Exclusivo: Dublagem de Daemons of the Shadow Realm revela bastidores do anime
Por Diego Corumba • Editado por Jones Oliveira |
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O anime Daemons of the Shadow Realm causou uma forte impressão logo em sua primeira temporada, com personagens marcantes e uma história com a assinatura de Hiromu Arakawa — a mesma pessoa que criou Fullmetal Alchemist.
Sua versão brasileira recebe dublagem oficial na Crunchyroll, com grandes nomes do mercado que representam os principais personagens da obra: os irmãos Yuru e Asa, assim como os Tsugai Direita e Esquerda — principais protetores do herói.
Em entrevista exclusiva para o Canaltech, os dubladores Pedro Crispim, Natália Alves, Filipe Albuquerque e Jennifer Gouveia contaram mais sobre o processo de dar vida à história que ganhou o coração de milhares de fãs.
Eles revelam como é o processo de emprestar sua voz aos personagens, da mesma forma que os desafios que a dublagem de Daemons of the Shadow Realm carrega. Confira abaixo:
A dualidade de Yuru e Asa
Na trama do anime, os irmãos gêmeos Yuru e Asa nasceram sob uma profecia sombria e crescem sem saber o que representam e aquilo que estão destinados a ser. No entanto, um incidente muda tudo e joga os dois em realidades opostas.
Os dois também podem controlar Tsugai, espíritos folclóricos e deuses que se manifestam entre a sociedade. Assim, ambos passam a descobrir o seu papel neste mundo e como avançar enquanto ameaças desejam ter o poder que eles têm dentro de si.
Um dos grandes destaques é que, mesmo com Yuru e Asa como protagonistas da obra, eles não são “heróis”. Suas ações carregam dualidades que os inserem entre a posição e uma certa vilania, o que é bem interessante de se observar.
Para Pedro Crispim, que interpreta o irmão, toda essa construção vem de sua origem e do sentimento que carrega no decorrer da história.
“O Yuru, no início, está bem perdido. No entanto, mesmo antes de descobrir os Tsugai, ele já demonstra ser um excelente guerreiro com o arco e flecha”, reforça o dublador.
Ainda que esteja no meio de vários dilemas, a voz do personagem destaca que toda a construção mostra outras facetas que são exploradas dentro de Daemons of the Shadow Realm.
“Ele é um cara muito ligado à família, embora desconfie da irmã, que aparece destruindo o seu vilarejo no começo. É muito bacana acompanhá-lo descobrindo esse mundo novo e perceber o quanto ele curte dar um rolê pelo Japão para ver os prédios e os carros. Esse envolvimento é excelente, e eu também fico bastante curioso para acompanhar a história”, diz Pedro.
Já Natália Alves, voz de Asa, ressalta o contraste entre os irmãos: enquanto Yuru tenta descobrir o que lhe foi tirado, a garota é decidida e carrega um forte senso de seu dever.
“Ela tem consciência do seu papel e do que deseja, que é proteger o irmão. Nos primeiros episódios, a impressão é de que ela é uma vilã durona. Depois, ela já se revela uma pessoa super carinhosa, que ama muito o Yuru. Asa sabe bem quem é, mas o espectador descobre essas nuances a cada capítulo. Para mim ocorre o mesmo: a cada episódio dublado, descubro um pouco mais sobre a personagem”, afirma a intérprete.
Pedro Crispim reforça que não é tão simples dublar uma obra em andamento, já que o material de referência ainda não foi concluído para dar uma boa base para sua atuação.
“O mangá está saindo junto com o anime, então gravamos as cenas sem muitos spoilers. Faço essas descobertas junto com o personagem. A princípio, ele tem se mostrado um rapaz muito pacato, que ainda está perdido e deseja descobrir a verdadeira história dos pais. Tem sido ótimo acompanhar isso”, conclui.
A dublagem dos guardiões
Enquanto a história dos irmãos progride, somos apresentados a Direita e Esquerda — dois Tsugai que viviam na vila na qual os gêmeos nasceram. Eles atuavam como guardiões, até serem designados a cuidar de Yuru em sua nova jornada.
Para a dubladora Jennifer Gouveia, que dá voz à Esquerda em Daemons of the Shadow Realm, eles são muito mais do que “espíritos que servem apenas para combate” na trama.
“Eles têm poderes, mas o objetivo principal é desenvolver o potencial e a tomada de decisão de Yuru, para que ele seja um mestre de fato dos Tsugai, além de oferecerem proteção”, afirma.
