Análise | The Sinking City reúne clichês e boas ideias em experiência confusa

Por Felipe Demartini | 09 de Julho de 2019 às 11h27

É uma história que já vimos antes em filmes e jogos de terror. Na pele de um detetive com um passado negro, raízes militares e claros sinais de problemas mentais (ou seria algum tipo de influência do oculto?) chegamos a um local desolado em busca não apenas de uma solução para nossos problemas, mas também de redenção e, quem sabe, um pouco de paz.

Ao mesmo tempo, um mergulho nos trabalhos de H.P. Lovecraft nunca é demais e é com muita satisfação que estamos vendo cada vez mais títulos se enveredando, principalmente, nos mitos de Cthulhu. The Sinking City é mais um expoente, nesta geração, de uma lista cada vez maior de jogos que apostam no tema para assombrar, instigar e levar os jogadores a uma jornada de horrores ancestrais e, como sempre, temores bastante reais também.

O título da Frogwares é uma mistura de temas e, da mesma forma que o interior da cabeça do detetive Charles Reed está devastado, o ambiente em que ele é inserido não parece muito melhor. Oakmont, a cidade americana onde o game se passa, está devastada por inundações e, explicando o título, parece estar efetivamente afundando, enquanto seus habitantes tentam tocar as vidas, ou não, em meio a tensões sociais, crimes em ascensão e a sempre incômoda presença de um forasteiro.

É um ensejo feito sob medida para uma história ao mesmo tempo pessoal e global. Na mesma medida em que busca resolver seus problemas e encontrar tranquilidade, Reed logo de início já se envolve nas questões da cidade e acaba tendo participação ativa em investigações, além de papel fundamental na resolução de conflitos com raízes xenófobas ou envolvendo interesses escusos. A ideia seria gerar interesse pelo que está acontecendo tanto fora quanto dentro, mas a realidade não se traduz exatamente desta forma.

A dificuldade em se envolver na história de The Sinking City existe por uma série de fatores envolvendo principalmente uma falta de acabamento e cuidado na produção do jogo. Ele, inclusive, é o tipo de título que é um bocado difícil de se avaliar em busca de um veredito, pois não tem falhas cristalinas nem defeitos à vista de todos. Sua maior falha, sem dúvida alguma, é não ir até o final na maioria de suas ideias e também jogar seguro nos momentos em que poderia ousar, dois aspectos que contam com aderência diferente de acordo com cada tipo de jogador.

Dando com uma mão e tirando com a outra

Os trechos alagados de The Sinking City só podem ser explorados de barco, impedindo o acesso livre à cidade (Imagem: Divulgação/BigBen Interactive)

A cidade de Oakmont foi criada para ser uma protagonista tanto quanto o próprio Reed, mas já nas primeiras horas de jogo o jogador vai perceber que ela não é tão interessante quanto o conjunto visual apurado faz parecer. A riqueza de detalhes gráficos e as diferentes construções, com uma arquitetura que denota uma decadência plena antes mesmo de a inundação destruir tudo não condiz com o que acontece naquele local enquanto o jogador passeia por ele.

O que se vê, na maioria do tempo, é um daqueles mundos abertos vazios, que servem apenas como ponto de passagem enquanto o personagem segue do ponto A ao B. É possível interpretar, por exemplo, que os habitantes estão tentando levar uma vida normal enquanto tudo parece estar indo para o inferno, mas a verdade é que os NPCs são apenas objetos sem alma que vagam por esse mundo, sem exercerem qualquer influência sobre ele nem interagindo com o jogador a não ser que façam parte de uma missão ou ponto de interesse.

Tal aspecto também é evidenciado quando notamos que a sensação de mundo aberto é muito bem guiada pelo sistema de missões. Os casos encontrados por Reed se ramificam, é verdade, entre primários e secundários, permitindo que o jogador vá direto ao ponto, se quiser, ou vasculhe pistas adicionais para descobrir mais sobre o que está acontecendo em Oakmont. Por outro lado, fora do que a desenvolvedora determinou como interativo e interessante, há quase nada para ser feito.

Mapa de The Sinking City é extenso, mas vazio; fora das missões, há muito pouco a se fazer (Imagem: Divulgação/BigBen Interactive)

Pontos de interesse são marcados no mapa e, caso você não siga até eles, ficará rodando a esmo. Ao mesmo tempo, esse direcionamento é cortado pela metade quando as ruas inundadas de Oakmont apresentam um obstáculo que precisa ser transposto usando barcos, já que as águas são perigosas e causam dano ao toque. Mesmo em terra firme, entretanto, os caminhos nem sempre estão abertos, com o jogador podendo marcar locais de bloqueio ou passagens fechadas. Pense nos primórdios da série Silent Hill e seu velho estilo de navegação, mas um pouco mais chato.

E quando finalmente chegamos ao nosso objetivo, somos recepcionados por personagens com muito a dizer, bem dublados e com diálogos que vão desenrolando a história, caso a gente deseje saber. Novamente, também é possível seguir direto ao ponto se quisermos, mas como em todo bom jogo de detetive, quanto mais conversarmos, mais informações teremos para seguir em frente e também pistas, que compõem uma das mecânicas de puzzle de que falaremos adiante.

