Análise | Monster Hunter World conquista o novo mundo sem perder sua essência

Por Sérgio Oliveira | 19 de Fevereiro de 2018 às 08h37
Divulgação/Capcom

Para muita gente pode soar bizarro dizermos que um jogo faz sucesso no Japão e não empolga por aqui no Ocidente. Mas, sim, houve um tempo — nem tão distante assim, diga-se de passagem — em que as produtoras investiam pesado do outro lado do mundo, e a gente ficava aqui, de longe, observando o que acontecia por lá. Alguns títulos realmente encantavam e nos faziam querer experimentá-los, apesar da barreira da linguagem. Outros pareciam estranhos demais até mesmo para darmos uma chance que fosse. A série Monster Hunter, por sua vez, ficava mais ou menos ali no meio termo, em cima do muro.

Com seu primeiro título lançado para PlayStation 2 em 2004, a franquia criada pela Capcom alcançou um sucesso arrebatador no Japão e conquistou alguns fãs no Ocidente — embora ninguém possa dizer que o game "estourou" por aqui. A cada novo Monster Hunter lançado, víamos isso se repetir, embora cada vez mais jogadores embarcassem na aventura para se tornar um caçador nas bandas de cá.

Agora, tudo mudou com a chegada de Monster Hunter: World, que tem a responsabilidade de conquistar de vez um novo mundo.

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Terra nova

Esta é a primeira vez que a Capcom trabalha num Monster Hunter voltado especificamente para o público ocidental. Para isso, ela teve de afrouxar as rédeas que tinha sobre a série e simplificá-la na medida certa para tornar World atraente o suficiente, mas sem perder sua essência.

É curioso notar que esse exercício de adequação para conquistar o Ocidente é uma metáfora do roteiro de Monster Hunter: World. Nele, o jogador é levado justamente a desbravar o Novo Mundo, ainda desconhecido, e prepará-lo para a chegada de outras frotas no futuro.

No mundo real, esse trabalha foi feito readequando design, mecânicas e a jogabilidade do título. Burocracias que antes existiam e freavam a cadência do jogo foram eliminadas. Talvez o melhor exemplo disso sejam as transições entre as diversas áreas do jogo, que agora se apresenta verdadeiramente como um mundo único, coeso. Na prática, o resultado disso é que World é um Monster Hunter mais ágil, arrojado e vivo.

Um sem número de bichos,monstros e plantas coexistem e interagem entre si no Novo Mundo de Monster Hunter: World
Um sem número de bichos, monstros e plantas coexistem e interagem entre si no Novo Mundo de Monster Hunter: World (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Ecossistema vivo

Apesar das mudanças feitas pela Capcom, Monster Hunter: World ainda pode parecer um jogo confuso para quem está embarcando nisso tudo pela primeira vez. A história tem, sim, uma introdução, mas a sensação é que tudo é jogado na nossa cara, de qualquer jeito, e que estamos à deriva, sem saber exatamente o que está acontecendo.

Essa noção se arrasta por praticamente toda a primeira hora de jogo, quando desembarcamos no Novo Mundo e somos bombardeados com instruções e orientações de como tudo aquilo funciona. É tanto pop-up surgindo a todo instante que por vezes dá para se sentir sufocado.

Felizmente, esses primeiros 60 minutos são os únicos que passam esse desconforto. Tão logo saímos em nossa primeira caçada percebemos que as explanações foram necessárias para desbravarmos o mundo gigantesco que temos diante de nós minimamente bem.

O primeiro contato com a Floresta Ancestral gera um mix de encantamento e desorientação, que desconfio serem os mesmos sentimentos quando se adentra uma floresta pela primeira vez. Aos poucos, vamos entendendo como tudo aquilo funciona e percebemos que estamos diante de um ecossistema vivo, com seres vivos interagindo mútua e espontaneamente numa região que tem relevo, vegetação e clima próprios.

Tudo em Monster Hunter: World exala vida e tem um esplendor próprio essenciais à imersão que o jogo propõe. Não são raros os momentos em que sentimos o jogo nos convidar a contemplar tudo aquilo — até sermos atacados repentinamente.

