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Por que O Urso é tão boa e virou uma das séries mais queridas da década

Por  • Editado por Jones Oliveira | 

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Divulgação/FX
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Você já parou para pensar em como uma cozinha profissional lida com as demandas do dia a dia para manter as portas de um restaurante de pé? A série O Urso estreou em 2022 para mostrar que a vida de um chef pode ser extremamente caótica nos bastidores, e ainda aproveita a ambientação frenética para falar sobre família, ambição, pressão e a necessidade humana de pertencer a algo.

Vencedora de 21 prêmios do Emmy, a dramédia estrelada por Jeremy Allen White (O Mandaloriano e Grogu) se tornou um dos fenômenos mais elogiados e comentados dos últimos anos com a história de Carmy (White), um talentoso chef de cozinha que volta para Chicago após uma tragédia envolvendo o irmão mais velho para comandar a lanchonete da família.

Por trás da intrigante possibilidade de mergulhar no universo gastronômico de um restaurante, o sucesso de O Urso não veio à toa. Além de contar com a assinatura sensível do criador Christopher Storer, o programa foi conquistando o público por usar a cozinha como uma metáfora para tratar de saúde mental, traumas familiares e a relação que temos com o trabalho, temas que podem parecer batidos, mas que, na série, aumentam a complexidade da trama de um jeito emocionante.

Por que a cozinha de O Urso parece tão real

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Muito mais do que um fator narrativo, a cozinha de O Urso é praticamente um personagem dentro da série. Em meio aos pratos elaborados ou ao barulho da água fervendo, os personagens interagem com os elementos da cozinha como se ela fosse um organismo vivo, uma relação que se tornou um dos maiores diferenciais da produção.

Se você já assistiu a algum episódio de O Urso, com certeza deve ter se sentido angustiado ou ansioso durante os momentos tensos da equipe na hora de cozinhar os pratos para atender as demandas dos clientes. Gritaria, copo quebrando e pratos dando errado são apenas alguns fatores que levam os chefs ao limite, como se eles estivessem dentro de uma panela de pressão prestes a explodir.

É desconfortável e caótico, mas a maneira como O Urso explora esse universo chama a atenção pela dinâmica entre os personagens, que fazem o impossível para improvisar e se superar cada vez mais diante dos problemas que surgem no caminho.

Sem glamourizar o ambiente da cozinha profissional, a série também mostra a beleza por trás da união e como as vulnerabilidades humanas podem ser, na verdade, vantagens no meio de toda a cobrança e frustração.

Restaurante vivo

Como mencionado acima, o restaurante que serve como ambientação para o desenvolvimento da narrativa de O Urso é também um personagem dentro da série.

O protagonista Carmy, por exemplo, tem uma relação bastante obsessiva e conflituosa com o estabelecimento justamente por causa das memórias que ele guarda. As paredes e as mesas refletem heranças familiares complexas que afetam todas as decisões do chef, inclusive a maneira como ele cozinha.

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Outras figuras importantes da trama, como Sydney (Ayo Edebiri), uma jovem cozinheira que sonha em se tornar uma grande chef, e Richie (Ebon Moss-Bachrach), o melhor amigo do irmão de Carmy que sofre com o luto, também possuem relações emocionais com o restaurante, encontrando ali um espaço para esquecer os problemas da vida.

Dessa forma, o estabelecimento representa uma chance de recomeço para todos, surgindo como um lugar de ambição para que eles superem suas limitações e continuem evoluindo. Por outro lado, o restaurante também é uma prisão, pois eles repetem traumas geracionais e hábitos que iniciam conflitos dentro da cozinha, afetando o desempenho do negócio.

Ansiedade como tempero da série

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Um elemento notável para qualquer pessoa que assiste a um episódio de O Urso é que a ansiedade também é um organismo personificado na série.

Lidando com temáticas sensíveis, a dramédia consegue traduzir com maestria a ansiedade dos tempos modernos a partir de diálogos intensos, personagens que estão sempre no limite e a sensação de urgência que a cozinha de um restaurante profissional entrega.

Além disso, ver a equipe lidando com o acúmulo de tarefas e a impressão de que tudo pode desabar na cabeça deles a qualquer momento gera uma sensação de desconforto que virou marca registrada de O Urso. A série não mede esforços em mostrar o circo pegando fogo (às vezes, literalmente).

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É dessa forma que a produção consegue se conectar com o espectador que, mesmo trabalhando em outro cenário, por exemplo, se identifica com esse caos de insegurança, imprevistos e a dificuldade de desligar a mente dos deveres após o expediente. Carmy é um personagem difícil e complexo que representa muito bem os dramas de uma geração que confunde excelência com autodestruição.

Família, amizade e trauma: o coração de O Urso

Mais um elemento que explica o porquê O Urso virou uma das séries mais queridas da década é a maneira como a narrativa trabalha as relações entre os personagens.