Os diálogos longos e bem dublados são uma das bases de The Sinking City, mas repetição de modelos de personagens chama a atenção negativamente (Imagem: Divulgação/BigBen Interactive)

Então você nota que aquele popular que está te dando informações sobre um assassinato se parece muito com aquele outro que viu na delegacia de polícia e também com o que estava nas proximidades do jornal de Oakmont. Não é coincidência, já que The Sinking City reaproveita modelos de NPCs, mudando cabelo, roupa e até alguns aspectos de seus rostos, mas não sem que a gente pareça estar conversando inúmeras vezes com um mestre dos disfarces. Não é o caso, é só uma falta de cuidado e trabalho mesmo.

Perceba que, em todos os elementos que falamos até aqui, há sempre uma relação positiva e negativa. Para cada acerto, The Sinking City também comete um erro, com o principal problema sendo que, estes, depõem bem mais contra o game do que os elementos positivos trabalham em seu favor.

Podemos voltar, por exemplo, ao bom texto declamado por personagens repetitivos, algo que se torna ainda mais triste de se ver quando levamos em conta os bons artifícios usados por The Sinking City para abordar problemas bem reais. Não é porque estamos falando de uma obra de ficção que ela não aborde, também, questões de nosso mundo; nenhuma, na realidade, deveria ser assim, e o game da Frogwares utiliza criaturas fantásticas para abordar de maneira nada sutil questões como preconceito, racismo e xenofobia.

Logo em uma das primeiras missões, nos deparamos com o grave abismo social deste mundo e também as tensões entre seres humanos e criaturas de outras raças. O assassinato do filho de um chefão do submundo já evidencia uma trama de atritos que nos leva à primeira decisão moral, revelar ou não a identidade do criminoso, que disse ter agido não apenas sem o controle de suas faculdades mentais, como também movido por uma guerra que acontece nos bastidores de Oakmont.

The Sinking City usa seres humanoides fantásticos para desenhar tensões raciais (Imagem: Divulgação/BigBen Interactive)

Os reflexos de tais decisões não são sutis, um contraste bastante grande quando levamos em conta o tipo de puzzle usado pela desenvolvedora em suas seções de investigação. Pistas podem ser unidas no Palácio da Mente, um submenu que permite tirar conclusões a partir de indícios. As ligações entre uma coisa e outra, entretanto, nem sempre são óbvias e o jogador dificilmente saberá se algo está faltando ou se as conexões realmente são difusas. A solução, tentar unir pistas por tentativa e erro, algo que funciona na maioria das vezes e depõe contra esse aspecto da jogabilidade.

Tal negatividade se torna ainda mais evidente quando visitamos os artigos da delegacia ou do jornal da cidade. Novamente, estamos diante de indícios de diferentes categorias que, quando unidas, nem sempre fazem sentido, mas brincar a esmo com elas entrega a continuidade da história que precisamos para seguir em frente. É um aspecto que gera destacamento entre o jogador e a história, principalmente quando levamos em conta que o usuário muitas vezes estará entediado por causa do backtracking desinteressante e do mundo aberto vazio.

Poderes sobrenaturais do protagonista são uma das marcas da falta de criatividade vista em The Sinking City (Imagem: Divulgação/BigBen Interactive)

Da mesma forma, The Sinking City inclui uma dinâmica de poderes sobrenaturais possuídos por Reed que soa como mais uma trapaça pouco inventiva. Temos a tradicional “visão além do alcance presente em tantos jogos de detetive”, mas aqui ela é usada para reviver cenas de crime ou eventos importantes para os casos que devem ser solucionados. De sala em sala, o jogador desvenda situações que, na sequência, precisam ser colocadas em ordem.

Novamente, as sequências nem sempre fazem sentido, enquanto a ideia de que o nosso detetive tem poderes sobrehumanos não se traduz em um elemento narrativo interessante. Isso, claro, é abordado na história, mas soa esquisito ver o protagonista citando isso como uma vantagem ou benefício, sendo que esse aspecto é decorrente do mesmo problema que ele foi a Oakmont tentar resolver. Além disso, esse elemento soa pouco relevante e poderia ser substituído, com melhor penetração no enredo, de forma lúdica, evocando a criatividade e o pensamento do personagem, sem criar uma ponta de história que jamais tem o payoff adequado.

O lado bom do sistema de escolhas um tanto maniqueísta, mas nem sempre, e da profundidade dada à história de acordo com a vontade de cada um aparece da metade para o final do game, quando um desfecho não surpreendente, mas fora do comum, começa a se desenhar. Entretanto, é tanta repetição, monotonia e, principalmente, falta de pegada que muita gente pode acabar desistindo sem alcançar esse momento.

Combates contra monstros comuns pontuam as investigações de The Sinking City, mas não são os momentos mais agradáveis do jogo (Imagem: Divulgação/BigBen Interactive)

O jogo da Frogwares não carrega o jogador, mas apresenta um sistema de missões lineares o bastante para desestimular a exploração. Não existem batalhas instigantes nem uma melhoria do personagem, incrivelmente lento para um ex-militar, mas enfrentando criaturas igualmente bizarras e sem representarem grande ameaça. A investigação pode ser profunda se o jogador quiser, ou objetiva caso prefira, mas a união entre pistas e fatos nem sempre é intuitiva desta mesma maneira.

The Sinking City surge como uma estrutura de boas ideias balançada por uma execução pouco criativa e ousada, do tipo que até tenta ir a algum lugar, sem nunca efetivamente chegar lá. Os mistérios dessa cidade decadente, junto com a loucura do personagem principal e a sempre imponente presença de Cthulhu nos espreitando até cativa, mas as aparências logo se mostrarão bastante enganosas.

The Sinking City foi testado no PC com cópia digital gentilmente cedida ao Canaltech pela Bigben Interactive.

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