Muitas vezes o jogo nos convida a contemplar toda sua beleza, algo que fica ainda mais incrível no Xbox One X
Muitas vezes o jogo nos convida a contemplar toda sua beleza, algo que fica ainda mais incrível no Xbox One X (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Caçadas imersivas

Apesar de se propor e fazer muito bem mais coisas que seu mote principal, Monster Hunter: World é essencialmente sobre caça — e isso ele faz de maneira impecável.

Tal qual acontece (ou deve acontecer, já que não tenho nenhuma experiência real disso) numa caçada real, há todo um ritual de preparação antes de partir em busca dos monstros que habitam o Novo Mundo. Isso envolve estudar os pontos fortes e vulnerabilidades do bicho no bestiário, escolher a melhor armadura baseada nos tipos de ataque que ele pode desferir e, principalmente, uma das catorze armas disponíveis no arsenal.

São escolhas que até podem parecer triviais, mas elas são fundamentais para você ser bem-sucedido. Por exemplo, a escolha da arma influencia diretamente a tática que você vai utilizar para derrotar as feras mundo afora. Algumas delas são voltadas para quem gosta de partir para cima e enfrentar o animal de perto aplicando golpes mais rápidos. Outras são mais pesadas, comprometendo a agilidade e movimentação do personagem em detrimento de mais dano e um alcance um pouco maior. Finalmente, há até armas de fogo, que possibilitam um embate a certa distância, mas limitam a ação pela quantidade de munição disponível.

As caçadas são o ponto alto de Monster Hunter: World e, para ser bem-sucedido nelas, você conta com catorze armas ao seu — incluindo as de fogo
As caçadas são o ponto alto de Monster Hunter: World e, para ser bem-sucedido nelas, você conta com catorze armas ao seu — incluindo as de fogo (Imagem: Divulgação/Capcom)

Nem sempre a sua arma preferida vai servir para derrotar o inimigo e voltar se gabando do seu feito. Na verdade, não são raras as vezes em que você vai quebrar a cara e terá de voltar ao arsenal para trocar de armamento antes de partir para um novo confronto. Outras vezes, basta estudar a criatura mais atentamente e mudar a abordagem para sair vitorioso.

Inclusive, talvez estudar os monstros seja a parte mais interessante importante de toda a caçada. Monster Hunter: World oferece a possibilidade de sairmos em expedições para analisarmos pegadas, muco, arranhões e até fezes a fim de obter mais informações sobre os hábitos dessas criaturas. Quanto mais dados você coletar, mais preparado você sai para a caçada. Um exemplo interessante disso é o seguinte.

Ainda nas primeiras missões, saí em busca do Pukei-Pukei sem ter praticamente nenhuma informação sobre como ele se comportava. Depois de duas incursões malsucedidas, fiquei sabendo que ele fugia quando se sentia ameaçado e fraco. Foi o suficiente para atacá-lo até que ele fugisse e desse de cara com um Rathian. O que se seguiu dali em diante foi uma luta incrível entre os dois monstros, enquanto eu contemplava a beleza daquela casualidade tão bem arranjada que parecia natural, orgânica. A trocação durou alguns minutos, e o Pukei-Pukei fugiu todo despedaçado, quase sem conseguir andar. Depois disso, só tive de finalizar o bicho com alguns poucos golpes e coletar minhas recompensas.

E assim o jogador segue no mundo imersivo e cheio de vida e possibilidades de Monster Hunter: World, sempre descobrindo uma nova artimanha e um novo artifício para enfrentar os desafios de cada missão, exploração ou evento.

As caçadas podem ser feitas sozinho ou em grupos de até quatro jogadores online
As caçadas podem ser feitas sozinho ou em grupos de até quatro jogadores online (Imagem: Divulgação/Capcom)

Beirando a perfeição

É justamente essa capacidade de Monster Hunter: World fazer tudo parecer muito natural e aleatório que instiga o jogador a querer explorá-lo cada vez mais. Porém, à medida que avançamos percebemos que a fórmula "caçar, coletar e criar novas armas e armaduras" é utilizada à exaustão e pode incomodar — sobretudo quando ela se repete ao longo das 60 a 80 horas de campanha. Mas essa estrutura não é exatamente o que mais incomoda em World.

