Análise | Jump Force é a festa de aniversário que deu muito errado, infelizmente

Por Jessica Pinheiro | 21 de Fevereiro de 2019 às 13h33
Bandai Namco

A revista semanal japonesa Shonen Jump, responsável por publicar incontáveis clássicos, tais como Cavaleiros do Zodíaco, Samurai X, Yu Yu Hakusho, Dragon Ball, Naruto e tantos outros, recentemente completou 50 anos, mas a celebração se estendeu para os videogames também, com a Spike Chunsoft, que desenvolveu games da série Danganronpa e J-Stars Victory VS, no comando da produção e a Bandai Namco responsável pela distribuição.

A festa em forma de game atende pelo nome de Jump Force. Todavia, a comemoração parece ter saído muito aquém do esperado... Não leve a mal, os convidados para a celebração foram excelentes — muito embora se eu pudesse teria convidado alguns bonecos diferentes, além de tentar equilibrar a quantidade de representantes por franquia, mas vamos discutir isso depois. O problema foi (quase) todo o resto.

Convidados: OK

O rol de personagens de Jump Force é realmente muito bom, muito embora, pessoalmente, eu ache que faltou ousar um pouco mais e, principalmente, equilibrar o número de representantes de cada franquia. A reclamação fica por conta de existirem mais bonecos do mangá x do que do y, o que pode incomodar alguns fãs de determinadas séries.

Um bom exemplo de ousadia fica a cargo de Yami Yugi, de Yu-Gi-Oh!, que é tanto visual quanto tecnicamente interessante de se jogar, já que o personagem utiliza uma versão digitalizada em tamanho real de suas principais cartas para lutar por ele. O mesmo vale para os personagens de Jojo’s Bizarre Adventure, que utilizam os Stands em golpes especiais. Mas as novidades meio que acabam aí.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

No total, são 43 personagens jogáveis, sendo 40 deles retirados de publicações conhecidas da Shonen Jump, 1 completamente original criado pelo jogador e outros 2 inéditos. Existem planos para mais 9 bonecos se juntarem ao rol de convidados via DLC futuramente e outros rostos conhecidos também dão as caras, mas não é possível controlá-los — como é o caso de Ryuk e Light Yagami, de Death Note, por exemplo.

A soma da equação, no fim das contas, traz uma sensação de que, nesse aspecto, Jump Force poderia oferecer muito mais do que tem em mãos, por mais satisfatório e interessante que o elenco de bonecos pareça. Talvez os personagens prometidos via DLC diminuam um pouco esse sentimento, mas será necessário aguardar alguns meses até que isso aconteça.

Brincadeiras: É…

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Pegando carona nos personagens e algumas mecânicas de combate anteriormente citadas, vale mencionar que a jogabilidade é onde Jump Force verdadeiramente mostra sua força — trocadilho não intencional. Ainda assim, embora o game seja simples e prático em termos de gameplay, o que o torna muito fácil de assimilar, os pontos positivos param por aí.

Não existe nada inovador no combate: os golpes se resumem a ataque fraco e ataque forte, botão de defesa, pulo e agarrão. Os comandos de cima do controle também ativam o dash e a esquiva (quando pressionado no momento certo) e as técnicas especiais são acionadas ao combinar os gatilhos superiores com um dos quatro botões de ação. Há também a “habilidade de despertar”, que tira um dano considerável e pode ser ativada com os analógicos.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Não existem estratégias complexas a serem dominadas: tudo é bastante simples e rápido de aprender, o que é muito bom, mas também é um tanto quanto ruim, já que torna o game um pouco menos atraente, em especial para o segmento competitivo de jogos de luta; e o limita a apenas um bom jogo para tirar contras com os amigos em alguma ocasião, no controle de vários personagens conhecidos e queridos.

