Análise | Rage 2 é descompromissado, honesto e divertido

Por Felipe Ribeiro | 30 de Maio de 2019 às 10h35
Bethesda

Pense que você é jogado em um mundo pós-apocalíptico, terra-de-ninguém, cheio de areia e calor e que sua única missão é sobreviver. Agora pegue tudo isso e acrescente o fato de que você estará armado até os dentes, com munição quase que infinita e inimigos a rodo. Por mais simples e vago que isso possa parecer, é o que acontece em Rage 2. Longe de ser um primor de narrativa, o game da idSoftware em parceria com o Avalanche Studios e publicado pela Bethesda traz aquilo que os amantes dos shooters pueris mais amam: tiro, porrada e bomba.

Apesar de algumas falhas técnicas e um enredo dos mais rasos em um jogo do gênero nos últimos tempos, Rage 2 cumpre bem o seu papel como game de tiro em primeira pessoa. Traz uma vasta quantidade de armas, situações de combate, veículos, boa variação de inimigos e desafio bem interessante.

Como em um filme dos anos 90

Pela pequena descrição acima, quem viveu a infância nos anos 1990 certamente conseguirá perceber semelhanças com um filme daquela época — e aparentemente foi exatamente isso que a idSoftware e o Avalanche Studios queriam. Claro, não é nenhuma novidade, já que o primeiro game da franquia, Rage, de 2011, trazia justamente essa proposta. Nesse caso, repetir a fórmula seria natural.

Como o "ranger" Walker, você é o responsável por fazer com que o Projeto Adaga saia do papel. Esse plano foi bolado por três grandes líderes do Ermo, mundo em que o jogo se passa e que navegamos durante todo o gameplay, para derrotar o General Cross, líder e criador da Autoridade, uma seita criminosa que está causando a maior bagunça.

Como citamos acima, a narrativa é muito rasa. Cross não é um vilão carismático e sua motivação não parece muito clara. Evidente que Walker e todos que querem vencê-lo possuem razões mais concretas para tal, sejam elas vingança ou, simplesmente, evitar que haja a dominação completa do Ermo. Mas, sendo bem sincero, ao começar a jogar Rage 2, o que menos importa é o enredo, tal qual um filme dos anos 90. A campanha possui pouco mais de 10 horas, caso você opte por ser direto em sua linha de jogo. Mas, com o mundo aberto (não tão grande assim) de Rage 2, fazer as missões secundárias pode te trazer mais armas, melhorias e afins.

(Imagem: Felipe Ribeiro/Canaltech)

Realizar as missões dos três comandantes do Projeto Adaga não apenas faz parte de uma mera progressão do jogo, mas também dá direito a melhorias no arsenal do ranger (falaremos disso abaixo) e também desbloqueia a ida para o confronto final. Nesse ponto, aliás, é que Rage 2 se difere de games de tiro em mundo aberto como Far Cry 5. Não dá para avançar para as missões principais simplesmente navegando pelo mapa, sendo o jogador obrigado a seguir uma sequência de fatos.

Jogo de tiro como ele deve ser

É no gameplay que Rage 2 definitivamente brilha. Poucos jogos de tiro foram tão honestos e divertidos quanto ele nessa geração. Há uma gama interessante de armas e habilidades que você pode coletar com Walker, sempre localizadas em áreas chamadas de Arcas. Nelas, o jogador pode expandir seu arsenal e melhorar sua armadura ranger. Sempre que algo é coletado, um tutorial breve é apresentado, inserindo o gamer em situações em que aquela arma ou habilidade pode ser usada. Armas como escopetas, fuzis de assalto e até lança-foguetes estão disponíveis. Já por parte das habilidades, chamadas de Nanotritos, Rage 2 bebe um pouco da fonte de Halo e Titanfall, proporcionando ao jogador o domínio de golpes especiais com uso da armadura.

Ao observar o mapa, vemos que existem muitos pontos a serem explorados. Por mais simples que esse mundo aberto possa parecer, sua vivacidade, mesmo que em um cenário pós-apocalíptico, não deixa as coisas monótonas. Sempre há algo para fazer, como matar gangues de capangas espalhadas, destruir comboios (grupos de capangas com veículos) e invadir covis de bandidos em busca de munição e pontos para melhorias das armas.

