Análise | Que seu coração seja sempre o seu guia em Kingdom Hearts III

Por Jessica Pinheiro

Depois de 17 anos e dez jogos espalhados por três diferentes gerações de consoles, além dos games para dispositivos portáteis (e browsers também), eis que a primeira das três sagas idealizadas por Tetsuya Nomura chega a seu fim. O capítulo final da Dark Seeker Saga (ou Xenahort’s Saga, como chamam os fãs) foi enfim mostrada em Kingdom Hearts III, que saiu em 29 de janeiro para Xbox One e PlayStation 4.

Colocar as mãos em um game assim parece até um sonho que se realiza. E é até difícil encontrar as palavras certas para expressar o que contemplei e senti enquanto controlava Sora ao lado de seus outros dois inseparáveis terços, Donald e Pateta — afinal, três terços formam um inteiro!

Foram quase 40 horas de aventuras visitando mundos da Disney e da Pixar, todos repletos de magia e nostalgia, regrados a gráficos belíssimos que às vezes me confundiam de tão estonteantes, uma trilha sonora à altura dos padrões de qualidade da franquia, com direito ao selo Yoko Shimomura de emoção, e, claro, mostrando a conclusão de uma complexa e longa batalha contra a escuridão que os personagens vêm enfrentando a mais de uma década.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Mas, vamos tentar deixar um pouco as emoções de lado para falar devidamente sobre o game.

A mesma bagunça, mas ainda melhor

Em termos de gameplay, Kingdom Hearts III continua um completo caos, como sempre foi. Existem mecânicas novas, sim, mas antes de falarmos delas vale apontar o que voltou e, por tabela, o que melhorou — ou não. A câmera, por exemplo, continua parecendo desengonçada a princípio, mas eventualmente você se adapta e ela deixa de incomodar.

O velho Command Menu continua na lateral esquerda, onde o jogador escolhe entre uma das opções: Attack, Magic, Items ou Link, que permite invocar um aliado. O submenu de Attack, por sinal, ganhou uma nova função: agora, se o jogador apertar o direcional direito enquanto o cursor estiver nesta opção, ele poderá escolher entre três Keyblades previamente equipadas nos Options.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Quanto aos personagens do seu grupo, sejam eles temporários ou não, todos possuem três barras com as quais você sempre deve ficar atento: a de HP (verde), a de MP (azul) e o Focus Gauge (amarela), que permite a execução de Shotlocks.

Os Shotlocks são uma espécie de ataque especial em que se mantém o R1 pressionado durante as batalhas e mira-se nos inimigos, liberando vários golpes à distância. Há ainda os Situation Commands, que aparecem logo acima do Command Menu ocasionalmente, e é aqui que as batalhas ficam ainda mais interessantes.

Isso porque os Situation Commands oferecem duas oportunidades quando são ativados: a de executar um Formchange ou de invocar Attractions. Enquanto o primeiro é uma espécie de evolução do sistema Drive de Kingdom Hearts II (mas aqui, atribuído a cada uma das Keyblades, que se transformam e se tornam ainda mais poderosas); as Attractions são armas poderosíssimas trazidas para a batalha, inspiradas em um algum brinquedo da Disneyland.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Há também os Shortcuts, atalhos para comandos que podem ser equipados em diferentes configurações do joystick à escolha do jogador, deixando o menu semelhante ao Deck Commands de Kingdom Hearts: Birth by Sleep. Vale lembrar que o AntiForm também está de volta, mas agora assume o nome de Rage Form, e pode ser ativado quando o protagonista está com pouco HP.

Outro ponto legal de ressaltar é a respeito das magias que afetam não apenas os inimigos, mas também os cenários. Além disso, se o jogador usar muitas vezes a mesma magia, ela acabará se transformando automaticamente em um Situation Command, deixando os combos e a batalha ainda mais dinâmicos.

Já os Links, ou sistema de invocações, estão de volta e os jogadores podem contar com Meow Meow, Ralph, Simba, Ariel e Stitch. Diferentemente dos games anteriores, não é mais necessário explorar os mapas atrás dos Summons: agora eles são dados como recompensas em forma de Heartbinders após certos eventos em determinados mundos.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Os combos, por sua vez, são inúmeros graças aos diferentes Formchanges de cada uma das Keyblades. Ainda é possível estender a duração dos golpes, das Attractions ou ganhar novas habilidades (seja para lutar, se locomover e/ou soltar magias) conforme o jogador avança nos Levels dos personagens.

A cada novo nível, uma nova técnica é adicionada à lista de Abilites nas Opções e, para equipá-las, é preciso gerenciar seus APs. E por falar em habilidades, os Limits de Kingdom Hearts II também retornam, concedendo ataques especiais entre Sora, Donald e Pateta, ou com os personagens temporários do seu grupo (Hércules, Woody & Buzz, Rapunzel & Flynn, Sulley & Mike, Anna & Kristoff, Marshmallow, Jack Sparrow, e Baymax).