Decoração: Hmnnn…

E se de um lado a jogabilidade entrega uma experiência agradável, os gráficos de Jump Force talvez sejam o ponto mais crítico. A simples ideia de trazer os personagens dos mangás para o “mundo real” soa bastante estranha, mas, esteticamente, e é até bonito apreciar os tecidos das roupas dos personagens detalhados ao extremo, tentando simular uma sensação de (estranho) realismo.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Ainda assim, as expressões faciais dos bonecos continuam em seus traços originais e, quando transportados para o 3D em uma tentativa de transformá-los em personagens realistas, o resultado é somente um sentimento caótico dentro do peito. Para alguns deles, entretanto, a estética gráfica até que funciona, como no caso de Yusuke Urameshi de Yu Yu Hakusho e de Seiya e Shiryu de Cavaleiros do Zodíaco.

Para outros como Goku, Vegeta, Trunks e toda a trupe de Dragon Ball, ou os bonecos de Hunter X Hunter, porém, não funciona tão bem assim. A criação original do jogador (uma espécie de avatar para tentar aumentar a imersão) também parece funcional, mas a movimentação é no mínimo bizarra e, considerando que o game tenta forçar uma ideia de realismo, essa falta de atenção a esses detalhes só piora a soma dos fatores.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Ainda assim, as animações de técnicas especiais e, em especial, os cenários para lutas, são bem bonitos, ajudando ainda mais no conflito visual que o game apresenta. Por fim, a trilha sonora não impressiona muito, além de ser repetitiva. Enquanto eu jogava, não consegui perceber nenhum tema conhecido embutido nas faixas orquestradas da composição; o que é uma pena. Teria sido muito mais emocionante confrontar ou controlar Seiya e Shiryu ao som de Pegasus Fantasy, por exemplo.

Celebração: Não

São os 50 anos da Shonen Jump, certo? O simples fato de ser um evento comemorativo da revista é um motivo e tanto. Porém, Jump Force tenta instigar a atenção dos jogadores com uma trama bem fraca — chata até, eu diria. O game começa com Goku e Freeza lutando em Nova Iorque juntamente de Naruto e Luffy de One Piece. O embate parece épico, mas tem um desfecho bem anticlímax.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

E em meio a tudo isso, o jogador precisa desenvolver seu avatar. A criação envolve dar um nome e personalizar o visual do boneco. Assim que é criado, é explicado que o personagem foi atacado por Venoms - os inimigos comuns do jogo -, mas antes de ser possuído pela força deles, um poder oculto o despertou.

O boneco original acaba sendo recrutado para a Jump Force ao lado de Goku, Naruto, Luffy e tantos outros, que se reuniram para acabar com a ameaça dos Venoms, agora que todos os mundos da Shonen Jump emergiram e passaram a coexistir no mundo. É uma história bem básica e o desenrolar dela não é nada instigante.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Apesar de manter a dublagem em japonês e possuir legendas em português-brasileiro (cujo trabalho de localização, inclusive, ficou muito simpático e satisfatório), a sensação que fica é de que não era necessário desenvolver tantos motivos para colocar tantos bonecos icônicos juntos, perambulando em uma base e sendo enviados em missões enquanto uma trama clichê e arrastada se desenvolve. A porradaria já bastava.

O game, inclusive, não possui menus como outros games de luta. Ao invés disso, o jogador precisa navegar em uma espécie de hub onde o seu personagem original (e todos os bonecos recrutados pela Jump Force) perambulam e treinam o dia todo. Neste ambiente, ao conversar com os NPCs, é possível escolher as missões principais, missões de treinamento ou missões de tutorial; além de lutar online ou offline.

(Imagem: Jessica Pinheiro/Canaltech)

Nesse aspecto, o jogo é bastante parecido com Dragon Ball Xenoverse, só que menos divertido. E por falar em diversão, outro fator que certamente o mata definitivamente são os loadings. Os carregamentos são constantes e bastante demorados. Não é nem preciso dizer como isso é irritante, não é mesmo?

No fim das contas, a equação é essa mesma: Jump Force é um amontoado de boas ideias mal executadas; uma celebração cujo planejamento foi virando uma bagunça. E mesmo com tantos problemas, a comemoração finalmente aconteceu, mas ninguém parece ter saído feliz da festa. Uma pena, realmente uma pena.

Jump Force está disponível para PC, PlayStation 4 e Xbox One. No Canaltech, o jogo foi analisado no PS4 com cópia gentilmente cedida pela Bandai Namco.

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