(Imagem: Felipe Ribeiro/Canaltech)

A única parte, porém, em que o enredo se torna essencial, é para a melhoria das habilidades de Walker, já que você precisa desbloquear certos níveis em missões específicas dadas pelos líderes do Projeto Adaga para evoluir seu equipamento. Cada líder é responsável por um tipo de habilidade. Por exemplo: ao avançar nas missões de John Marshall, você se torna apto a melhorar tudo o que for relacionado ao ataque.

(Imagem: Felipe Ribeiro/Canaltech)

Sabedor disso, o jogador precisa fazer apenas uma coisa: sentar o dedo e atirar em todo mundo. Não há a menor necessidade de ser furtivo em Rage 2. Parte de ser cuidadoso em incursões nos jogos de tiro é economizar munição e administrá-la, algo que não precisa ser feito por aqui. A quantidade de balas disponíveis seja nos covis, seja nas lojas presentes nas cidades é algo que deixa o jogo muito divertido e descompromissado. Nem mesmo a saúde preocupa, porque você pode, além de adquirir os infusores de saúde, coletar cápsulas de feltrita (uma espécie de soro da vida) ao matar os capangas e mutantes que aparecerem.

Evidente que a manutenção de todo esse arsenal pode vir abaixo quando alguns sub-chefes aparecem. Mas isso não é algo que preocupa, mas traz traz um certo desafio, principalmente quando a missão em si possui dificuldade mais elevada. O nível dos inimigos, aliás, é mostrado ao arrastar o cursos sobre as localizações no mapas.

Outro ponto interessante do game é a locomoção. Há uma boa gama de veículos que você pode ganhar ou simplesmente pegar no mundo do jogo. Para "validar" esse roubo, basta ir a uma das cidades principais de Ermo e registrar o tanque, carro ou moto que você pegou. Esses veículos, aliás, são importantes para algumas missões, não apenas para locomoção. Há a possibilidade de se fazer viagens rápidas em Rage 2, mas deixe isso para o final.

(Imagem: Felipe Ribeiro/Canaltech)

Para resumir a jogabilidade de Rage 2, podemos compará-la com a sensação de se estar em uma terapia, principalmente quando você deixa o pente do seu rifle de assalto enorme. Sério, é uma delícia despejar 60 tiros de uma vez.

Performance ao invés de gráficos

A escolha da idSoftware e do Avalanche Studios em privilegiar a performance de Rage 2 em vez da beleza fica muito clara desde os primeiros minutos de gameplay. Não que o game seja feio, mas está abaixo do padrão dos principais jogos de tiro do mercado. Nós jogamos na versão de Xbox One X, que trava o jogo em 1080p e limpos 60fps, tal qual no PS4 Pro. Nas versões tradicionais dos consoles, o jogo mantém a resolução, mas roda a 30 fps. Em um vídeo comparativo (abaixo), podemos ver que, em termos gráficos, a versão do Xbox One X é levemente melhor do que as outras, com cores um pouco melhores. Mas, não fosse esse comparativo, seria quase impossível de detectar.

As empresas não deram pista de que farão uma atualização para um modo que privilegie os gráficos ao invés dos frames, mas fica aqui a crítica pela falta disso logo de cara.

Até que é bonito (Imagem: Felipe Ribeiro/Canaltech)

Mesmo com o jogo rodando a 1080p, algumas falhas e bugs são bem perceptíveis. Há problemas de programação e polimento em dados momentos, mas, em outros, o jogo até parece ser mais bonito do que realmente é. Há um modo fotografia, mas ele é bem ruim. A câmera, por vezes, parece mal colocada e a sensação de imersão não é das melhores. Isso pode ser atenuado, no entanto, no menu do jogo.

Mais honesto, impossível

A experiência com Rage 2 foi das mais agradáveis em um jogo de tiro em primeira pessoa nesta geração. Se pudesse fazer uma mistura de Doom, Far Cry e Mad Max, certamente acharíamos a fórmula base para este game.

Apesar de falhas técnicas e enredo bem raso, Rage 2 cumpre o que promete desde o início: trazer um jogo de tiro puro, sem chorumelas, extremamente objetivo e divertido. Vale a pena!

Rage 2 está disponível para Xbox One, PlayStation 4 e PC. O jogo foi testado com cópia gentilmente cedida ao Canaltech pela Bethesda.

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