O comando aparece na forma de um Situation Command. Vale dizer que agora não é mais necessário escolher com quem o protagonista irá explorar os mundos, pois a party comporta até cinco bonecos juntos, tornando tudo ainda mais bagunçado e divertido.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Por fim, há o Flowmotion, que retorna de Kingdom Hearts 3D: Dream Drop Distance e permite que os personagens alcancem locais muito altos com facilidade, bastando interagir com certos elementos — como, por exemplo, quicar em blocos flutuantes ou rodopiar em torno de uma estalactite para pegar impulso, e assim por diante.

A mecânica também pode ser usada para combate, mas dominá-la, em geral, é um tanto difícil. Fica a expectativa para que depois Kingdom Hearts III melhore essa habilidade de verdade — ou que retirem ela de uma vez, amém.

Novidades intermináveis

Sora agora tem um Gummiphone, uma espécie de smartphone para se comunicar com Tico e Teco e também com seus demais amigos durante as cutscenes. No jogo mesmo, ele serve como as Opções, onde o jogador pode escolher equipamentos, usar itens, selecionar habilidades, consultar o Jimminy’s Journal, dentre outros.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Por ser uma espécie de aparelho celular, o Gummiphone também serve para registrar fotografias. O Photo Mode do game garante momentos engraçados entre os integrantes do grupo dependendo do momento, em especial se forem selfies; e, claro, serve para registrar os Lucky Emblems, símbolos em formato do Mickey Mouse que estão mais do que bem escondidos pelos mundos.

Encontrá-los é um ótimo incentivo, já que as recompensas são itens exclusivos, geralmente equipamentos que quebrarão o maior galho, e, mais importantemente: quanto mais emblemas, mais chances de ver a cena secreta do jogo, liberada logo após os créditos. Há também inúmeros minigames para matar o tempo, os quais podem ser acessados pelo Gummiphone após o jogador encontrar os QR Codes em baús especiais pelos mapas.

Há também minigames bastante pontuais, como os de colheita no mundo do Ursinho Pooh e também o de cozinhar com o Little Chef em Twilight Town. Este último, por sua vez, precisa de ingredientes, os quais serão coletados explorando os mundos do game. Quanto mais diferente for o material, mais complexa será a receita — e mais estrelas o restaurante ganhará quando houver êxito no minigame, o que requer certa habilidade e timing na execução.

O Gummi Ship também está de volta, mas, antes de você torcer o nariz, a nave de exploração intergaláctica está bem mais fácil de manejar e os comandos foram revisados, tornando o gameplay dessas partes muito tranquilo e prático. Quem gosta de shoot em’ up pode até acabar se divertindo enquanto viaja de um mundo para outro, explorando as galáxias e além.

Por fim, o adorável Moogle está de volta em sua Moogle Shop, vendendo ou adquirindo itens dos personagens, além de sintetizar equipamentos exclusivos. Por sinal, vale explorar bem os mundos e achar todos os tesouros (e/ou participar dos minigames pontuais de cada mundo, como o Flantastic Seven ou Frozen Slider) para ganhar materiais raros e, assim, evoluir suas Keyblades ou forjar a Ultima Weapon.

Não é para principiantes

Kinhdom Hearts III não é recomendado para jogadores de primeira viagem, isto é, aqueles que sequer encostaram em um game da franquia antes. Em termos de gameplay, ele é bastante intuitivo e os jogadores aos poucos entendem como tudo funciona; quando menos perceberem, os jogadores estão executando intermináveis combos aéreos emendados em Formchanges e magias e finalizados com uma Attraction.

É simplesmente bem gostoso de jogar e, embora seja muita informação e muitos comandos para se aprender, além de diversos minigames para participar, uma coisa vai levando a outra e todo o processo de aprendizagem (ou de refamiliarização) acaba se tornando bem natural. Porém, o mesmo não pode ser dito da história.

Apesar de existir um Theater Mode para reassistir todas as cutscenes do game cada vez que se terminar um dos mundos e uma opção de The Story So Far no menu inicial, que resume (e muito) os principais acontecimentos dos últimos games, qualquer iniciante pode se sentir: a) extasiado; b) perdido; c) sobrecarregado; d) todas as anteriores. E quem se aventurou em pelo menos um dos títulos anteriores, vai sentir no mínimo apenas uma dessas alternativas.

