Astrônomos verão asteroide se transformando em cometa pela primeira vez

Por Daniele Cavalcante | 18 de Agosto de 2020 às 17h46

Em breve, os astrônomos terão a oportunidade de acompanhar o nascimento de um cometa - ou melhor, a transição de um asteroide em corpo cometário. É que uma rocha espacial chamada P/2019 LD2, pertencente a um grupo conhecido como centauros, está passando por uma transformação, e provavelmente se tornará um cometa.

No início de junho de 2019, o sistema de observação ATLAS detectou algo aparentava ser um asteroide de brilho fraco perto da órbita de Júpiter. Ele recebeu o nome de 2019 LD2, e tudo indicava que se tratava de um dos asteroides troianos (um grande grupo de rochas espaciais que compartilham a mesma órbita do planeta Júpiter em torno do Sol). Cerca de um ano depois, novos estudos mostraram que ele tinha bastante gelo abaixo da superfície e comportamento que o aproximava o da definição de cometa.

Já faz algum tempo que as definições que diferenciam cometas de asteroides ficaram um pouco nebulosas. Isso aconteceu mais precisamente quando foram descobertos os centauros, um grupo de rochas que fica no Sistema Solar, orbitando o Sol na região entre Júpiter e Neptuno. O primeiro centauro a descoberto foi o 2060 Quíron, descrito inicialmente como um asteroide, mas apresentou um coma cometário quando se aproximou ao máximo do Sol. A partir de então, passou a ser chamado oficialmente de 95P/Quíron e reconhecido como cometa. Só que bem maior que um cometa normal. Na verdade, os centauros são híbridos - daí o nome, inspirado na mitologia, que descreve criaturas meio-humanas e meio-cavalos.

Concepção artística do centauro Asbolo (Imagem: Reprodução/NASA)

Agora, os astrônomos perceberam a transformação de outra rocha, o que seria uma chance sem precedentes de observar a formação de um cometa em tempo real nas próximas décadas. “Temos a oportunidade de ver o nascimento de um cometa à medida que ele começa a se tornar ativo”, disse o cientista planetário Kat Volk, da Universidade do Arizona em Tucson.

Descoberto foi descoberto pelo telescópio ATLAS no Havaí em maio, o P/2019 LD2 tem uma órbita que sugere que se trata mesmo de um centauro. Ele acabou de chegar do Cinturão de Kuiper, uma região localizada após a órbita de Netuno. Os astrônomos suspeitam que essa classe de asteroides são um elo perdido entre os pequenos corpos gelados no Cinturão de Kuiper além de Netuno e os cometas que às vezes se aproximam da Terra.

De acordo com o estudo de Volk e seus colegas, o P/2019 LD2 levará 43 anos para se transformar em um cometa. Parece muito, mas, em termos cósmicos, é menos que um piscar de olhos. Para o cientista planetário Gal Sarid, do SETI Institute, a região de órbita dos centauros “é como uma incubadora de cometas”. O problema é que esses objetos são difíceis de se detectar, por isso o LD2 é tão empolgante.

A equipe de Volk simulou trajetórias possíveis para ver onde o objeto esteve e para onde está indo. A órbita da rocha provavelmente o levou para perto de Saturno por volta de 1850, e ele entrou em sua órbita atual atrás de Júpiter após um encontro próximo com o gigante gasoso em 2017. O objeto deixará sua órbita atual e se moverá em direção ao Sol em 2063, e é aí que as coisas ficam interessantes: o calor da estrela provavelmente sublimará os elementos voláteis do LD2, dando-lhe uma cauda cometária brilhante.

A órbita amarela é a de Plutão, que fica no Cinturão de Kuiper, região em formato de disco além da órbita de Netuno, onde há centenas de milhares de objetos congelados (Imagem: NASA)

Outro fator que anima os cientistas é que o LD2 estava o tempo todo lá nos confins do Sistema Solar, onde é bastante frio. Isso significa que provavelmente mantém seu material congelado relativamente puro por bilhões de anos, inalterado pelo calor do Sol. Quando ele estiver perto o bastante para que os cientistas possam estudar sua composição, eles poderão obter informações valiosas sobre os materiais que estavam presentes no Sistema Solar quando os primeiros planetas se formaram.

Apesar do entusiasmo, Henry Hsieh, astrônomo planetário do Instituto de Ciência Planetária, que não esteve envolvido no estudo, avisa que é preciso manter em mente que estudar apenas um objeto de transição não é suficiente para abrir ver o passado do Sistema Solar. “O que realmente precisamos fazer é estudar muitos deles”, disse. “Estude este primeiro, e então estude mais deles, e descubra se este objeto é um ponto fora da curva ou se faz parte de um cenário consistente”.

Sarid e seus colegas cogitam que o LD2 pode ser um bom alvo para uma nave espacial visitar. A NASA considerou o envio de espaçonaves para centauros, embora nenhuma missão tenha sido selecionada para desenvolvimento, por enquanto.

Fonte: ScienceNews

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