Ela também admira a postura dos Tsugai, que visam acompanhar o herói do anime sem interferir no seu processo de crescimento — o que inclui até deixá-lo lutar sozinho em alguns momentos.
“Para mim, eles são grandes mentores, altamente poderosos, mas que se controlam bastante. Frequentemente, a Esquerda modera o Direita visando ao desenvolvimento do Yuru. Acho fascinante esse papel deles como guardiões”, diz Jennifer.
Por outro lado, temos o Direita — que tem uma postura mais rústica e cheia de humor. O dublador Filipe Albuquerque destaca essas diferenças entre os dois Tsugai, que se torna um dos pontos altos que a obra tem a oferecer.
“Acho bacana o fato de eles assumirem uma postura de ‘tiozões’. São o tipo de pessoa que acaricia a cabeça e, logo em seguida, dá um cascudo. É interessante porque as personalidades são bem distintas, funcionando quase como irmãos onde um completa o outro. Quando leio o texto da Jennifer fazendo a Esquerda, já entendo instintivamente o que devo fazer nas falas do Direita. Isso cria uma familiaridade bacana, tanto para nós quanto para o espectador e fortalece esse laço”, comenta.
Na trama, os dois eram apenas estátuas que protegiam a vila na qual Yuru e Asa nasceram. Com uma tragédia, eles despertaram e concordaram em ajudar o irmão a fugir de lá com vida e acompanhá-lo em sua nova jornada.
O intérprete complementa que o jeito mais animalesco do seu personagem traz desafios únicos, já que ele é um verdadeiro combatente, mas possui uma personalidade distinta de como seus inimigos o enxergam.
“A minha maior dificuldade é manter o tom selvagem do Direita sem perder o seu lado carinhoso de tutor. Estamos descobrindo os rumos da história simultaneamente aos lançamentos do mangá. Tem sido uma verdadeira aventura em conjunto: eles seguem na jornada, e nós os acompanhamos”, reforça Filipe.
Daemons of the Shadow Realm borra heróis e vilões
Durante a conversa, eles explicam que interpretar todas essas nuances em Daemons of the Shadow Realm pode ser um grande desafio durante o processo de dublagem.
Filipe comentou que “como dubladores, estamos acostumados a assumir personalidades diferentes diariamente. Em um dia você interpreta um assassino; no outro, um advogado”, enquanto Natália completa com “ou os dois no mesmo dia”.
“Nosso maior desafio é justamente lidar com a imprevisibilidade. A Asa da Natália, por exemplo, surge quase como uma vilã e, em seguida, dá uma guinada de 180 graus”, argumenta o dublador do Direita.
“Foi uma experiência esquisita chegar ao estúdio mentalizando a gravação de uma antagonista e, de repente, perceber que a personagem havia mudado completamente. Fiquei muito confusa”, revelou Natália.
Filipe revela que seu ponto de vista foi completamente alterado durante o processo de dublar os personagens de Daemons of the Shadow Realm.
“É uma quebra de expectativa tanto para o público quanto para nós, que estamos gravando. Quando bati o olho no Direita, tive certeza de que ele era o vilão e que machucaria o garoto. Pouco depois, ele já demonstrava um afeto enorme. O maior charme desse anime é exatamente desconstruir essas expectativas o tempo todo”, pontua o dublador.
Já Jennifer Gouveia explica que é neste momento que a direção faz toda a diferença, com o apoio necessário para direcionar toda essa movimentação da história sem perder o fim que conecta os personagens.
“Sendo sincera, o que nos salva é o diretor, já que não recebemos informações antecipadas. O diretor assiste ao episódio completo antes de ir para o estúdio. Na mesma semana, ele nos passa o contexto, avisando sobre as reviravoltas, e tomamos aquele choque inicial antes de gravar. Durante as cenas, ele nos guia apontando eventos que só se justificarão no fim do episódio”, afirma a dubladora da Esquerda. “A direção de dublagem é essencial porque só temos acesso às nossas próprias falas. Consigo interagir mais com o Filipe e o Pedro, e menos com a Natália, mas compreendo o panorama geral graças ao diretor, que unifica tudo magistralmente”, conclui Jennifer.
Pressão e desafios da dublagem no Brasil
Vale lembrar que, por Daemons of the Shadow Realm ter a autoria de Hiromu Arakawa — que escreveu Fullmetal Alchemist, um dos animes mais aclamados de todos os tempos —, existe uma forte pressão dos fãs que esperam uma qualidade similar.