Isso porque a história da saga Kingdom Hearts, num geral, não é difícil ou muito complexa. O problema é que é muita informação jogada em diferentes games de variadas plataformas — apesar deste argumento ser ferozmente refutado pela existência das coletâneas Kingdom Hearts HD 1.5 + 2.5 ReMIX e Kingdom Hearts HD 2.8 Final Chapter Prologue, que reúnem todos os títulos lançados até então.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Contudo, a expectativa é que qualquer game que se preze precisa estabelecer sua trama de forma que jogadores novatos e veteranos entendam tudo. E isso está lá em Kingdom Hearts III: seja na opção The Story So Far, no Jiminy’s Journal durante o game, nas recorrentes recapitulações a acontecimentos anteriores durante cutscenes… Mas nada disso parece suficiente, uma vez que o game não está legendado em português brasileiro.

Este único e grande fator é o que mais complica o game em termos de resistência nas mãos de novos jogadores, em especial as dos brasileiros que não estão tão familiarizados assim com a língua inglesa. Entretanto, se os gráficos estonteantes, a nostalgia da Disney e da Pixar, e a belíssima trilha sonora te convencerem, vá sem medo. Acredite em seu coração.

Este é o fim… Ou não!

Passados os contrapontos sobre a trama, vamos aos pontos fracos da história. Uma vez que tecnicamente o jogo está excelente, com exceção de uma mecânica ou outra — cof cof, Flowmotion, cof cof — e de um ou outro recurso que (continua) mal-explorado — cof cof, Links, cof cof —, resta falar do plot.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Como já comentado por aqui, Kingdom Hearts III é o capítulo final da primeira saga (de um total de três) idealizadas por Tetsuya Nomura. A expectativa é certamente muito alta para ver como tudo vai se desenrolar. Mas, acima disso, este não é o fim, como já foi deixado muito claro anteriormente pelo diretor, roteirista e criador da franquia.

Em termos de fechamento de arcos, Kingdom Hearts III os executa como nenhum outro, trazendo velhos e queridos rostos de volta e outras personas non-gratas também, tudo para colocar os devidos pingos nos is de cada história. O problema, porém, é que o andamento da trama é bem arrastada.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Tudo é resolvido, de fato, apenas após o fim do último mundo do game, iniciando uma longa sequência de batalhas contra chefes e cutscenes grandes (e bem emocionantes). É recompensador ver o desfecho de tudo e de todos, mas o game não estimula rejogar tudo pelo puro prazer de reviver cenas e/ou lutas. Tudo o que resta é terminar as sidequests e/ou pegar itens que ficaram para trás, simplesmente por fazer.

Os personagens possuem características muito bem definidas e, por ser um capítulo de término de saga, não há tantas evoluções: ao invés disso, a narrativa abre alas para as conclusões, como bem havia de ser, permitindo que os protagonistas brilhem como nunca. E claro, como não poderia deixar de ser, há inúmeros momentos engraçados ao lado de Sora, Donald e Pateta. Inclusive, talvez este seja o Kingdom Hearts mais divertido.

Existem ainda muitos momentos que quebram a quarta parede ou que usam de metalinguagem para dialogar com o jogador e que merecem destaque — que venham mais desses! Por fim, como estamos falando de Kingdom Hearts, é possível perceber nas entrelinhas de diálogos bem específicos o que o futuro da série reserva. Parece até que Tetsuya Nomura, de fato, sempre trabalha em um dos títulos já pensando nos dois próximos.

Minha aposta é que, além de mais mundos da Pixar, os próximos games se aventurem em mundos de outros títulos da Square-Enix. Talvez por isso, inclusive, Final Fantasy não tenha tido presença forte neste game — e isto, aliás, está sendo um fator muito decepcionante para muitos fãs da saga, muito embora, particularmente, eu os veja representados nos próprios personagens originais da franquia, isto é: Sora, Riku, Kairi, Roxas, Axel, Xion, Terra, Ventus, Aqua, etc.

De toda forma, mesmo sem ter absorvido toda a bagagem anterior necessária para jogar Kingdom Hearts III (esta que vos fala se aventurou em quatro games da série apenas, incluindo o primeiro e o segundo), toda a experiência com este que é o capítulo final da Dark Keeper’s Saga foi marcante.

É difícil não se emocionar em certos momentos e, ainda que a conclusão seja um pouco confusa, já que deixa pontas soltas a serem exploradas no futuro, é impossível não sentir falta de se aventurar ao lado de Sora, Donald e Pateta, não cantarolar o tocante tema de encerramento do game junto da maravilhosa Hikaru Utada, ou não criar expectativas para o que Tetsuya Nomura planeja. Portanto, que nossos corações sejam sempre os nossos guias pelos próximos tempos.

Kingdom Hearts III está disponível para PlayStation 4 e Xbox One. No Canaltech, o jogo foi analisado no PS4 com cópia gentilmente cedida pela Square-Enix.

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