Análise | Dragon Ball Z: Kakarot diverte, cativa e emociona

Por Felipe Ribeiro | 05 de Fevereiro de 2020 às 10h13
Bandai Namco

Sempre que um jogo que esteja ligado a um anime ou filme é lançado muitos questionamentos são lançados. Autenticidade, coerência, enredo, jogabilidade atrativa e por aí vai. Quando falamos de um game de Dragon Ball Z, parece que tudo se torna ainda mais exigente e complicado, pois como é um produto antigo e exaustivamente assistido, qualquer detalhe que não agrade aos fãs pode ser percebido com facilidade. Bem, mas eis que em 2020 a Bandai resolve lançar aquilo que é um sonho realizado para muita gente: Dragon Ball Z: Kakarot.

O jogo passa com louvor por todos esses questionamentos e entrega aquilo que todos os apaixonados pela série queriam: um RPG canônico, divertido, apaixonante, cativante e muito, muito bem feito.

Pense por um momento que é como se fosse jogar todas as histórias do anime em formato de RPG, com um mundo aberto extremamente fiel ao desenho, mas com o combate muito parecido com a série Budokai Tenkaichi e elementos que apareceram até mesmo em Dragon Ball Z: Chou Saiya Densetsu, icônico jogo lançado em 1992 para Super Nintendo.

Nem mesmo algumas coisas desnecessárias tiram o brilho deste game, e vamos contar tudo com detalhes para vocês, leitores do Canaltech, agora.

Todo mundo já conhece

Antes de começar a ler esta análise ou até mesmo a jogar, lembre-se de que todo o enredo de Dragon Ball Z: Kakarot já existe. Para não dizer que o game é 100% fiel ao anime, digamos que é 95%, pois existem muitas missões secundárias e algumas adaptações entre alguns episódios. E por falar em episódios, a progressão do jogo parece mesmo uma exibição do desenho, com muitas e longas cut scenes e animações bem familiares.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Para quem é fã, torna-se absolutamente desnecessário explicar como tudo evolui em Dragon Ball Z: Kakatot, mas vale a pena ressaltar que, mesmo para quem nunca assistiu a um episódio sequer do anime, dá para entrar e jogar sem medo de se perder ou algo do tipo, pois sua progressão foi pensada de modo que, de fato, estivéssemos assistindo à série, com explicações in game e também nos menus, algo que abordaremos mais à frente.

Para quem tem na cabeça os episódios de cor e salteado, as animações e cut scenes serão bem maçantes, mas vale a pena assistir por causa da qualidade com que foram feitas e pela fidelidade dos diálogos — este último quesito algo que nunca vimos ser representado tão bem em um jogo de Dragon Ball.

Mas é um jogo, certo?

Sim! É um jogo! E dos bons!

Dragon Ball Z: Kakarot não é um RPG de turnos. Digamos que dá para misturar a jogabilidade com The Witcher, Assassin's Creed: Odyssey e Monster Hunter, pois há elementos desses outros títulos bem presentes. Você avança nas missões pelos mapas e os combates são realizados de maneira bem parecida com os games em visão 3D, como os saudosos títulos da série Budokai Tenkaichi ou Xenoverse.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Mas, lembre-se, estamos falando de um RPG, e a luta em si acaba se tornando um pouco menos importante, pois há a necessidade de "construirmos" nossos personagens, aumentando seu nível e os equipando com itens que podem ser usados durante a luta, como poções e a famosa "semente dos deuses", que, tal qual no anime, recupera seu lutador em 100%.

Por isso, antes de entrar em grandes batalhas, certifique-se que seu personagem já está "bombado" o suficiente com as coisas que você colheu durante os intervalos nos arcos. O mundo de Dragon Ball é vasto e com inúmeros itens que podem ser utilizados por você em forma de alimento. Além disso, inimigos vão surgir sempre que você estiver voando por aí e, quando derrotados, geram pontos de experiência.

Obviamente, por ser um game de mundo aberto e com "colheitas" a serem feitas, é claro que a movimentação de Goku e de todo o pessoal pelo mapa é muito fácil de ser feita, não importa a região ou o tipo de terreno. Você passa a maior parte do tempo voando, claro, mas é possível explorar todo o mundo a pé, o que pode te reservar algumas descobertas bem interessantes.

