auxiliar

A mudança mais latente na jogabilidade é em um acessório tecnológico que vai te ajudar muito em diversos momentos. Durante a campanha, somos acompanhados por um drone de combate que pode disparar projéteis, coquetéis molotov e armas de choque nos inimigos.

Ele também é usado para abrir passagens e desbloquear portões. Para quem jogou Gears 5, a ideia é bem parecida com o que a The Coalition fez com Jack, parceiro robótico de Kait e companhia.

Tecnicamente bem limitado

The Surge 2 não é um jogo com orçamento muito alto. Apesar disso, esperávamos mais com relação à otimização do game. Nós jogamos o título no Xbox One X e, neste console, assim como no PS4 Pro, é possível escolher entre o modo desempenho, que te dá uma taxa de quadros por segundo melhor, e o modo resolução, que aumenta a exibição para muito próximo do 4K, porém com jogabilidade mais travada a 30 FPS.

Captura de Tela: Felipe Ribeiro

Mesmo no modo desempenho, The Surge 2 engasga em vários momentos, principalmente aqueles em que temos muitos inimigos e ação frenética na tela. Em áreas mais calmas, com apenas um adversário, o jogo peca e tem quedas também, algo que irrita profundamente, sobretudo quando lembramos que, ao menos no Xbox One X, o primeiro jogo, após o pack de atualização, rodava muito melhor. Essas tropeçadas atrapalham o gameplay, pois, com o combate de The Surge 2, que é bem detalhista, o menor erro pode ser fatal e comprometer toda a experiência.

The Surge 2 não é feio, mas poderia ser bem melhor/ Captura de Tela: Felipe Ribeiro

Com relação aos gráficos, a melhoria foi bem pequena, com o acréscimo do sempre salvador HDR. Ao passo que a trilha sonora e efeitos de combate estão muito bons, tal qual no primeiro game. Entretanto, também percebemos falhas grotescas de acabamento. Na foto abaixo, a face do nosso personagem está com a barba bem falha, sendo que tínhamos escolhido a barba cheia — um bug do jogo mesmo.

The Surge 2 sofre com o acabamento "inacabado" (Captura de Tela: Felipe Ribeiro)

Sobre a localização, o jogo está com menus e legendas em português, mas os diálogos são em inglês. Algo perfeitamente aceitável, apesar de que jogos até mais simples já são dublados.

Essas falhas (tanto de desempenho quanto de imagem) que irritam, no entanto, podem ser corrigidas - assim espero - com um patch de melhorias, que pode - e deve - chegar no primeiro dia do jogo.

Vale a pena?

The Surge 2 é um jogo que tem um público bem definido: pessoas que amam um desafio e que têm paciência. Não espere um primor técnico ou de narrativa, por aqui, mas, se você gosta de um combate bem visceral e com diversas armas às disposição, grandes opções e customização dos personagens e da usual dificuldade de um jogo deste gênero, vá em frente.

Não dá para se empolgar em The Surge 2 e muitos foram os momentos de irritação - ora pelas falhas, ora pela dificuldade do game, mas o bom e velho desafio no estilo Souls pode ser suficiente para te agradar.

The Surge 2 foi em 24 de setembro com versões para Xbox One, PlayStation 4 e PC. No Canaltech, o jogo foi analisado no Xbox One X com cópia gentilmente cedida pela Focus Home Interactive.

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