Análise | Metal Gear Survive traz conceitos interessantes, mas peca na execução

Konami

Quando uma nova obra é criada, mas ela é derivada de uma outra já existente, geralmente atribuímos a essa mídia o nome de spin off, seja ela um livro, filme, série ou qualquer outro consumível. Muitas vezes, um spin off ainda é, de certa forma, mal-encarado pela base de fãs do produto original, afinal o ser humano tende a julgar previamente qualquer mudança feita em algo que lhe agrada (mesmo que esta venha para alterar algo para melhor). E há inúmeros casos em que spin offs provaram serem tão bons quanto a obra original.

No caso de Metal Gear Survive, infelizmente, isso não se aplica. O game marca uma nova era para uma das franquias mais amadas e comentadas de todos os tempos, já que seu idealizador, Hideo Kojima, não está mais trabalhando com a Konami. A produtora, entretanto, não poderia simplesmente engavetar esta épica saga. E, com muita coragem e empenho, resolveu brincar com o coração dos fãs criando este famigerado spin off.

Maurilio dos Anjos bem dizia. (Imagem: Choque de Cultura)

Desde seu anúncio, os fãs da série original não encaram Survive com bons olhos. Afinal, o game nasceu com uma premissa no mínimo curiosa, mostrando que, entre os games Metal Gear Solid 5: Ground Zeroes e Metal Gear Solid 5: Phantom Pain, um Buraco de Minhoca surgiu e sugou todos os soldados da Mother Base para uma dimensão alternativa chamada Dite – uma clara mensagem aos fãs de que, daqui pra frente, tudo será diferente, mas ainda fará parte daquele mesmo universo de alguma forma.

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Sobreviver é a palavra-chave

De forma resumida, justa e direto ao ponto, o subtítulo “Survive” do game faz jus à sua proposta, definitivamente. Não existem muitas mecânicas além das funções que giram em torno desse objetivo, isto é, sobreviver. Em teoria, é tudo muito lindo. O problema é a forma como é aplicada.

Metal Gear Survive coloca o jogador na pele de um dos soldados da Mother Base, ou o que mais parece promissor dentre os demais. A aparência dele, inclusive, é definida pelo próprio usuário em um sistema de criação de personagem bem genérico e sem grandes atrativos. Finalizada essa parte de concepção, o jogador imediatamente é lançado em um longo e cansativo tutorial que mostra como tudo funciona e o que precisa ser feito.

Tudo parece muito legal nos primeiros minutos, mas logo se torna cansativo e chato. Tudo porque o universo e a atmosfera de Metal Gear Survive é opressor até o seu último lote de terra e o sistema é bastante punitivo com o jogador. Em uma situação real de sobrevivência, se adaptar às circunstâncias não seria uma tarefa fácil mesmo, e exigiria basicamente caçar comida e água boa e fresca, além de um local seguro para se descansar.

(Imagem: Divulgação/Konami)

No game, resumidamente é isso que é preciso ser feito, com o plus de que, além de comida e bebida, diversos materiais como ferro, metal, fios, dentre outros, também podem e devem ser coletados. Estes, por sua vez, serão utilizados para construir inúmeros objetos, desde barreiras de proteção a armas de fogo. O crafting do game, inclusive, é uma engenhosa e divertida funcionalidade, e que certamente merece destaque em meio a esse mar de coisas negativas.

Não tem moleza, não

As mecânicas de sobrevivência, como já mencionado anteriormente, funcionam bem em teoria. É triste dizer isso, mas na prática é praticamente intragável. O personagem possui três funções básicas que o jogador deve prestar completa atenção: fome, sede e vigor (e mais tarde oxigênio, mas este em locais específicos, apenas). O primeiro e o segundo se resolvem achando comida e água – e é bom, por sinal, tomar cuidado para não ingerir nada estragado ou sujo, pois isso afetará o soldado. E o terceiro, bem, basta não correr como um louco por aí que estará tudo sob controle, ou quase.

Todavia, mesmo que desfrute de um banquete dos deuses, o soldado ainda sentirá fome e sede, e em questão de trinta minutos (ou menos, dependendo do quão bem alimentado ele foi), será necessário dar atenção a essas funções novamente, do contrário ele morrerá e o jogador será obrigado a refazer tudo – sim, tudo, desde o começo da missão. Isso é extremamente inverossímil e estraga a imersão das mecânicas de sobrevivência. E a punição é incabível, matando todo o desafio e, obviamente, a diversão.