Evolução dos personagens

Em Dragon Ball Z: Kakarot não usamos apenas Goku, mas quase todos os lutadores da série principal, como Kuririn, Gohan, Piccolo, Vegeta e Trunks, em todas as formas que apareceram no desenho — sim, TODAS. O nível do seu lutador controlável aumenta com as batalhas e missões completadas, que são bem lineares e seguem fielmente ao enredo do jogo/anime.

Mas, mesmo que seus inimigos possuam um nível maior que o seu (o que vai acontecer bastante se você não upar o seu personagem), dá para avançar no game, mas com mais dificuldade. Por isso, como dissemos acima, antes de entrar em grandes lutas, como os chefes, procure preencher a árvore de habilidades e executar todos os treinamentos disponíveis no mapa.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Além disso, ao navegar pelos mundos de Dragon Ball, colha todos os "orbis" possíveis. São joias que ficam espalhadas pela terra, céu e água e que servem como "moedas" para você desbloquear as técnicas possíveis na árvore de habilidades.

Alguns golpes estarão disponíveis à medida que você aumentar seu nível, como se fosse em Pokémon, quando o monstrinho aprende tal golpe. Mas outras técnicas precisam ser "desenvolvidas" e é nos treinamentos que isso ocorre. As transformações, como a do Super Saiyajin, ou fusões, como as que Piccolo efetua, só podem ser adquiridas com a progressão no jogo e podem ser utilizadas durante as lutas.

Colher, caçar, pescar e cozinhar

Para quem assiste Dragon Ball desde quando Goku era apenas uma criança com rabo, a caça sempre fez parte da vida dos personagens e, incrivelmente, sempre presenciamos as refeições dos guerreiros Z. Parece algo que Akira Toriyama, criador do desenho, sempre fez questão de mostrar.

Em Dragon Ball Z: Kakarot podemos nos alimentar de duas maneiras: caçando e fazendo refeições rápidas em vários dos pontos do mapa, ou levando para a Chichi ou outros cozinheiros nos demais locais espalhados pelo mundo. As refeições podem ser rápidas ou completas e elas dão alguns efeitos temporários aos guerreiros, como aumento de Ki e HP, menos possibilidade de atordoamento.

Os ingredientes são caçados nas florestas, como animais, dinossauros e frutas, ou nas águas, nos campos de pesca. Pescar, aliás, é bem fácil e divertido.

A solução dos alimentos é muito criativa e tem tudo a ver com o anime, mas dá para passar por todos os desafios sem comer um prato sequer. Não a julgamos completamente desnecessária, porque ela traz aditivos aos lutadores, mas é uma perda de tempo que, em um jogo longo como esse, poderia ser evitada.

Comunidade, uma grata surpresa

Outra solução criativa encontrada pela Bandai para a evolução dos personagens foi o chamado Fórum da Comunidade. Aqui, alguns personagens-chave foram determinados para serem o elo entre as demais figuras do game. Se você for um profundo conhecedor de Dragon Ball Z, não terá a menor dificuldade em fazer essas ligações.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

A comunidade chefiada por Goku, por exemplo, é a dos guerreiros. Aqui, você vai preencher a árvore de participantes desse grupo com "Emblemas da Alma", que são colhidos automaticamente na progressão da história. À medida que você completa as lacunas, novos bônus são fornecidos para seus lutadores da mesma maneira que acontece com os alimentos, mas com uma diferença primordial: são vitalícios.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Para ter ainda mais benesses, atenção às ligações. Por exemplo: Gohan é filho de Goku, por isso, se ambos emblemas estiverem ligados, existe o bônus "pai e filho", que também pode ser obtido com Goten, o que expandiria os ganhos com Gohan. O mesmo ocorre com Vegeta e Trunks.

Tá, mas e a luta?

