Crítica | Encontro Fatal é um filme para ser visto da cozinha

Por Sihan Felix | 21 de Julho de 2020 às 11h54
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É bem complicado quando um filme se apoia em clichês de gênero e utiliza justamente esse apoio para virar a mesa. Tentar desconstruir a estrutura sólida erguida por muitos filmes anteriores com a intenção de surpreender o espectador talvez possa ter somente dois tipos de resultados: ou a reimaginação é original a ponto de dar à luz algo com ar de novidade ou o resultado é tão enfadonho que não dá para entender muito bem como algo chega ao público apoiado em quase tudo que há de negativo nessa quebra de gênero. Encontro Fatal (disponível na Netflix) parece se apoiar na máxima tá no inferno abraça o capeta. Mas o satanás é o próprio diretor, Peter Sullivan, e o mármore ardente no qual ele nada feliz é o roteiro (dele mesmo e da estreante Rasheeda Garner).

Por essa perspectiva, Sullivan é alheio a qualquer construção coerente de tensão. Não existe uma forma lógica em sua escolha de planos que dê ao filme algum sentido estético. A intercalação desses planos – a decupagem –, inclusive, tem algo de dadaísta, como se cada movimento de câmera e cada posicionamento não fossem capazes de criar uma unidade pensada. A história visual, então, pode ser facilmente descartada, como se cada cena tivesse sido planejada por meio de um sorteio.

Cuidado! A partir daqui o texto pode conter spoilers.

Mistério tosco

Assim, um plano detalhe em algum objeto ou um close na protagonista nada acrescenta a essa condução das imagens, já que tudo é verbalizado. O texto da dupla vai sendo ilustrado da maneira mais passiva possível. Das cenas iniciais com diálogos expositivos que apresentam rapidamente a família de Ellie (Nia Long) à chegada de David (Omar Epps) tudo é plástico, artificial. Não existe, por exemplo, crédito para a própria protagonista, que reclama da falta de carinho de Marcus (Stephen Bishop) após 20 anos de casamento enquanto ele (Marcus) é mostrado exatamente de forma oposta: um sujeito bacana, que ainda se recupera de um acidente e só está, ao que parece, um tanto aéreo porque precisa tomar remédios.

Plano detalhe para ilustrar o que seria verbalizado. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)
Mais um plano detalhe que logo é exposto. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

A conveniência do texto em expor a advogada (Ellie) e, na sequência, transformar sua insatisfação em um pequeno lapso – em uma espécie de imprudência-por-estar-bêbada – pode não dar legitimidade aos sentimentos da personagem, algo que a câmera de Sullivan reforça arbitrariamente. Enquanto os closes na grande cicatriz de Marcus são das poucas intervenções da direção que tentam dizer algo para além do que os personagens falam, não existe uma contrapartida imagética para Ellie, que fica à mercê do acaso e, na traição (ou quase) que comete rapidamente – mesmo tendo família e vida perfeitas –, acaba podendo ser vista como uma vilã. É uma tentativa tão estúpida de dar complexidade à protagonista que o que se segue é um reforço da descrença em tudo aquilo que acontece e, infelizmente, uma aproximação, precisamente, à vilanização Ellie.

Ainda, é no mínimo estranho que, por mais esforço que o elenco faça, não exista química (algo que a música diegética – a que faz parte do universo do filme – tenta formar) e não haja uma motivação razoável para aquela mulher desabar questões íntimas para um galanteador. Sullivan consome as atuações com sua filmagem aleatória e, desse modo, faz com que David, praticamente um estranho com quem Ellie nem se importava (algo que seria revelado mais à frente) e que reaparece em sua vida depois de duas décadas, tenha sua absorção facilitada dentro da história. Tudo para dar validade a um clima de mistério tosco.

Falta química... (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

89 minutos de natação

Por outro lado, esse completo desprezo pela forma pode dar a Encontro Fatal a oportunidade de crescer quando apreciado enquanto se está fazendo qualquer outra atividade. De repente, é uma jogada inteligente em tempos de isolamento social e pode dar força a um gênero pouco comentado ou encabeçar um novo tipo de lista, o de filmes para serem vistos enquanto se lava a louça.

Então, é possível que, com desatenção, o trabalho de Sullivan realmente tenha validade e se transforme em algo menos tedioso. Ao mesmo tempo em que os acréscimos e as reviravoltas do roteiro são tão instigantes quanto comercial de margarina (incluindo a família à mesa), não dá para excluir o fato de que, entre uma louça e outra, algo surja na tela como um plot twist interessante.

Seria esse um momento interessante? (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Na sequência mais grosseira de Encontro Fatal, como, por exemplo, relevar o fato de uma recepcionista ceder a chave do apartamento de um morador (ou hóspede) sem que exista qualquer autorização deste? Mas, relevando, como é possível que um hacker tão gabaritado, por mais que aficionado por alguém, permita a descoberta da senha do seu notebook na segunda tentativa? Também relevando (caso tenha perdido essa parte enquanto ariava uma panela), como o homem retorna, passa pela recepção, não é avisado da visita e entra no próprio apartamento sem a chave? Mas, digamos que a chave cedida à Ellie tenha sido uma reserva (e que isso seja natural ou que caiu um talher molhado no chão), por que Sullivan expõe a cena de um modo que bastaria David olhar para baixo para descobrir a inesperada visita? Teria ele algum problema na visão periférica? Um torcicolo que o impede de baixar a cabeça?

Se David pelo menos pegasse o celular com a mão esquerda... (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

É tudo tão surreal a esse ponto que podem surgir pensamentos de alguma construção metafórica pensada pelo diretor, algo que indicasse a inabilidade da personagem de Epps em baixar a cabeça por ele ter o transtorno de personalidade narcisista. Sua autoconfiança seria tão forte que o impediria, fisicamente, de olhar para baixo – ou de ter uma visão periférica normal. Mas é um pensamento que logo é esvaziado por risadas nervosas, pela estética novelesca (sem a trama de uma boa novela) ou por uma ida à geladeira sem a necessidade de pausar.

No final das contas, assistir a Encontro Fatal pode, sim, ser visto como um programa interessante. Isso, claro, vai depender da quantidade de atenção depositada e, depois de iniciar, da necessidade de assistir ao filme, da força de vontade para ir até o fim ou de quanta louça exista na pia – o que pode ser uma metáfora para só querer algo irrelevante mesmo ou para 89 minutos de natação no mármore do inferno.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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