Análise | LEGO Os Incríveis é tão divertido e repetitivo como outros da série

LEGO Os Incríveis traz muito ou quase tudo o que a franquia apresentou nesses últimos anos. O game é um adventure nos moldes já conhecidos dos fãs da série e abraça todas as novidades inseridas nos pouco mais de 10 anos dos games com pecinhas. Entretanto, para entender onde chegamos em 2018, vale dar uma olhada para o passado: ao caminho que nos trouxe até LEGO Os Incríveis.

A TT Games é uma desenvolvedora já com quase três décadas de existência. Nascida da sigla Traveller’s Tale, ela sempre se mostrou habilidosa em trabalhar com franquias alheias, sendo responsável por clássicos como Mickey Mania e o maravilhoso jogo de Toy Story, ambos para a geração Super Nintendo e Mega Drive.

Contudo, nem mesmo o sucesso desses títulos alçou a TT ao topo das desenvolvedoras da sua época, sendo que empresas sempre convocaram a companhia para jogos spin-off de suas séries.

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Foi em 2005, quando a LucasFilms fechava a trilogia de Anakin Skywalker com o lançamento de A Vingança dos Sith, que a TT teve seu primeiro grande boom. A empresa foi contratada por George Lucas e a LEGO para fazer um game promocional do longa derradeiro. Lego Star Wars: The Video Game chegou em março daquele ano, com a trama dos Episódios I, II e III, além de um bônus do IV.

Como foi que a LEGO entrou nisso? George Lucas sabia que Star Wars era uma franquia de gente grande. O Retorno de Jedi, último título da trilogia original, já havia sido lançado há pelo menos duas décadas. Assim, era preciso atrair um público mais jovem. Com isso, A LucasFilms começou a conversar com a LEGO para produção de um pacote de peças físicas do brinquedo para o retorno da série em 1999. Disso, a parceria se estendeu para um curta do Cartoon Network e para o jogo de 2005.

LEGO Star Wars: The Video Game chegou com várias características que marcaram a série. A primeira delas é o alto número de personagens jogáveis: são 56 já na primeira proposta. Outra marca registrada das pecinhas nos games é a opção de voltar às fases em modo free play para buscar todos os coletáveis espalhados pela série. Por fim, nascia aqui também o humor característico dos títulos de LEGO. Todas estas característica estão no jogo de Os Incríveis.

Essa experiência com a LucasFilms rendeu muito à TT Games, com LEGO Star Wars: The Video Game batendo a marca de 3,3 milhões de unidades vendidas em um ano. Aí, sim, a desenvolvedora começou a chamar a atenção do mercado. O próprio fundador da TT Games confessou isso em entrevista. Quando perguntado sobre qual o seu maior sucesso na indústria de games, ele é direto: ”Foi adquirir os direitos exclusivos da série LEGO nos games”.

De olho nesse sucesso, a Warner Bros resolveu experimentar o mesmo com Batman e depois com Harry Potter. Os bons números de ambos os títulos convenceram a Warner que valia comprar a TT Games e, com ela, os direitos da série LEGO. Desde 2011, a desenvolvedora vive de adaptações de propriedades intelectuais de filmes e séries, sempre com personagens e universos criados com as peças de brinquedos.

O pouco admirável mundo novo

Desde a compra pela Warner Bros, a TT Games lançou ao menos um jogo da série por ano. Isso significa que, para dar conta do recado, a desenvolvedora evolui pouco (ou quase nada) de um título para outro.

A última grande novidade apareceu em 2013, com LEGO City: Undercover em que foi incluída uma grande cidade para uma gameplay em estilo sandbox. Nesse game, os jogadores poderiam brincar pelas ruas, edifícios e buscar coletáveis pela metrópole ou apenas acompanhar a história principal.

Essa é uma das principais características emprestadas a LEGO Os Incríveis. Aqui, os jogadores podem andar livremente pela Municiberg, cidade em que vivem os personagens da trama. O ambiente é bastante vasto e complexo, com várias áreas, cada uma com suas particularidades. Por exemplo, existe uma praça labiríntica, um local de trens, um parque focado em brinquedos aquáticos e por aí vai. A inserção desta novidade, contudo, colabora mais para o que há de LEGO no jogo do que o que há de Os Incríveis.

Municiberg foi criada pelos assets base da Lego City do jogo de 2013. Ou seja, à revelia de uns três ou quatro pontos, a cidade é um grande ambiente por vezes genérico e confuso. Para além disso, a única justificativa para explorar aquele ambiente são os abundantes coletáveis que não são assim tão recompensadores.

