Anúncios e taxa extra por 4K: como os streamings viraram a nova TV a cabo
Por Jaqueline Sousa • Editado por Jones Oliveira |

Não é de hoje que assistir a um filme ou uma série no streaming sem anúncio virou um tipo de luxo dos dias atuais. Com serviços populares cobrando preços salgados por recursos extras e planos sem propagandas, há uma tendência preocupante na indústria de conteúdos on demand que está transformando o streaming na nova TV por assinatura.
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A Amazon, por exemplo, anunciou recentemente que vai lançar o plano Prime Video Ultra, uma assinatura “premium” que vai substituir o atual plano sem anúncios da plataforma por um acréscimo de US$ 4,99 para aqueles que não quiserem ser atrapalhados por publicidade durante a maratona da série do momento. Por enquanto, a medida está concentrada no mercado estadunidense, mas o cenário não está distante do que vemos no Brasil.
Enquanto a mesma Amazon migrou todos os assinantes do Prime Video para uma assinatura padrão com anúncios, cobrando um valor adicional para retirá-los, os principais serviços de streaming disponíveis no país seguem propostas semelhantes, como a Netflix, HBO Max e Disney+. Todas possuem planos com ou sem anúncios, este último sempre apresentando um valor mais alto para que o assinante obtenha o “benefício” de assistir a um filme sem ver propagandas pipocando na tela.
Essa nova era do streaming bate de frente com a promessa original desses serviços, que dominaram o mercado do entretenimento garantindo que os usuários teriam mais simplicidade e conforto com um mundo de opções na palma da mão. Porém, o que vemos hoje em dia são custos adicionais por recursos extras, cobranças para compartilhamento de senhas e valores altos para assistir produções sem comerciais no meio.
Mas como foi que chegamos até a esse novo “normal” das plataformas de streaming e por que os serviços parecem dificultar a experiência do usuário? O Canaltech investigou os possíveis motivos por trás desse modelo que pesa cada vez mais no bolso do consumidor.
Não é um caso isolado
Como dito anteriormente, o Prime Video não é o único streaming que adotou a estratégia do plano com anúncios e taxas extras para obtenção de recursos exclusivos, como conteúdos disponíveis em 4K/UHD e áudio em Dolby Atmos.
A Netflix, por exemplo, foi a principal influência para a consolidação dessa tendência. Maior plataforma de streaming no mundo, a empresa vermelha lançou o plano básico com anúncios em 2022 como forma de oferecer assinaturas “mais baratas”, impulsionando o modelo no mercado.
Além disso, tanto o Disney+ quanto a HBO Max também oferecem planos premium para quem não quiser pagar para assistir conteúdos com propagandas, mostrando como o reajuste do Prime Video não é algo pontual e, sim, uma consequência direta de uma predisposição estrutural que cobra cada vez mais para remover publicidades e oferecer o básico.
Por que as plataformas estão insistindo nisso?
Com mudanças relacionadas ao modo como as pessoas consomem conteúdos hoje em dia, além de transformações econômicas no contexto mais amplo, as empresas por trás de plataformas de streaming populares precisam se virar nos 30 para fazer o negócio valer a pena hoje em dia.
Isso porque a realidade não está nada favorável para essas companhias: altos custos de produção, margens mais apertadas e uma disputa por atenção do público e receita publicitária são alguns dos elementos que ajudaram a aumentar os valores das assinaturas nos streamings.
Com a fragmentação das plataformas no mercado, os estúdios se viram diante de um aumento de custos para produzir conteúdos, enquanto companhias tentam equilibrar assinatura, anúncios e ofertas de pacotes complementares e exclusivos para sustentar o negócio diante de taxas de cancelamento.
Ver sem interrupção, o novo “luxo”
Enquanto a TV por assinatura parecia ter ficado para trás, o streaming mudou de estratégia para oferecer quase o mesmo serviço que tentou combater no passado. Isso porque atualmente o novo luxo é assistir a um filme ou a uma série sem interrupção, ou seja, sem um anúncio aparecer bem no momento em que um segredo bombástico está prestes a ser revelado na trama.
O que antes parecia ser o básico, agora é um diferencial vendido pelas plataformas de streaming como algo “premium” e exclusivo para aqueles que estão dispostos a pagar valores mais altos para obter acesso a mais downloads, mais transmissões simultâneas e qualidade de vídeo e som.
