Análise | Mesmo com bugs, Sniper Ghost Warrior Contracts é o maior jogo da série

Por Rafael Arbulu | 09 de Dezembro de 2019 às 09h37
CI Games

O papel do franco-atirador é cheio de um certo misticismo. Existem jogos e filmes que tratam esse tipo de combatente apenas como uma peça em um esquema de guerra maior, mas de uns tempos para cá diversas produções midiáticas buscam posicionar o atirador de longo alcance no centro das atenções. Nos cinemas, por exemplo, vimos Sniper Americano. Nos jogos, a atribuição mais recente disso é Sniper Ghost Warrior Contracts, produzido pela CI GAMES.

Aqui, você controla um mercenário especialista no combate de longa distância, priorizando a furtividade e a camuflagem de uma forma pouco convencional: enquanto outros jogos do gênero buscam fazer com que você se aproxime do oponente sorrateiramente, em Contracts o ideal é que você mantenha a sua distância, eliminando inimigos sem ser visto, tal qual um fantasma no campo de batalha. É um teste de paciência também: embora o jogo até conte com uma abordagem mais “Rambo” para incursões mais diretas, é na mira telescópica e na mecânica do tiro longo que Contracts realmente brilha.

Desde o tutorial até a quinta e última missão, o jogo faz questão de inserir você no maior realismo possível: entre puxar o gatilho e obter aquela morte certeira, muitos fatores devem ser levados em consideração, como direção e velocidade do vento, distância da bala até o alvo, se o logo-a-ser-abatido está em movimento ou não, se o oponente está com armadura mais resistente — tudo isso gera impacto e é pensado antes de cada tiro dado. Em Contracts, os tiros certeiros e mais impossíveis são, obviamente, melhores recompensados.

Recompensas essas, amarradas no contexto narrativo do jogo, que tem um enredo, sinceramente, ignorável em todos os aspectos: a Rússia entrou em guerra interna com a sua parte siberiana, com a segunda efetivamente conquistando a sua independência e firmando-se como a República da Sibéria. Insira aí alguns elementos de corrupção do novo governo, envolvimento com grandes empresas petrolíferas, pesquisas genéticas duvidosas e, no meio disso, você, o executor de contratos milionários com o objetivo de assassinar figuras chave desse jogo político, ao mesmo tempo em que recolhe documentos e evidências para seus empregadores, sendo devidamente recompensado pelo seu trabalho.

(Captura de Imagem: Rafael Arbulu/Canaltech)

O interessante aqui é a amplitude de abordagens disponíveis para cada missão. Você tem uma série de objetivos a cumprir, na ordem que desejar. A cada parte cumprida, você pode reportar de volta aos empregadores (entregando as informações uma a uma e estabelecendo pontos de checagem) ou seguir toda a missão e reportar tudo de uma só vez. O bom é que as missões em si são bem distribuídas, não se limitando a apenas matar essa ou aquela pessoa: alguns objetivos requerem que você, além de eliminar um alvo, recolha algum documento em sua posse ou reviste o seu corpo — isso adiciona uma camada de estratégia ao jogo, forçando você não apenas a planejar adiante a execução da missão e a recolha de itens, mas também a sua fuga.

Um ponto ambíguo em Contracts é o tamanho dos mapas: o jogo segue o preceito “caixa de areia”, estabelecendo certos limites na sua navegação, mas eles são quase imperceptíveis dada a magnitude de cada fase. Os ambientes variam desde grandes construções urbanas e portuárias até bases instaladas em altas montanhas em meio à densa neve, passando por mansões hiperseguras dentro de profundas florestas. O mapa estabelece pontos de trânsito rápido, algo que você se verá usando com frequência, pois, sinceramente, navegar tudo isso “na sola da bota” é uma tarefa bem maçante — uma que, eventualmente, você será obrigado a fazer quando os pontos de viagem rápida são desativados após você cumprir um objetivo e reportá-lo aos chefes. Mesmo em casos onde você matou todo mundo de uma base, a função não vai funcionar.

(Captura de Imagem: Rafael Arbulu/Canaltech)

Visualmente falando, Contracts é deslumbrante. Todas as ambientações seguem padrões bem realistas e vívidos, sendo muito interessante ver como o mundo ao seu redor se comporta: se você prestar atenção, nas fases de neve é até possível perceber quando o vento muda de direção sem aviso, forçando você a ajustar seus disparos e sua posição. O único problema é a exibição genérica dos inimigos. Todos eles seguem o mesmo padrão, com uma ou duas variações de cor, mas com modelos totalmente iguais. Há soldados comuns, franco-atiradores rivais e combatentes mais pesados, além de torretas e drones que servem para complicar a sua vida.

