Análise | O cotidiano difícil, real e pouco amigável de This is the Police 2

O cotidiano da polícia é retratado de maneiras bem diferentes, de acordo com a mídia e a abordagem dada a cada obra. Em Grand Theft Auto, por exemplo, os agentes da lei são retratados como corruptos, burros e altamente violentos, enquanto filmes de ação como Duro de Matar ou Perseguidor Implacável os colocam acima do bem e do mal, como agentes do bem capazes de grandes feitos contra os violentos bandidos.

Todas são, entretanto, obras de ficção. Não que This is the Police 2, sequência do game lançado em agosto de 2016, não seja. Mas, na sequência, a desenvolvedora Weappy tenta se aproximar da realidade, apresentando uma história visceral e crua, contada de forma bastante soturna. É uma ótima forma de refletir um cotidiano violento no qual o sangue escorre não apenas das vítimas nas ruas, mas também da própria corporação.

O protagonista do primeiro game da série está de volta ao comando em This is the Police 2 (Imagem: Divulgação/THQ Nordic)

Mais uma vez, assumimos a pele do policial veterano Jack Boyd (interpretado pelo dublador de Duke Nukem, Jon St. John), que reaparece de maneira misteriosa após os infortúnios do primeiro jogo da série, quando tentava levantar algum dinheiro nas últimas semanas antes de sua aposentadoria. Desta vez, ele está na pequena cidade de Sharpwood, um local daqueles em que todos se conhecem e, mais do que isso, desejam manter as aparências, não importa o que isso signifique.

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Novatos não são bem-vindos e essa é a realidade de Lilly Reed, a nova xerife, que assume o departamento após a morte de seu antecessor. Sua insegurança se mistura ao machismo inerente da posição que exerce, enquanto ela tenta manter os oficiais locais na rédea, mesmo que eles prefiram escutar apenas o estranho de barba branca e voz grossa, minando completamente sua autoridade.

Assim como o enredo é uma mistura da falta de confiança de Lilly com a aparição misteriosa e a aspereza de Jack, This is the Police 2 também aparece como uma mescla de elementos. O título traz de volta o componente de gerenciamento e simulação visto no anterior, mas agora também adiciona uma faceta de estratégia, que lembra muito a franquia XCOM e permite que o jogador também participe da ação, posicionando policiais e comandando operações inteiras.

Todas as ações são realizadas ao longo de um dia de serviço, passando a sensação de que qualquer atitude, sejam elas corretas ou não, influenciam no resultado final. Saber gerenciar os policiais é o elemento fundamental da jogabilidade, a partir de parâmetros como inteligência, força, furtividade ou habilidade com uma arma. De nada adianta mandar alguém bom de gatilho para resolver uma disputa doméstica, muito pelo contrário - fazer isso pode resultar em um desfecho dos mais indesejados.

O mesmo vale para os momentos de investigação, quando é tarefa de Jack resolver um crime e apontar culpados de acordo com as provas obtidas pelos policiais. E em uma cidade pequena como Sharpwood, as prioridades, muitas vezes, podem parecer invertidas, principalmente quando o caso do furto de um videocassete, por exemplo, parece ganhar prioridade (pois o responsável é o principal encanador do município), ao lado da invasão da sala de arquivos do tribunal de justiça.

O gerenciamento de pessoal e ocorrências é parte integrante da rotina de This is the Police 2 (Imagem: Divulgação/THQ Nordic)

Saber como agir de forma a evitar desastres, inclusive, é uma das tarefas fundamentais para o bom andamento do departamento. Seus subordinados são seres humanos e, sendo assim, podem chegar ao trabalho estressados devido aos problemas em casa, bêbados depois de uma noite de comemoração, ou, simplesmente, não te respeitarem de maneira alguma. É importante, durante todo o tempo, manter esse equilíbrio e saber o momento de ser permissivo e, também, o de tomar atitudes negativas, mesmo que isso signifique fazer alguém de exemplo.

Em situações assim, também entram algumas das decisões morais envolvidas em This is the Police 2, afinal de contas, em Sharpwood, liberalidade muitas vezes pode significar uma porta aberta para a corrupção. E isso nem sempre significa embolsar dinheiro ou agir contra a lei, mas também privilegiar uma investigação cuja vítima promete, caso o culpado seja encontrado, realizar melhorias gratuitas no departamento de polícia.