Se por um lado os macroelementos do jogo são praticamente perfeitos, o mesmo não pode ser dito quando restringimos nosso olhar a alguns detalhes. Por exemplo: se há uma boa variedade de armas para escolhermos, o mesmo não pode ser dito dos ataques delas. Cada uma tem, vai lá, de quatro a cinco tipos de ataques — quando muito. É pouca coisa e o jogador tem de aprender a se virar do jeito que dá em batalhas mais difíceis.

Falando nelas, toda aquela naturalidade do encontro entre monstros diferentes perde um pouco do brilho quando percebemos que, na verdade, o comportamento de cada um deles funciona como um relógio nas missões. Se você tiver de repetir algumas delas algumas vezes, perceberá que os monstrengos sempre são encontrados no mesmo cenário e partem para outras duas ou três localidades em sequência, que acabam sendo os mesmos na segunda, terceira ou quarta missão. É o tipo de coisa que infelizmente mostra que há um roteiro rolando no background e nem tudo é tão aleatório assim.

Apesar de os monstros seguirem uma espécie de roteiro nas missões, cada um deles tem um comportamento único, tornando cada nova incursão um desafio a parte
Apesar de os monstros seguirem uma espécie de roteiro nas missões, cada um deles tem um comportamento único, tornando cada nova incursão um desafio a parte (Imagem: Divulgação/Capcom)

Por fim, alguns elementos técnicos incomodam e carecem de polimento. Talvez o pior deles seja o controle e posicionamento da câmera durante os embates. Em alguns momentos ela impede de visualizarmos o inimigo ou simplesmente se posiciona num ângulo que atrapalha e dificulta bastante a luta. Na tentativa de ajustar e obter a melhor visão possível, acabamos por desferir golpes contra o vento enquanto a presa nos arrodeia e desfere um golpe que pode ser fatal.

A nível gráfico, Monster Hunter: World também comete seus pecados. O que mais incomoda é na interação do personagem com os cenários e NPCs, que são atravessados pelo caçador como se fossem fantasmas ou sequer existissem. O mesmo acontece em algumas batalhas ao vermos monstros atravessando árvores e outros animais.

Obviamente que tudo isso não compromete a experiência do jogo como um todo, mas reduz todo aquele encantamento que nos inunda nas primeiras dez horas de gameplay e impede de cravarmos que ele é impecável, perfeito.

Vale a pena?

A Capcom foi muito feliz e acertou em cheio em todas as mudanças que fez para conquistar não só o público ocidental como também toda uma nova legião de fãs que jamais puseram as mãos em um Monster Hunter.

Monster Hunter: World é grandioso e pode espantar por isso. Mesmo assim, o jogo consegue guiar o jogador muito bem pelo Novo Mundo, sobretudo nas horas iniciais, utilizando gráficos estonteantes e um ecossistema muito vivo, diversificado e realista para encantar e nos fazer querer explorar cada vez mais.

É verdade que o game tem lá seus problemas, e eles ganham força à medida que avançamos ao longo das quase 200 horas de conteúdo que o título proporciona. Mesmo assim, essas falhas são mínimas diante do trabalho realizado pela produtora japonesa.

Monster Hunter: World é balanceado e consegue equilibrar muito bem inovação e arrojo com tudo aquilo que tornou a série um sucesso incontestável no Japão. De fato, ele oferece uma experiência agradabilíssima e única para todos, e não só conquista o "Novo Mundo" como também assenta bem o terreno para a chegada de um eventual Monster Hunter World 2.

* Monster Hunter: World está disponível para PlayStation 4 e Xbox One; uma versão para PC está programada para ser lançada no segundo semestre de 2018. No Canaltech, o título foi analisado no Xbox One X com cópia cedida gentilmente pela Capcom.

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