Assange: "Trump me ofereceu perdão se negasse invasão russa na eleição de 2016"

Por Rafael Arbulu | 20 de Fevereiro de 2020 às 12h36
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Julian Assange, o enigmático fundador e principal figura pública do WikiLeaks, pode estar detido na Inglaterra, mas mesmo assim consegue entrar nas manchetes internacionais: segundo relata o jornal The Guardian, o ex-jornalista e atual ciberativista disse, por meio de seus advogados, que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lhe ofereceu perdão presidencial se ele negasse que a Rússia tivesse qualquer relação com a invasão dos sistemas de e-mail do Partido Democrata durante a campanha presidencial de 2016.

Atualmente, Assange está preso no Reino Unido, com os EUA tentando assegurar uma extradição sob 18 acusações de crimes federais contra a nação americana, incluindo a publicação de documentos confidenciais e conspiração para cometer invasão de sistemas de computador: somadas, as penas de todas as acusações podem render a Assange até 175 anos de prisão. O ativista se defende dizendo que as ações contra ele têm motivação política, já que foi o WikiLeaks quem expôs os documentos relacionados as atividades ilegais do exército norte-americano durante a Guerra do Iraque.

O co-fundador do Wikileaks, ex-jornalista e ciberativista Julian Assange, atualmente preso na Inglaterra: equipe de defesa dele alega que Trump lhe ofereceu perdão presidencial caso negasse envolvimento russo nas eleições de 2016

Os advogados de Assange falaram ao Guardian que a tal proposta teria ocorrido em 2017, quando o então representante do governo estadunidense, Dana Rohrabacher, propôs que ele negasse o envolvimento russo na invasão ao Partido Democrata e para sair livre de qualquer pendência jurídica. Dada a forma como as coisas progrediram de lá até aqui, é seguro dizer que Assange não aceitou a ideia.

Para Donald Trump, isso significaria eliminar uma enorme dor de cabeça: investigações do FBI mostraram evidências de que o presidente dos EUA teria pedido, quando candidato pelo Partido Republicano, para que a Rússia invadisse os computadores do Partido Democrata em busca de informações confidenciais sobre a candidata opositora, Hillary Clinton. O problema com a proposta em si é que ela seria contrária até mesmo à posição oficial do governo dos EUA: cerca de 17 oficiais russos foram processados em decorrência das investigações.

O caso em si tem relação com o WikiLeaks: as investigações do FBI indicaram a ação majoritária de um hacker apelidado “Guccifer 2.0” e que ele teria oferecido ao site fundado por Assange a documentação roubada. Assange, porém, disputa essa noção, confirmando que o WikiLeaks buscou obter tais documentos, porém de forma independente, sem nenhuma relação com o hacker russo.

Dana Rohrabacher, ex-congressista norte-americano, seria o suposto vetor da proposta de perdão oferecida a Assange por Donald Trump, porém ele nega qualquer comunicação do tipo (Imagem: Reprodução/ABC News)

É importante ressaltar que o tal “perdão”, se real, poderia até piorar a imagem de Donald Trump: isso porque a prisão e as acusações impostas sobre Julian Assange não têm nenhuma relação com a invasão russa. O caso do ativista envolve a publicação de documentos militares confidenciais. Ademais, muito do trabalho do WikiLeaks nessa situação é similar aos processos investigativos de jornalistas ao redor do mundo — desta forma, Assange vem obtendo apoio de canais noticiosos, que chamam a sua prisão de um ataque à liberdade de imprensa.

Rohrabacher, hoje fora da representação do governo dos EUA, negou que qualquer proposta do tipo tenha sido feita: “Em nenhum momento eu falei com o presidente Trump sobre Julian Assange. Da mesma forma, eu não tive ordem alguma de Trump ou de qualquer um ligado a ele para me encontrar com Julian Assange. Eu estava seguindo a minha própria missão de encontrar fatos, custeada com meu próprio dinheiro, para levantar informações que julguei importantes para o nosso país”, escreveu em comunicado no seu site pessoal.

“E em nenhum momento eu ofereci a Julian Assange qualquer coisa vinda do presidente porque eu não havia conversado com o presidente sobre este caso. Entretanto, quando falei com Julian Assange, eu lhe disse que se ele pudesse me fornecer informações e evidências sobre quem de fato lhe deu os e-mails do Partido Democrata, eu então ligaria para o presidente Trump para que este o perdoasse. Em nenhuma ocasião eu propus um acordo em nome do presidente. Eu estava representando o presidente”, finalizou.

O presidente americano, Donald Trump, por meio da assessoria da Casa Branca, negou que qualquer proposta tenha sido feita, porém fontes da imprensa indicam que, embora a ideia tenha existido, ela nunca chegou ao presidente por medo de que ele fosse aceitá-la

Quanto à Casa Branca, a equipe de comunicação da presidência norte-americana emitiu um comunicado à CNN, evidentemente negando todas as informações: “O presidente mal conhece Dana Rohrabacher, exceto pelo fato de que ele é um ex-congressista. Eles nunca se falaram sobre este caso ou mesmo qualquer outro caso. É uma fabricação completa e uma mentira total. Isso é provavelmente mais um boato sem fim e uma mentira completa do Partido Democrata”. Uma “fonte familiarizada com o pensamento da Casa Branca”, porém, disse à CNN que a oferta feita por Rohrenbach nunca foi passada para Donald Trump justamente porque havia o receio de que o presidente fosse aceitá-la.

Quem sai ganhando com toda essa conversa? Julian Assange. A juíza distrital Vanessa Baraitser julgou que a suposta proposta poderá ser usada como argumento da defesa quando os processos de julgamento de extradição do ativista começarem, a partir da próxima semana. Entretanto, toda e qualquer evidência — contra e a favor — só será apresentada a partir de maio deste ano, com uma decisão final sendo tomada apenas no segundo semestre.

É... Assange, Trump, os EUA e a Inglaterra terão um 2020 bem cheio.

Fonte: The Guardian; CNN

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