Análise | Concrete Genie é sobre como encaramos depressão, abandono e recomeços

Por Rafael Arbulu | 08 de Outubro de 2019 às 09h19
(Captura de Imagens: Rafael Arbulu/Canaltech)

Existe uma grande possibilidade de que Concrete Genie tenha passado bem longe do seu radar. Você não está sozinho: em meio a pesos-pesado como Death Stranding e The Last of Us Part II, esse jogo desenvolvido pelo estúdio Pixelopus e produzido pela Sony com exclusividade para o PlayStation 4 não exatamente grita “Blockbuster”. Eu mesmo, embora já soubesse dele pelos trailers, não lhe dei muita atenção frente a outras novidades no mercado de jogos.

E como estávamos — você e eu — errados.

Concrete Genie coloca o jogador no papel de Ash, um jovem residente da cidade abandonada de Denska, que caiu vítima de uma série de desastres que fizeram com que a maior parte de sua população fosse embora. No local, sobraram Ash e um grupo de adolescentes que agem como os bullies locais, além de uma espécie de mancha preta com tons de roxo, escurecendo a cidade. Logo no início, já somos introduzidos às mecânicas de gameplay: usando o sensor de movimentos do DualShock 4, você começa a pintar e colorir figuras dentro do caderno de Ash, apenas para ver os arruaceiros chegando, rasgando o material e, eventualmente, forçando o protagonista a perseguir páginas perdidas no farol situado na encosta.

E é aqui que Concrete Genie aparece de verdade pela primeira vez: algumas páginas capturadas por Ash fazem com que um dos “Gênios” do título apareça, em uma vida em segunda dimensão, apinhados nas inúmeras paredes do farol. Ele lhe concede um pincel para criar mais gênios, orientando que você, literalmente, pinte a vida de Denska de volta.

A jogabilidade é o ponto com ligeiras questões: não sei se foi a sensibilidade do sensor de movimentos do joystick ou algum desajuste meu, mas tive certa dificuldade para executar até mesmo as pinceladas mais simples. Felizmente, é possível mudar as configurações para execução por meio do analógico direito.

Independentemente da sua escolha, o jogo progride mais ou menos do mesmo jeito por toda a sua duração (uma média de seis ou sete horas): com o pincel mágico, você cria mais e mais gênios, cada um com habilidades e personalidades específicas. Um ponto bem positivo, aliás: suas criações não são meras ferramentas — um gênio baixinho com pelos eriçados se mostrará como mais abusado e arteiro, ao passo que um bichão alongado e fino será mais quieto e tímido. A grosso modo, pense em um labrador filhote e um gato persa já adulto e você terá uma boa ideia do contraste.

O objetivo do jogo é de literalmente acender lâmpadas com as suas pinturas. Dividindo todas as ambientações em zonas, ao iluminar todas elas, a gosma preta daquela região será eliminada, permitindo que você crie uma pintura final mais épica (“obra de arte”, pelo termo usado no jogo), efetivamente fechando aquela área com luz e vivacidade. E os objetivos se fazem notar a longo prazo: conforme você avança por Deska, é possível reconhecer cantos outrora escuros e pobres depois de enchê-los de símbolos como um sol ou representações de matagais e paisagens. É tudo muito estilizado, trazendo um estilo de arte único que é bem bonito de se ver, além de se misturar perfeitamente com a animação stop motion dos personagens — assistiu ao filme Coraline? Mesma pegada.

(Captura de Imagens: Rafael Arbulu/Canaltech)

Não há combate — ao menos, não até mais ou menos o terceiro ato do jogo, onde mecânicas similares a The Legend of Zelda com uma pitada de InFamous poderão ser notadas — e a progressão de pinturas se dá ao mesmo tempo em que você evita os bullies: eles percorrem as ruas da cidade e, comumente, você deverá evitá-los subindo pelos telhados, o que adiciona um leve elemento de stealth a Concrete Genie. O interessante é que, tal qual os gênios, o grupo de inimigos também possui, cada um, uma personalidade própria, com momentos do jogo explicando o motivo de eles serem assim.

E é nesse elemento narrativo que Concrete Genie brilha mais do que muitos jogos por aí. O jogo inteiro tem uma percepção visual muito soturna, rodando quase que totalmente à noite. Isso influencia diretamente na recepção das informações de enredo que o jogo coloca à sua frente. É difícil falar muito sem soltar spoilers gigantes, mas há um paradoxo extremamente bem trabalhado entre os eventos do jogo e temas de alta discussão, como depressão, abandono (de pais e amigos), omissão, projeção da raiva em quem não a merece… e a recuperação disso tudo. Estabelece-se um arco perfeito que mostra — por vezes, nada sutilmente — todo um processo de uma vida em frangalhos aos poucos se recuperando, até que eventualmente, já no final do conto, deixa subentendido que tudo ficará bem.

É uma mensagem sincera de ser passada, especialmente em um jogo que, conforme falamos, pode ter passado batido pela maioria. Ash é colocado à prova por várias e várias vezes ao longo da trama: evitar cruzar caminho com os assediadores denota solidão por parte do protagonista, mas durante sua locomoção escondida, pode-se pegar pedaços de conversas dos inimigos entre si — e isso também se mostra útil para entender o enredo por várias fontes e percepções. Ademais, à medida que você trafega pela cidade abandonada, você cruza com informações e jornais passados que contam o que raios aconteceu para que tudo chegasse a esse ponto. É tudo muito bem amarrado, muito bem construído: um caso narrativo aberto e fechado em um pacote quase perfeito.

Resumidamente, e dadas as devidas ressalvas, Concrete Genie me lembrou bastante de Hellblade: Senua’s Sacrifice, no sentido de que todas as ferramentas — narrativa, jogabilidade, apresentação artística, trilha sonora — servem como pilares para sustentar uma mensagem entregue através de uma plataforma interativa. No caso, videogames.

O jogo não chega a oito horas de duração na campanha principal (há outros modos, como um de pinturas livres e outro que faz uso do PSVR, mas todos sustentados pelo modo de um jogador), mas é muito fácil se ver absorto, totalmente imerso em sua progressão. Serve para jogadores casuais e veteranos.

Definitivamente, uma das mais gratificantes surpresas desse fim de 2019 para a indústria de jogos.

Concrete Genie está disponível com exclusividade no PlayStation 4. No Canaltech, o jogo foi analisado com cópia gentilmente cedida pela PlayStation Brasil.

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