O dublador de Yuru, Pedro Crispim, revela que é notável o quanto as expectativas do público impacta o trabalho, mas que continuam a oferecer o seu melhor para garantir que a obra se destaque por conta própria.
“A responsabilidade é gigante devido ao sucesso estrondoso da criadora na obra anterior. A cobrança existe e recebo várias mensagens a respeito. No entanto, realizamos o trabalho com extremo carinho e cuidado sob a orientação da direção. Mantemos um grande respeito pelo público e fidelidade ao texto original, adicionando nossa essência brasileira sem cometer exageros na dublagem. A condução é zelosa e digna do respeito que a obra demanda. Sabemos da expectativa e nos esforçamos ao máximo para entregar o melhor resultado possível”, diz o intérprete.
Já Filipe garante que a receita para trazer um trabalho no nível que eles fazem em Daemons of the Shadow Realm é estarem imersos nas experiências. Eles não só respeitam a comunidade, como fazem parte dela.
“A parte mais legal é poder atuar como profissionais e fãs ao mesmo tempo. Temos anos de bagagem na área, mas também consumimos animes, cultura pop e leitura. Isso nos faz trabalhar com ainda mais dedicação, pois entendemos os anseios do público e aplicamos exatamente o que gostaríamos de assistir. Durante as gravações, trocamos ideias com o diretor para inserir o humor e as adaptações na medida certa, para respeitar as necessidades da obra sem forçar preferências pessoais”, aponta o dublador.
Além disso, Jennifer afirma que há toda uma preparação para que o material não chegue de forma errada aos fãs. Para ela, traduzir e interpretar as falas são apenas uma parte de todo o processo.
“É fundamental destacar a preocupação com a versão brasileira; a dublagem vai muito além de uma tradução automática. Temos o cuidado de equiparar nossa interpretação ao áudio original, já que o público tem fácil acesso ao idioma japonês, evitando grandes distorções do que já foi construído. Como trabalhamos em uma pós-tradução, buscamos mesclar os elementos da melhor forma para que o espectador assista e sinta que os personagens falam genuinamente em português”, reforça a dubladora.
Impactos de Daemons of the Shadow Realm
Para Pedro, Natália, Filipe e Jennifer, o projeto já impacta a forma como trabalham e enxergam o mercado. O anime da Crunchyroll já os direcionou para situações distintas das quais estão acostumados.
O dublador de Yuru, por exemplo, afirma que tem auxiliado a comunidade como pode, mas precisa ter cuidado para não trair as expectativas na forma como interage com todos.
“De todos os animes que já fiz, este é o que gerou a maior demanda de solicitações para entrevistas, vídeos e declarações logo em seu início. Nem sempre podemos atender a tudo, pois há questões contratuais de sigilo envolvendo a produção, não é má vontade nossa. Tenho notado uma expectativa extraordinária desde o começo, algo incomum para uma série com tão poucos episódios lançados”, argumenta Pedro Crispim.
Jennifer também ressalta que este não é o padrão, já que toda esta carga surge depois que as temporadas se completam e a obra faz um sucesso considerável. Porém, pelas expectativas, Daemons of the Shadow Realm se tornou um ponto fora da curva.
“O padrão é dublarmos a obra inteira antes do lançamento para, em seguida, lidar com a recepção do público e os convites para eventos. Desta vez, tudo aconteceu simultaneamente. Ainda estamos conhecendo as complexidades dos personagens e já lidamos com uma demanda enorme; por vezes, pedimos um pouco de calma ao público, pois seguimos em adaptação”, diz a dubladora da Direita.
Por outro lado, Natália reforça que a continuidade do mangá não os permite conhecer exatamente o que acontecerá, o que gera desafios durante todo o processo de dublagem.
A voz de Asa afirma que a animação segue como uma grande surpresa, tanto para quem assiste quanto para quem trabalha diretamente na produção brasileira.
“É um momento de descoberta mútua entre os dubladores, o diretor e o público, e as expectativas são gigantescas”, revela Natália Alves.
“Quando dublamos os mesmos personagens por anos, a familiaridade nos permite interpretar quase de olhos fechados. Já no caso do Direita, da Esquerda e dos demais, trata-se de páginas em branco que estamos preenchendo aos poucos”, conclui Filipe.