Você, por outro lado, tem uma série de armas e aprimoramentos que podem ser adquiridos conforme você vai cumprindo as missões dadas. Seu personagem, referido pelo jogo apenas como “Caçador” (Seeker, no original em inglês), é munido de um rifle de longo alcance, um fuzil e uma pistola. As três categorias trazem itens divididos entre leves e pesados: os mais leves trazem munição de pouca penetração e baixo poder de fogo, mas possuem silenciamento aprimorado e cadência de tiros rápidos. As armas mais pesadas são consideravelmente mais poderosas, podendo matar até mesmo os soldados de armadura com um só disparo, mas sacrificando o silêncio e a velocidade dos tiros. O bom é que todas são customizáveis e você pode ajustá-las conforme sua necessidade. Dica: economize bastante grana e compre o rifle Sturm Precision com um silenciador modificado. É de longe a melhor arma do jogo.

Além disso, você também consegue adquirir acessórios, como torretas de longo alcance para disparos combinados (ou para limpar uma base antes de você entrar nela), drones para marcar inimigos (algo incrivelmente útil nas missões finais) e granadas de variados tipos (ótimas para tanques e torretas inimigas, apesar do barulho). Tudo isso para ajudá-lo na hora de cumprir as missões e sentir a satisfação de alinhar aquele tiro longo e ver a kill cam acionada: é um recurso já conhecido da franquia, onde disparos mais difíceis que sejam bem-sucedidos ativam uma câmera que segue toda a trajetória da bala, da sua arma até a cabeça do oponente. Existe um processo de pressão e satisfação aqui: você precisa fazer aquele tiro mais difícil, mas o vento é forte, os indicadores da mira só lhe ajudam até certo ponto, uma nevasca está no caminho e, para piorar, seu alvo está em movimento. Será que você acerta o cara no achismo? Se errar, pode acabar denunciando a sua própria posição, forçando a fuga ou enfrentar as forças inimigas agora alarmadas. Eis que você respira, arrisca, puxa o gatilho e sente a satisfação da kill cam acionada, confirmando seu sucesso. É uma sensação bem prazerosa.

Sniper Ghost Warrior Contracts não é, porém, livre de problemas: devido ao processamento massivo exigido para reproduzir todos os ambientes, bugs visuais comuns acabam minando um pouco da imersão. Em duas ou mais ocasiões, soldados inimigos não haviam sido renderizados devido a gargalos de processamento. Achei que estava seguro e sozinho em um cenário específico, mas um oponente apareceu, literalmente do nada, à minha frente — e ele tinha uma escopeta. Dois tiros desavisados e eu fui desta para a melhor.

Outro bug chato refere-se à detecção de impacto: meu personagem acabou caindo em um buraco, mas por causa do rifle que eu portava — consideravelmente grande —, eu acabei ficando “preso”, sem cair definitivamente, mas sem poder voltar da queda. Como resolvi? Equipei a pistola e, bom, à morte certa eu caí. Parece bobagem, afinal, foi só reiniciar do último ponto de checagem. Comigo, isso foi rápido, mas os pontos de checagem são meio aleatórios. Com você, pode muito bem significar uma refação de alguns trabalhos, como limpar a base ou recolher itens. Além do mais, isso quebra a imersão e irrita o jogador.

Ao todo, Sniper Ghost Warrior Contracts traz muitos elementos genéricos, mas isso é perdoável aqui, já que o jogo não ambiciona ser uma obra-prima. Mas os recursos de jogabilidade mais do que compensam seus problemas e a criatividade com a qual você é permitido atacar as missões e seus desafios variados adicionam um fator replay bastante interessante a um jogo relativamente curto: em cerca de 12 horas, se você pegar bem a técnica dos tiros de longo alcance, faz a campanha principal sem problemas, mas há uma série de desafios propostos que lhes conferem recompensas extras e um desafio a mais, tais como matar um oponente a mais de 300 metros de distância ou cumprir todos os objetivos matando apenas o alvo principal.

Por mais genérico que seja, Sniper Ghost Warrior Contracts tem tudo para ser o melhor jogo da franquia furtiva. Obviamente, não veremos um título do gênero competindo pelas premiações de “jogo do ano” nem nada similar, mas é o típico material que lhe traz a diversão necessária em um período em que você não tem nada melhor para fazer. É imerso e criativo o suficiente para mantê-lo ocupado, mas com um sorriso no rosto.

Sniper Ghost Warrior Contracts está disponível para PlayStation 4, PC e Xbox One. No Canaltech, o jogo foi testado no PS4 com cópia gentilmente cedida pela CI Games.

Fonte: ZDNet

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