Bem, conforme citamos, as lutas são bem parecidas com o que vimos em outros games da série. São repetitivas, é verdade, mas desafiadoras e casam bem com o estilo do jogo. Não faria sentido aqui, por exemplo, implementar as mecânicas de Dragon Ball FighterZ, mesmo que mais divertidas. A inclusão dos itens e de personagens auxiliares foi muito bem feita e inteligente, pois é aquele toque de RPG que o combate precisava.

Cada lutador tem até quatro superpoderes e os combos são executados com combinações fáceis de botões. O que muda com relação aos jogos como Dragon Ball Xenoverse é que a utilização desses poderes é muito mais fácil, já que a manutenção do Ki é bem rápida. Claro: há golpes que se você errar, terá muitos problemas, mas, via de regra, o encaixe não é complicado.

O que pode ser detectado como falha no sistema de lutas, porém, é quando somos acoçados por mais de um inimigo ao mesmo tempo. Durante a luta contra os Cell Juniores, por exemplo, os personagens de suporte se tornam praticamente inúteis, pois não enfrentam os múltiplos inimigos no mesmo nível que você. Pior: todos eles te atacam sem a menor cerimônia. Por isso, nestes casos, você terá de ter não apenas habilidade, mas muita, muita paciência.

Gráficos, som e arte

Falando da parte técnica, Dragon Ball Z: Kakarot beira a perfeição. A ambientação e os gráficos tanto no mundo aberto quanto nas lutas são excelentes e extremamente fidedignos ao anime. Você realmente se sente no universo de Dragon Ball em cada detalhe, cada passagem, não importa se é na floresta ou nas cidades.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Além de belas imagens, a trilha sonora é idêntica ao desenho, com todas aquelas músicas de fundo características e que não saem da nossa cabeça por nada. Os personagens também foram muito bem retratados e assumiram as personalidades com absoluta perfeição, seja o orgulhoso e ranzinza Vegeta, ou o assanhado, mas agradável Mestre Kami.

E por falar nisso, dublagem em japonês é quem dá esse tom de fidelidade ao anime, pois a em inglês não agrada nem um pouco. É um pecado, também, esse game estar localizado para o Brasil apenas nos menus e em determinadas legendas. Se ele viesse dublado com as vozes originais, me arriscaria a dizer que seria a maior obra de adaptação de um anime para os games da história.

Apesar de alguns engasgos em lutas com vários personagens na tela, o jogo tem uma fluidez bem interessante, com poucos engasgos ou bugs. O game roda em 4K nativos e a 30 FPS constantes no Xbox One X, 2K e 30 FPS no PlayStation 4 Pro e 1080p/30 FPS nas versões tradicionais dos consoles.

Um modo de desempenho para os consoles aprimorados ainda não foi confirmado.

Para quem não conhece

Uma menção honrosa precisa ser feita para um recurso muito legal que a Bandai incluiu no game e que certamente foi pensado para quem não conhece Dragon Ball: a Enciclopédia Z. Nela é possível entender tudinho sobre o anime e o jogo, com todas as conexões e parentescos entre os personagens.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Para os fãs, o mapa é repleto de fotos do anime, que podem ser coletadas e visitadas nessa enciclopédia.

Já para quem conhece...

Falamos, falamos, falamos e nos esquecemos delas: das Esferas do Dragão. Achá-las é facílimo e seus desejos são proporcionais a essa facilidade.

Imagem: Captura de Tela/ Felipe Ribeiro

Ou seja, não espere nada de mirabolante, como reviver alguém ou algo assim. Shenlong vai te dar itens ou a chance de lutar contra inimigos antigos, algo que pode ser divertido.

Obrigatório

Dragon Ball Z: Kakarot é parada obrigatória para todo e qualquer fã do anime. Direto e reto, seguindo o enredo principal do desenho e sem desvios, o jogador pode desfrutar de um jogo de muita qualidade e que toca forte no sentimento nostálgico que todos nós temos.

Apesar de alguns elementos desnecessários, o game é extremamente convidativo e apaixonante, mesmo para quem não tem afinidade com o anime.

Dragon Ball Z: Kakarot está disponível para Xbox One, PlayStation 4 e PC. No Canaltech, o jogo foi testado no Xbox One X com cópia gentilmente cedida pela Bandai Namco.

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