Por exemplo, em um dos espaços é preciso buscar por cinco peças especiais espalhadas pelas docas. A busca demora uns bons 10 a 15 minutos e rende um insosso novo monumento que surge do chão, sem grande propósito para a história ou para o desenvolvimento do personagem. Logo, desestimula tal esforço.

Outro ponto baixo deste ambiente é a dificuldade de movimentação. O jogo traz uma gama grande de veículos a se usar, contudo a direção é uma das piores que já vi em muito tempo. Controlar um carro é tão duro e não responsivo que vale a pena usar o Flecha (o qual corre na mesma velocidade dos carros) para se locomover pelo mapa com mais precisão. Esse talvez seja um dos poucos pontos em que o game falha em polimento.

Com esse vasto ambiente a se explorar, somado à gigantesca quantidade de itens espalhados pela fase, a função da cidade é apenas dar uma sobrevida para quando o jogador finalizar a história principal. Contudo, não parece fazer parte da mesma narrativa pela cara altamente genérica dos pontos que não fazem parte do enredo do título.

Personagens precisam interagir entre si em vários momentos do jogo (Foto: Captura de tela)

Um último ponto notável aqui é que, para além dos coletáveis, a cidade adiciona sidequests no mundo aberto. Entretanto, caso você tente fazer as missões secundárias antes de seguir com a história ou abrir todos os personagens, pode esbarrar com quebra-cabeças que exigem uma habilidade que você não abriu ainda. Isso tira totalmente da trama criada na história secundária e motiva o jogador a voltar nelas só mesmo quando não houver nada para fazer. Uma pequena falha de design, uma vez que seria melhor o jogo não permitir o início da sidequest sem que tivesse a garantia de que o jogador possui todas as ferramentas necessárias para terminá-la.

Lá e de volta outra vez

A narrativa de LEGO Os Incríveis parece ter sido um desafio aos desenvolvedores. Primeiro, porque é preciso contar uma nova história sobre a família Pêra antes do lançamento do novo longa, agendado para 28 de junho. Sem dar spoilers da continuação, a TT Games precisou contar uma história simples, mas inédita e que conversa com a nova proposta da família.

Agora, é a Mulher Elástica a chamada para combater o crime, enquanto o Sr. Incrível é incumbido de cuidar da nova residência da família Pêra. A trama se desenrola entre a figura paterna desgostosa do trabalho como dono de casa e uma mãe com o coração dividido entre lutar contra o crime e ver os filhos crescerem.

Claro que esse é o tema que o jogo tangencia mirando o público adulto, ou os pais que dividem os controles com as crianças (o verdadeiro público alvo do jogo). A nova trama desenhada para o game é divertida e bem humorada. Contudo, como uma história paralela ao enredo original, a trama aqui passa longe da qualidade cinematográfica.

Outro problema que a TT Games precisava enfrentar é que ainda não houve um jogo da franquia Os Incríveis. Isso quer dizer que toda a trama do primeiro longa precisaria ser recontada aqui também.

Isso criou uma situação interessante: nas 12 fases disponíveis, metade é destinada à nova história, e a outra ao enredo do primeiro filme. Os desenvolvedores, entretanto, tomaram a decisão de inverter a ordem cronológica das narrativas. Isto é, primeiro passamos as novas tramas, depois, em um flashback, vivenciamos toda a história de Os Incríveis 1.

Essa inversão causa uma sensação estranha, já que o game não deixa bem clara essa separação. Além disso, cria um bizarro cenário em que personagens como Flecha e Violeta voltam a ser crianças indefesas depois de você enfrentar meio mundo. Dessa forma, descoberta de poderes e possibilidades já usadas à exaustão deixam de fazer sentido nas linhas de diálogo dos personagens.

A impressão que dá é de que a TT Games programou o jogo para ser linear e cronológico, mas decidiu (ou foi obrigada a fazer isso) inverter as duas partes da narrativa na última hora, ignorando os “furos de roteiro”.

Apesar disso, ambas histórias funcionam bem, sendo que reviver toda a trama do primeiro filme foi bastante divertido no formato LEGO.

A única ressalva é que o montante de narrativa para apenas 12 fases se mostra pequeno para o vasto mundo criado na cidade de Municiberg. A conjunção de um ambiente gigante, com milhares de coletáveis, vários personagens, contrastando com uma história curta (mas com gosto de quero mais) dão uma cara de DLC de Os Incríveis no mundo de Lego City do que essencialmente um novo jogo.