Desafios de dublar um anime hoje em dia
Entre os anos 1990 e 2000, muitos animes dublados tinham diferenças notáveis entre as versões em japonês e as brasileiras. Hoje em dia, o desafio é outro e se faz necessário lembrar que o processo de dar voz aos personagens mudou bastante.
De acordo com Jennifer, antigamente víamos procedimentos que não cabem mais nas obras atuais e que é preciso se adaptar para atender as necessidades dos fãs.
“No passado, os dubladores usufruíam de maior liberdade criativa para alterar traços dos personagens ou inserir piadas e regionalismos próprios. Um anime que eu amo, Yu Yu Hakusho, adotou um caminho que, atualmente, seria inviável, justamente porque o público tem contato direto com a obra original”, ressalta a dubladora. “O grande desafio hoje é encontrar o equilíbrio: ser fiel ao material base em termos de voz e entonação e, ao mesmo tempo, introduzir a brasilidade essencial para conectar-se ao espectador, mesmo que na adaptação sutil de uma palavra”, reforça Jennifer Gouveia.
Já Natália aponta que existe uma diferença gritante entre dublar obras ocidentais e animes: a expressividade dos personagens costuma oferecer um grande desafio para quem trabalha no meio:
“Considero a dublagem de animes uma das tarefas mais complexas da profissão, devido às expressões extremamente específicas do gênero. Se o personagem for inexpressivo na tela e mantivermos esse padrão na voz, ele perde a vida; se os gritos forem agudos demais, precisamos modular isso adequadamente. Achar o tom perfeito que garanta a naturalidade da cena é um grande desafio”, aponta a voz de Asa.
Pedro complementa o que Natália apontou, com um ponto de vista pessoal do que encarou durante a dublagem de Daemons of the Shadow Realm. Para ele, alguns trejeitos vistos nas animações podem trazer uma maior dificuldade para o seu trabalho.
“Acostumados com o inglês e o espanhol, sentimos o grau elevado de dificuldade do idioma japonês, além das constantes pausas labiais do original que nos deixam restritos na hora de preencher os diálogos. Isso exige uma atenção redobrada ao texto e à tela, confirmando que dublar animes é muito difícil”, revela o dublador de Yuru.
Filipe Albuquerque reforça o posicionamento dos demais, com um ponto de vista mais voltado para a forma como tudo deve entrar em sinergia no fim do dia.
“A cultura japonesa tende ao exagero nas expressões faciais; traduzir isso para a nossa realidade sem perder a naturalidade é um desafio surreal. Exige enorme sintonia com o diretor para encontrar o tom certo. Na gravação, apliquei uma gíria local, "criado a leite com pera", sabendo que traria o efeito cômico desejado sem comprometer a cena. Ademais, certos gritos agudíssimos do original não condizem com a nossa cultura, forçando-nos a adaptar tudo para o nosso contexto. A maior dificuldade é virar a chave mental e focar exclusivamente no português”, conclui.
Uma temporada de ouro
Com exibição aos sábados, Daemons of the Shadow Realm se encaminha para a sua temporada final. No entanto, os dubladores reforçam o quanto são gratos pelo carinho da comunidade e que sentem o mesmo pela sua base de fãs.
“Gostaria de pedir que assistam e continuem nos prestigiando. Tudo tem sido realizado com cuidado absoluto. Falo por todos ao dizer que nos divertimos muito e sempre debatemos sobre o anime quando nos encontramos. Acompanhem nosso trabalho, que está sendo feito de coração”, pede Pedro.
Enquanto isso, Filipe brinca com a voz do Direita e destaca o pedido: “Assistam a Demons of the Shadow Realm, senão o meu mestre ficará muito triste!”
No tom da brincadeira, Jennifer também agradece pelo afeto que os fãs trazem para todo o trabalho que eles realizam.
“Fica quieto, Direita! Muito obrigada pelo carinho de todos. Descobrimos a trama junto com vocês e estamos inteiramente entregues a essa jornada, torcendo para que venham muitas aventuras nessa descoberta conjunta e sem spoilers antecipados”, diz a voz da Esquerda.
Por fim, Natália afirma que todos eles estão 100% imersos na obra: “Prestigiem a versão dublada! O elenco, o diretor João e todos os envolvidos dedicam um enorme amor e carinho para entregar a melhor qualidade possível. Valorizem a nossa dedicação”.
Caso já esteja com todos os episódios de Daemons of the Shadow Realm vistos, confira também 10 animes da Crunchyroll que todo mundo deveria assistir.