Cada um com uma bagagem emocional gigantesca, as figuras que movimentam a trama do programa estão sempre em busca de reconstrução emocional, algo que sempre remete às experiências que compartilham uns com os outros.

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Além de contar com o apelo de uma família disfuncional, cujos traumas são explorados de diversas maneiras na trama, O Urso ressalta a importância da família escolhida, ou seja, aquelas pessoas que não tem o mesmo sangue que você, mas que ainda assim são extremamente importantes para a sua jornada na Terra.

No caso de Carmy, por exemplo, os traumas familiares pesam, mas ele sabe que pode contar com o apoio da família que criou no restaurante nos momentos difíceis (mesmo que ele não perceba isso na maioria das vezes).

A série ainda mostra que o afeto e o carinho que sentimos por alguém nem sempre se traduz em sensações boas, pois lidar com seres humanos também é lidar com sentimentos de culpa, cobrança e tentativas de cuidado que podem não ser compreendidas da melhor forma. É aqui que O Urso brilha, porque todo mundo já se sentiu assim pelo menos uma vez na vida.

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Carmy: muito mais que um gênio problemático

Já falamos bastante sobre Carmy por aqui, mas vale reforçar que o protagonista segue uma tradição moderna da TV, que aposta em personagens moralmente ambíguos para levar sensações contraditórias para o público.

À primeira vista, Carmy pode até parecer que vai se enquadrar no estereótipo do protagonista que é genial e, ao mesmo tempo, extremamente difícil de se lidar. Contudo, ao longo dos episódios, ele vai mostrando que é muito mais do que isso, pois suas ações e personalidade são um reflexo de todo o luto, a culpa e ambição que ele possui dentro de si.

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Carmy ainda se mostra como alguém cujo desgaste emocional o faz mergulhar de cabeça no trabalho, algo que afeta negativamente todas as relações que ele tenta construir e manter durante a vida. Tudo isso vai moldando um protagonista que foge da ideia do mocinho irretocável para se tornar mais humano e imperfeito, como qualquer outra pessoa.

Sydney e Richie: essenciais para dar força à série

Indo além da influência de Carmy na narrativa, O Urso também conquistou o coração do público por aprimorar o desenvolvimento de outros personagens, como Sydney e Richie.

Essenciais na jornada do protagonista, ambos são figuras centrais da construção da narrativa e do próprio restaurante, cada um servindo como uma força própria para transformar O Urso naquilo que a série é hoje.

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Sydney, por exemplo, vai crescendo gradativamente na narrativa, mostrando que seus sonhos e ambições são tão importantes para ela quanto são para Carmy. Ela é uma personagem altamente dedicada, cuja paixão pela gastronomia se reflete em seu desejo por um ambiente de trabalho mais saudável (o que ela definitivamente não encontra no restaurante de Carmy).

Richie, por sua vez, começa sua jornada na série como alguém emocionalmente afetado pelo luto. Tentando se provar o tempo todo, ele luta contra os seus próprios demônios, até que sai dessa posição de resistência para encontrar um propósito ao longo das temporadas, uma das transformações mais emocionantes da série.

O Urso redefiniu o drama adulto na TV

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Quando O Urso começou a ganhar mais atenção na indústria, muito se debateu a respeito do gênero da série, uma polêmica que repercutiu em várias temporadas de premiações da TV.

Enquanto uns batem o pé para afirmar que a série é um drama, outros concordam que é uma comédia, categoria atribuída ao programa no Emmy, por exemplo. Mas talvez seja justamente essa dificuldade para classificá-la que a torna tão interessante, com o contraste sendo parte do fascínio todo.

Outro ponto que merece destaque é que O Urso se encaixa bem nessa nova fase do drama adulto na TV, apostando em episódios relativamente curtos, ritmo intenso e toques de humor para tratar de dramas familiares bastante identificáveis por qualquer espectador.

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Por que O Urso virou uma série tão querida?

Agora que você já conheceu ou relembrou tudo aquilo que transformou O Urso em uma das séries mais amadas e elogiadas dos últimos anos, deve ter percebido que a junção entre intensidade e humanidade é o pilar que colocou o programa em um alto patamar na indústria televisiva.

A série pode ser barulhenta, desconfortável e angustiante, mas faz isso com propósito. Poucas histórias sabem como transmitir o caos mental dos personagens de maneira tão real quanto O Urso, e isso é, com certeza, uma das grandes qualidades do programa.

Além disso, a forma como a produção explora a beleza da colaboração e aprendizado entre seres humanos também é um dos maiores trunfos do enredo. Sem contar que os pratos feitos pelos chefs também são um show por si só.

Muito mais do que ser bem filmada ou muito premiada, O Urso marcou os últimos anos da televisão por transformar uma cozinha em um espelho de emoções humanas complexas, algo que também está presente na quinta e última temporada da série, já disponível no Disney+.

Caso você precise refrescar sua memória, veja o que lembrar antes da temporada final de O Urso.