Para se jogar de dois

LEGO Os Incríveis, assim como grande parte dos games da série, é para se jogar em multiplayer local. Como uma ferramenta de levar franquias até os menores, a proposta é que os pais dividam a tela com os pequenos, em uma concordância mútua de ideias. É um game família na sua essência. Talvez por isso seja um título tão bom para o Switch, que já vem com dois controles em sua versão mais básica.

A participação de ambos jogadores na solução de desafios é bastante dinâmica e orgânica, sem parecer forçada. Além disso, LEGO Os Incríveis resolve um problema típico de jogos cooperativos, que geralmente propõem uma gameplay para dois jogadores sem que a narrativa abrace dois personagens. Mesmo quando vivenciamos a narrativa do primeiro longa, a trama é adaptada para dois jogadores.

Por exemplo, quando o Sr. Incrível vai para a ilha criada pelo garoto Síndrome, no longa, ele enfrenta os desafios do lugar sozinho. Entretanto, é acompanhado pelo seu amigo Gelado na versão de videogame. Embora seja um detalhe, isso faz com que ambos jogadores se sintam inseridos e mostra o quão preocupada com polimento está a TT Games.

Infinito e aquém

Uma das coisas que definem a série LEGO é a infinitude, seja de personagens, de coletáveis e até de sidequests. Contudo, ao propor um escopo tão grande, a TT Games esbarra em uma consequência clara: é difícil desenvolver tanta coisa com games lançados todo ano. Assim, tal qual a cidade, muitos dos outros itens e mecânicas são reaproveitadas de outros jogos.  

A começar pelos personagens. A temática de LEGO já facilita muito a vida dos desenvolvedores, uma vez que eles são basicamente uma gama reduzida de modelos com skins diferentes. Este é um método muito comum usado por franquias que precisam criar muitos personagens em um curto espaço de tempo, como Pokémon Quest.

Por consequência, não é de se esperar que cada personagem seja particularmente especial. Assim, há mais de uma centena de bonequinhos jogáveis, desde os protagonistas até os capangas da fases. Isso faz com que o jogo tenha uma sobrevida, caso se resolva conseguir todos. Contudo, torna o título ainda mais genérico, já que existe toda uma gama de pessoas que executam o mesmo golpe do Sr. Incrível ou Mulher Elástica, tirando o caráter especial dos poderes.

Fora isso, a mecânica de adquirir um novo personagem é cansativa. É preciso realizar certos marcos durante as fases, como coletar um número X de moedas do jogo. Assim, você ganha um pacote que, ao ser aberto, revela um novo personagem de forma sortida.

Embora esta seja a exata descrição do que acontece em mecânicas de loot boxes, como as de FIFA, por exemplo, este jogo não permite compras internas, já que é focado no público infantil. A utilização do sistema de pacotes é uma mera propaganda interna do mesmo produto que a LEGO vende em forma física.

Logo, como product placement dentro de seu próprio título, esta mecânica de alcançar um marco, que oferece um pacote, o qual precisa ser aberto, para então revelar um novo personagem, torna cansativo a busca por todos os bonequinhos do título.

De novo?

Enfim, LEGO Os Incríveis traz uma repetição da fórmula criada pela TT Games que tanto funciona no jogo. O game falha na execução de um mundo aberto, o qual parece tentar mais colocar mais água no feijão do que realmente adicionar um bom tempero à franquia.

Entretanto, tal qual grande parte dos títulos da série, faz isso com a maestria, polimento e carisma já característicos da TT Games. Ou seja, LEGO Os Incríveis é uma excelente oportunidade para lembrar da história do longa antes de correr para a continuação no cinema.

Além disso, como proposta para um jogo bem-executado e divertido para a criançada, o game se mantém totalmente adequado e recomendável, sobretudo para os mais novinhos.

O ambiente genérico e o reaproveitamento de assets bem visível para quem acompanha os jogos da série pode indicar que, talvez, o modelo esteja chegando à exaustão. Algo que é muito compreensível para um mesmo tipo de jogo sendo lançado por vezes duas vezes ao ano desde 2005.

Talvez, um respiro de um aninho de desenvolvimento caia bem para dar novos ares à franquia.

Lego: Os Incríveis foi lançado em 22 de junho para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch e PC, com dublagem e legendas totalmente em português. O game foi desenvolvido pela TT Games em parceria com a TT Fusion e publicado pela Warner Bros. Interactive Entertainment. No Canaltech, a análise foi feita com uma cópia para PS4 gentilmente cedida pela Warner Bros Interactive Entertainment.

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