Esta anã branca "vampira" tem a rotação mais rápida já descoberta

Por Daniele Cavalcante | 26 de Agosto de 2020 às 18h20
NASA/CXC/M. Weiss

Uma anã branca bastante peculiar foi descoberta por astrônomos. Além de ser a que gira mais rápido em torno de si mesma, a uma velocidade de duas voltas em seu próprio eixo por segundo, ela é uma "vampira" — ela se alimenta do material de uma estrela companheira que caminha para o fim do seu próprio ciclo estelar.

De acordo com um novo estudo, esse objeto se chama CTCV J2056-3014 (ou J2056) e está situado a cerca de 850 anos-luz de distância da Terra. Na verdade, trata-se de um evento que, até algum tempo atrás, costumava ser chamado de “nova”, mas hoje em dia os astrônomos preferem chamar de “estrela variável cataclísmica”.

As anãs brancas são núcleos remanescentes de estrelas semelhantes ao Sol, que já encerraram seus ciclos estelares de fusão nuclear — ou seja, já não podem mais fundir elementos em seus núcleos. Com isso, elas são comprimidas e se tornam do tamanho do planeta Terra, mas sem perder suas massas equivalentes à massa do Sol. Em outras palavras, são objetos extraordinariamente densos.

Assim elas vivem por trilhões de anos, sustentada não pela fusão nuclear normal dentro de estrelas vivas, mas por uma força quântica conhecida como pressão de degeneração. E nem sempre estão sozinhas. É que a maioria delas, quando ainda eram estrelas comuns, faziam parte de um sistema estelar binário, ou seja, tinham uma “irmã gêmea” ao seu lado.

Quando uma delas se transforma em anã branca, a outra pode acabar sendo “sugada” pelo “cadáver” da própria irmã. Com o tempo, essa companheira pode começar os estágios finais de sua própria vida ou se aproximar demais do cadáver da irmã, perto o suficiente para começar um processo destrutivo. Enquanto isso não acontece, o material da estrela viva acaba indo parar na superfície da anã branca, formando uma camada espessa de hidrogênio em torno de seu corpo de carbono-oxigênio.

Com tempo e material suficientes, pode ocorrer uma fusão nuclear cataclísmica criada pelas intensas pressões na atmosfera, resultando em um flash de energia liberado em uma explosão visível a anos-luz de distância. Este é o evento que os astrônomos hoje chamam de estrela variável cataclísmica.

Arte imagina uma anã branca "vampira" sugando o material de uma anã marrom próxima (Imagem: NASA/ L Hustak (STScI))

No caso da J2056, trata-se de uma estrela variável cataclísmica polar intermediária, para ser mais preciso, um título que se refere a algumas características dos campos magnéticos da anã branca. É que o campo magnético dela não é nem forte o suficiente para interromper completamente a formação de um disco de acreção em sua companheira, e também não é fraco o suficiente para manter esse disco, que poderia servir de alimento constante para a anã branca. Com um campo magnético mediano, não há um fluxo regular e suave de gás da companheira, fazendo com que a anã branca pisque e brilhe de forma irregular e imprevisível.

De acordo com os autores do estudo, essa anã branca só consegue acumular gás em uma quantidade mais ou menos equivalente à atmosfera da Terra a cada ano, o que não é lá muita coisa. Além disso, a J2056 não está emitindo muita radiação de raios-X, o que também é atípico nesse tipo de sistema. Para completar a coleção de estranhezas, a anã branca está girando muito rápido. Na verdade, é a anã branca mais rápida que já foi encontrada, com cerca de 29 segundos para completar uma volta. Isso acontece justamente porque seus magnéticos não são fortes o suficiente para diminuir a rotação por meio de interações eletromagnéticas com o disco de acreção que vem da sua companheira.

Há outras características que os astrônomos ainda não entenderam muito bem, como a falta de raios-X e a órbita rápida demais de sua estrela companheira — ela orbita a anã branca uma vez a cada 1,76 horas. Tudo isso pode fazer da J2056 uma classe totalmente nova de estrelas variáveis ​​cataclísmicas, ou talvez seja apenas uma “aberração”. A resposta para isso só virá quando, e se, encontrarmos outras semelhantes a ela.

O estudo, aceito para publicação no The Astrophysical Journal, foi realizado por uma equipe de pesquisadores brasileiros de diversas instituições, e um norte-americano, da NASA.

Fonte: Space.com

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