(Imagem: Divulgação/Konami)

Existem ainda os inimigos que, a princípio, devem ser tratados com cuidado, e nestes momentos o stealth, marca registrada da franquia, brilha com intensidade. Mas as semelhanças param por aí. Os Andarilhos, principais oponentes, são basicamente zumbis, e no começo, quando o personagem ainda é fraco, eles são mortais.

As missões do game não possuem muita variedade e tornam a experiência um tanto quanto repetitiva, além de exigir que o jogador vez ou outra proteja sua base de hordas de inimigos. Por isso, é muito importante que materiais sejam coletados e alimentação seja estocada para manter sua própria Mother Base, por assim dizer, segura e firme dentro do possível. Essas ondas serão enfrentadas basicamente quando novos pontos de viagem rápida forem ativados e quando forem feitas tentativas de ativar o Escavador para abrir um novo Buraco de Minhoca – afinal a missão principal é retornar os soldados ao mundo original.

A importância da energia Kuban

Ainda sobre esses inimigos, eles deixam algo que também é essencial para as mecânicas do game e para a evolução do personagem: a energia Kuban (KUB). Ela é acumulada ao longo das missões e, sempre que o jogador retornar à sua base, será possível trocá-las por níveis de sobrevivência. A cada level alcançado, um ponto de habilidade é entregue para ser distribuído em algum atributo. A árvore de habilidades abraça desde força à resistência; também há habilidades específicas que só são desbloqueadas quando são alcançados determinados níveis de experiência.

As armas, cada uma delas, também possuem uma gama própria de evolução e precisam ser reparadas de tempos em tempos na base. A energia Kuban também serve para reabastecer os tanques de oxigênio do personagem quando ele adentra áreas cinzentas do game. Essas localidades, além de serem referências claras a Silent Hill, escondem ótimas recompensas para o jogador.

(Imagem: Divulgação/Konami)

E as conexões com Metal Gear Solid?

Diferentemente de todos os outros jogos da franquia, a história não é exatamente o ponto forte de Survive. O lado bom é que não é necessário ter jogado nenhum título anterior da série para se aventurar neste aqui. E o lado ruim é exatamente a mesma coisa.

Os personagens secundários são esquecíveis num geral, e não existem grandes arcos de evolução para eles na narrativa. Algumas surpresas e reviravoltas ainda ocorrem e melhoram a sensação de jogar Survive, apesar de só ocorrerem mais para o final da história. Existem referências, claro, aqui e ali, mas nada muito além, o que torna a experiência no quesito storytelling um tanto quanto decepcionante – ainda mais se comparado aos demais jogos da franquia, cujos enredos são ambiciosos e repletos de detalhes.

As referências e homenagens, por sinal, são ampliadas aqui a outros jogos da Konami. É possível, por exemplo, encontrar referências musicais a Contra, Policenauts e Zone of the Enders em fitas cassete escondidas, criando uma sensação de universo compartilhado – o que não é algo absurdo, já que Survive explora o conceito de Buracos de Minhoca.

Outro ponto em que Survive tem em comum com outros Metal Gear é a sua jogabilidade. O gameplay é bastante similar ao último game da franquia. E isso, por outro lado também é ruim, já que não traz tantas inovações.

Isso é tudo pessoal

Metal Gear Survive deixa aquele gosto amargo na boca que é difícil de sair, aquela sensação de que tudo poderia ter sido muito melhor e, no entanto, não foi. O single-player do título exige que o jogador esteja sempre online, e as missões multiplayer são bastante divertidas. Mas com pouca variedade de objetivos e a repetição do universo como um todo, que não permite que muita coisa seja feita além de caçar, batalhar e construir, o game é apenas cansativo. E, para um fã de Metal Gear Solid, isso é extremamente triste. Ainda mais após jogar o último grande título da série.

O futuro da franquia agora é um mistério a ser desvelado, e tudo o que resta é a apreensão pelo que a Konami aprontará daqui em diante com a série, ainda mais agora que Hideo Kojima não está mais supervisionando o projeto. Uma pena.

Metal Gear Survive foi lançado para Xbox One, PC e PlayStation 4 e é uma experiência de sobrevivência interessante na teoria, mas pouco proveitosa na prática. Vale jogar e dar uma conferida, ainda mais se tiver amigos com quem poderá marcar jogatinas online junto. E para os fãs da franquia que querem muito jogar este lançamento, talvez seja recomendável aguardar um desconto nas lojas online para adquiri-lo.

* Metal Gear Survive foi analisado com cópia digital cedida gentilmente ao Canaltech pela Konami

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