Em vários momentos, você será questionado por colegas oficiais sobre o uso de viaturas para buscar animais de estimação no veterinário ou enviar policiais para verificar se o forno de outro oficial ficou ligado ou não. E aí? Vai dizer que não? Será que é melhor ser maleável com as regras ou correr o risco de ver a casa de um de seus subordinados explodir e assumir as consequências disso, quem sabe, em um momento no qual ele seja indispensável?

Nem toda ação tem uma reação

Trama exige grande conhecimento do antecessor, o que pode afastar muita gente de This is the Police 2 (Imagem: Divulgação/THQ Nordic)

Tais escolhas são os aspectos mais interessantes da experiência com This is the Police 2, mas, muitas vezes, não carregam o peso que deveriam. Às vezes a sensação é que cada um dos aspectos da jogatina só parece conectado, mas efetivamente não está, pois os reflexos de uma decisão sobre o andamento do enredo e o comportamento dos policiais nem sempre fica claro.

É claro, elementos básicos têm ligação simples, como um policial que se recusa a trabalhar por dois dias seguidos sem folga ou ferimentos sofridos durante uma operação, que levam um oficial ao hospital por algum tempo. Entretanto, no macrocosmo, nem sempre é possível perceber as consequências de nossas ações e, principalmente, como tudo poderia ser diferente se tivéssemos agido de outra maneira.

Essa falta de clareza, aliás, é um aspecto que permeia bastante a experiência de This is the Police 2. O título exige não apenas que o usuário tenha jogado o anterior, mas também que ele tenha um conhecimento relativamente profundo da história, uma vez que, em cutscenes e momentos de decisão, esse tipo de informação será relevante e guiará os rumos da nova trama.

Trechos de estratégia estão entre os mais interessantes de This is the Police 2 (Imagem: Divulgação/THQ Nordic)

Aqui, estamos diante de uma questão complexa, que envolve uma barreira entre o conhecimento do anterior e a porta de entrada para novos jogadores. Quem está chegando à franquia com This is the Police 2 ficará perdido e, na maioria das vezes, não entenderá muita coisa do que está acontecendo. Exigir esse nível de conhecimento é uma decisão, no mínimo, questionável, mas que foi tomada com força pela produtora.

Não há introdução nem uma maneira de permitir que um novato entenda, mesmo que de maneira geral, o que está acontecendo. Em um ponto logo nas primeiras horas de jogatina, por exemplo, estamos no comando da secretária pessoal de Jack, que está sendo questionada sobre o envolvimento do policial com a máfia e sua busca por uma quantia de US$ 500 mil. Esta, entretanto, é a primeira vez em que os dois elementos são citados no enredo e o usuário deve responder ao interrogatório, o que equivale a uma tomada de decisão, sem base nenhuma sobre o que está fazendo e os reflexos daquilo no futuro.

A localização para o português brasileiro também não é das mais brilhantes e, muitas vezes, pode levar o jogador a um caminho indesejado. Uma resposta indicada na tela leva a uma linha de diálogo que nem sempre corresponde em tom ao que foi selecionado, gerando uma reação inversa à ideal. Isso acontece mesmo na versão em inglês, mas, em nosso idioma, essa diferença fica mais acentuada.

Exigência de conhecimento anterior e localização falha acabam esvaziando a proposta interessante de This is the Police 2 (Imagem: Divulgação/THQ Nordic)

Em meio a problemas estruturais desse tipo, This is the Police 2 acaba perdendo muito de sua força como um jogo cheio de discurso e moralidade para se tornar um gerenciador simples e rasteiro. Fica clara a diferença na abordagem entre aqueles que jogaram o primeiro (e ficaram pensando em teorias e possíveis caminhos para a história desde que os primeiros trailers foram divulgados) e aqueles que estão chegando agora.

Para estes últimos, que devem constituir boa parte do público - afinal, nem todo mundo é um fã hardcore -, a experiência fica aquém da esperada. Gerenciar o dia a dia do departamento continua interessante, principalmente diante das histórias contadas pelos policiais para ganhar um dia de folga ou de algumas das ocorrências recebidas, que não poderiam ser mais absurdas.

Tais elementos, entretanto, deveriam ser partes integrantes de um grande plano de fundo que, infelizmente, deixa a desejar. E quando somos colocados diante de cutscenes que não fazem a menor questão de enunciar seu contexto e também para onde a história está caminhando, o ponto mais importante de This is the Police 2 pode acabar se tornando uma inconveniência momentânea. E quando o jogador é incentivado a pular o enredo de um título que tem na moralidade e crueza suas maiores características, tudo acaba perdido.

* This is the Police 2 foi analisado no PC com cópia digital gentilmente cedida ao Canaltech pela THQ Nordic.

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