Análise | A Way Out é uma experiência de autor com maestria

Josef Fares é um cineasta libanês e também o diretor de A Way Out, jogo de estreia do estúdio Hazelight e publicado pelo selo EA Originals que estimula o desenvolvimento de jogos independentes.

A Way Out conta a história de dois prisioneiros que criam laços dentro da penitenciária. Leo e Vincent foram parar atrás das grades por conta de um inimigo comum, o traficante a lá Poderoso Chefão, Harvey. O passado que os levou até ali é que os une para fugir da prisão.

Antes de falar de fato de A Way Out, é preciso dar um passo atrás, na infância de Fares.  É preciso entender como pensa e o que sente Fares para entender o que foi feito no título. A Way Out, assim como no cinema, é o que pode se chamar de obra de autor.

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O cineasta se mudou para a Suécia com 10 anos, fugido da guerra civil do país, na quinta tentativa. Em entrevistas passadas, Fares contou que esta experiência foi algo que lhe modificou a vida: “Eu passei por coisas que uma criança não deveria ter passado”.

Ao chegar na Suécia, ele começou a galgar os passos de sua carreira como cineasta até a estreia aos 15 anos. Aos 20, já era reconhecido como um dos novos talentos do país. Só em 2010, aos 32 anos, criou um hiato na produção cinematográfica para se virar aos games.

Game pode ser jogado online mesmo se apenas uma das pessoas tiver o jogo (Captura de tela: Wagner Alves)

Tal fuga, talvez, lhe tenha marcado com seus dois traços principais como diretor de jogos. O primeiro é a leveza com que trata narrativas tristes e conflitos internos inevitáveis do ser humano. O segundo é a necessidade de que o videogame seja uma experiência cooperativa, mesmo que se esteja jogando sozinho.

Em seu primeiro game, Brother: A Tale Of Two Sons, Fares propõe que o jogador controle ao mesmo tempo dois irmãos em uma saga para curar o pai. Personagens diferentes, com habilidades diferentes, controlados por um mesmo jogador. A ideia foi difícil de se vender e Fares pensou que nunca convenceria um estúdio a fazê-lo. Contudo, se manteve convicto. O game foi sucesso de crítica e vendas.

Em A Way Out, ele repete a ousadia ao propor um jogo exclusivamente multiplayer. Já com certa fama, ele poderia barganhar com a EA e, inclusive, convencê-la a garantir que duas pessoas podem jogar online com apenas uma cópia do título.

Quando se diz que o jogo é uma obra de autor é porque vários traços de Fares estão ali. A começar pela capacidade cinematográfica de A Way Out. O game cria sequências de cenas de ação poucas vezes vistas na décima arte. Uma, em específico, coloca os protagonistas em uma tomada de fuga do hospital, cuja câmera oscila entre os dois personagens em um plano sequência. Mesmo que alternando o gameplay, toda a fase no ritmo de continuidade cria uma ação de urgência muito conivente com o momento: afinal, estamos fugindo de um prédio cheio de policiais.

Ambos personagens se unem contra um inimigo comum, o mafioso Harvey (Captura de tela: Wagner Alves)

Outra característica de Fares presente aqui é que ele entende que A Way Out não é uma adaptação de roteiro de cinema para jogos. É totalmente evidente que o diretor não quer que o jogador seja um mero expectador, mas que suas decisões sejam importantes e impactantes para a trama. Em alguns momentos, ambos jogadores precisam escolher se querem resolver a situação ao modo de Leo (geralmente na base da porrada) ou de Vincent (na maioria das vezes, com diálogo). A forma como o enredo entrega as decisões na mão dos jogadores não só faz com que o título tenha mais de jogo e menos de cinema como também o detalhe que faz da história um pouco menos clichê do que já é.

A última característica do cineasta presente em A Way Out é a paixão como força motriz de trabalho. Em um estúdio pequeno como o Hazelight, uma equipe de no máximo 50 pessoas fez A Way Out em três anos. Embora seja vendido como um game independente, o título é muito ambicioso no que faz. É impressionante a quantidade de pequenas mecânicas criadas para um determinado cenário e que duram alguns poucos segundos de gameplay. Nas seis horas de jogo propostas, é possível jogar beisebol, basquete, se equilibrar em um minigame com a cadeira de rodas, tocar violão e piano, brincar em um arcade com um jogo inédito estilo Atari, participar de uma competição de acertar ferraduras em um prego, além das mecânicas da narrativa que envolvem quick time events, tiro em terceira pessoa, stealth e direção em modo cooperativo.

Toda esta abundância de ideias só foi possível por conta da capacidade criativa e de gambiarra do estúdio. Um exemplo é que o diretor usou o próprio irmão como ator para interpretar Leo. Ainda, Fares chegou a divulgar que parte das cenas mais perigosas, ele mesmo fez para a captação de movimento. “Se você acredita e é apaixonado por isso, então você está preparado para fazer qualquer coisa por isso”, disse. Bom, para quem fugiu da guerra quando criança, o que é vestir uma roupa verde e simular alguns perigos?

Entretanto, é quando o jogo voa alto demais que as asinhas se mostram frágeis. Se por um lado A Way Out faz muita coisa, poucas delas são realmente bem polidas. Dirigir, atirar, pular e até mesmo mandar bem nos minigames não é simples de executar porque os controles não são dos melhores. É uma jogabilidade, por vezes, truncada e que não responde bem aos comandos principalmente nas partes de stealth e tiro.

Por fim, o game não inova muito nesse sentido, retomando todos os modelos clássicos de jogos cooperativos: o pezinho para subir em um ponto alto; o ataque coordenado ao inimigo; a necessidade da dupla para se abrir uma porta e etc.

Contudo, em um mar de experiência multiplayers efêmeras, A Way Out surge como um bom jogo cooperativo local ao se apresentar em tela dividida mesmo no online. O título faz muito bem o que se propõe: uma trama a ser vivenciada por duas pessoas do começo ao fim, cujos laços, tanto dos personagens quanto dos jogadores, participam do enredo de forma magistral. Além disso, as seis horas de gameplay são suficientes para um game que é obrigatoriamente cooperativo. Para os mais fanáticos, ainda há um bom fator replay, já que, a cada escolha, a trama se bifurca.

Um dos minigames de A Way Out é um arcade (Captura de tela: Wagner Alves)

Como jogo independente, de um estúdio pequeno, publicado pela EA, compartilhado em modo online, A Way Out vai muito além das expectativas. Traz uma boa trama, um final surpreendente com uma jogabilidade que, apesar de alguns problemas, é honesta e funcional, além de vários minigames espalhados.

A Way Out foi desenvolvido pela Hazelight, publicado pela EA Originals e lançado em 23 de março para PlayStation 4, Xbox One e PC. No Canaltech, o jogo foi analisado em cópia digital cedida gentilmente pela Electronic Arts.

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