Crítica | O Caminho de Volta é a atuação mais sincera da carreira de Ben Affleck

Por Laísa Trojaike | 08 de Maio de 2020 às 10h52
Warner Bros.

Filmes de esportes geralmente têm uma estrutura similar: um atleta ou um time, ruins ou desmotivados, encontram algo ou alguém que lhes dá força e, pouco a pouco, depois de muito esforço, conseguem o que parecia ser impossível e vencem. O que nos prende a esse tipo de roteiro previsível são os elementos variáveis, sobretudo atuação e direção, que são justamente o que fazem a diferença em O Caminho de Volta.

Embora o crescimento do time de basquete escolar tenha um espaço importante dentro trama, a depressão de Jack (Ben Affleck) toma a frente do filme e o drama se sobressai, tornando a trajetória do treinador o ponto central da narrativa. É, sim, um filme de esporte, mas o basquete é apenas um dos elementos da vida de Jack, que protagoniza ambas as sequências de abertura e de encerramento do filme.

Atenção! A partir daqui a crítica pode conter spoilers!

A vida e a arte

Raramente a vida de um profissional deveria ser levada em conta durante a análise, mas Ben Affleck é um ator que tem falado abertamente sobre seus problemas pessoais, que envolvem sua dificuldade em superar o alcoolismo. Esse fato da sua vida pessoal encontra, em O Caminho de Volta, um lugar seguro para explorar e, mais importante, ajudar pessoas através da arte. É curioso que Affleck, que tem uma carreira melhor como diretor e roteirista, encontra em um filme (aparentemente) menor a oportunidade de uma das melhores, se não a melhor, atuação da sua vida.

Imagem: Warner Bros.

A atuação de Ben Affleck é extremamente sincera desde o princípio: a depressão demonstrada por Jack tem muito mais a ver com isolamento social, endurecimento das emoções e sensação de que a vida não tem mais motivo para ser vivida, com a bebida servindo como uma forma de escapismo, um jeito fácil de lidar com a dor. O choro só aparece no último ato e representa o processo de cura do personagem, contrariando a ideia do senso comum de que uma pessoa depressiva chora o tempo todo ou de que é fácil de detectar a depressão, quando muitas vezes pode ocorrer justamente o contrário.

Estrategicamente, o roteiro nos apresenta um personagem alcoólatra, mas só conhecemos os motivos da sua depressão quando a história já está bastante avançada. Aqui, a estratégia provavelmente é de testar a empatia do espectador: ninguém vive uma vida como a de Jack porque quer, sempre há um motivo, mas o que fazemos para ajudar as pessoas que conhecemos e que estão assim? Vale lembrar, inclusive, que um dos meios que poderiam ter servido de suporte para Jack, a religião, é o que menos lhe dá apoio: o Padre Edward Devine (John Aylward) o dispensa pela política de tolerância zero a álcool, mas sequer tenta entender a situação.

O caminho de volta, enfim

Embora Jack claramente faça um trabalho excelente com o time de basquete, é a via inversa que se torna mais importante para a trama: como um trabalho de contato, em que Jack precisou ajudar outras pessoas (profissional e pessoalmente), ajudou o próprio Jack a iniciar seu caminho de volta. Ainda que o time de basquete e a amizade sutilmente desenvolvida com os atletas não tenha sido o suficiente para fazer com que ele largasse o álcool (até mesmo porque não é simples o abandono de um vício, sobretudo se ele estiver associado a uma doença como a depressão), foi a perda do trabalho de treinador que o fez compreender de uma vez por todas que ele precisava de ajuda para se recuperar.

Imagem: Warner Bros.

O Caminho de Volta parece correr com os fatos: não sabemos quanto tempo transcorre entre um jogo e outro, de modo que soa como se o time melhorasse quase que milagrosamente, o que prejudica o filme qualitativamente, sobretudo se ele fosse focado no esporte. Por outro lado, analisado pelo ponto de vista de uma pessoa com depressão, o que pode ser um erro de roteiro talvez agregue para a sensação de que, quando se tem uma vida como a de Jack, o tempo parece correr simplesmente porque nada mais tem valor.

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Todo o trabalho do diretor Gavin O'Connor ressalta o mundo interno de Jack e sua relação com a bebida, com destaque para a sequência da noite em que o personagem está decidindo sobre aceitar o cargo de treinador. A confusão mental é potencializada por um ritual que parece ser a única coisa certa na sua vida: tirar uma lata de cerveja da geladeira, colocar no congelador e beber a lata que estava gelando enquanto bebia a cerveja que passou pelo mesmo processo anteriormente. O ciclo de chafurdar nos próprios problemas, típico também da depressão.

Imagem: Warner Bros.

O trabalho como trainador e o apoio da família e dos amigos são essenciais e necessários para Jack, mas não suficientes, pois a ajuda profissional é indispensável, o que é mostrado de forma espetacular pelo filme, ainda que faça parecer que a ajuda da psicóloga tenha sido quase mágica, quando na realidade demanda muito mais tempo (mais um vez a narrativa parece correr com os fatos).

Ao invés de ser um filme de gênero sobre esporte, O Caminho de Volta é um paralelo entre a superação dos atletas e o processo de superação de Jack. Todos os conselhos técnicos de Jack para os atletas, sobre pressionar, não se deixar abalar, enfim, sobre lutar, mesmo que percam o jogo, tudo isso serve como metáfora para a sua própria luta pessoal. A revelação de que Jack sofria a morte de um filho, embora não seja um momento de ápice do filme, pode servir para desarmar aqueles que têm preconceitos com alcoólatras e depressivos.

O que geralmente seria o clímax de um filme de esporte, a vitória do time de basquete, coincide com a vitória pessoal de Jack em uma clínica de reabilitação, jogando basquete pela primeira vez depois de muitos anos, porém sozinho: o apoio é necessário, mas a luta é pessoal.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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