Esses recursos, que promovem uma experiência mais confortável e de qualidade para os assinantes, passaram a ser gatilhos de monetização, com os serviços oferecendo assinaturas mais caras que transmitem a sensação de que o usuário está pagando em dobro pela mesma promessa do começo.
Pagar mais e receber menos
Para além da insatisfação com o aumento dos preços, também há um descontentamento generalizado em relação à qualidade dos serviços. Isso porque, para muita gente, o aumento nos preços não está correspondendo ao que os serviços estão oferecendo em troca.
De acordo com uma pesquisa da Deloitte realizada em 2025, 41% dos consumidores de streaming nos EUA acreditam que o conteúdo disponível nas plataformas não vale o preço cobrado pelas empresas. Outro sinal de alerta é que quase metade (47%) dos usuários acredita estar pagando muito caro por serviços de streaming que não correspondem ao valor percebido.
Olhando para os números, o aumento foi bastante significativo para o bolso dos consumidores ao longo de um ano: houve um crescimento notável de 13% no custo total das assinaturas, com uma média de US$ 69 por quatro serviços usados. Para quem tem assinatura de cinco streamings, o aumento é de 20%.
Consequência invisível
Por mais que possa parecer que o problema está apenas nas assinaturas mais caras, essa tendência do mercado é um efeito acumulado de uma indústria que enfrenta momentos delicados há alguns anos.
Com o aumento da popularidade dessas plataformas e a possibilidade de assistir produções sem sair de casa, os consumidores se viram em um cenário complicado que os incentiva a assinar diversas plataformas para acompanhar títulos dispersos que nem sempre permanecem disponíveis no serviço, sendo removidos de maneira silenciosa.
Além disso, as diferentes opções de planos em cada streaming, as restrições regionais e o bombardeio de anúncios dentro de um serviço que já é pago transformaram a experiência em algo trabalhoso e frustrante para muitas pessoas. A pesquisa da Deloitte, por exemplo, mostra que cerca de 39% dos usuários cancelaram pelo menos uma assinatura paga nos últimos seis meses analisados pelos especialistas, com os números aumentando para 50% entre clientes que integram as gerações Z e Millennial.
Um reflexo direto disso é justamente a criação de assinaturas mais atrativas por um preço elevado como forma de tentar reter aqueles consumidores que estão dispostos a pagar esses valores para não ver anúncios. Por outro lado, também há aqueles consumidores que preferem pagar assinaturas mais baratas com anúncios para assistir a filmes e séries pontuais, sem oferecer um compromisso a longo prazo.
O retorno da pirataria
Mais uma consequência direta do aumento dos preços dos streamings, a pirataria voltou a ganhar força nos últimos anos com sites que disponibilizam produções antigas e atuais sem que o usuário precise pagar por isso.
Embora a comercialização ou reprodução ilegal de produtos viole direitos autorais e a propriedade intelectual, um ato considerado crime no Brasil, muitas pessoas voltaram a olhar para a pirataria como uma saída para cobranças elevadas no streaming, demonstrando frustação pelos serviços oferecidos.
Mesmo que o mercado de streaming tenha reduzido inicialmente casos de pirataria por oferecer de maneira segura e legal produções diversas, a fragmentação dos catálogos, a falta de variedade e a remoção de conteúdos da noite para o dia começaram a degradar os consumidores, que nem ao menos podem compartilhar a senha do serviço com pessoas próximas sem que a plataforma exija uma nova cobrança.
Para ter uma noção da dimensão desse cenário de ilegalidade, uma pesquisa da MUSO datada de 2024 identificou 216,3 bilhões de visitas a sites de pirataria, sendo que 96,8 bilhões foram somente de piratarias voltadas para a TV. Os conteúdos mais buscados são filmes e séries, que juntas somaram 60,25%.
Esse número não vem do acaso, mas é resultado de uma série de fatores preocupantes relacionados ao aumento de preços no streaming e a experiência negativa que muitas pessoas possuem nessas plataformas. Cortes de gastos dentro de casa também influenciam essa movimentação em meio a tantas opções de serviços disponíveis.
O que o streaming ganha e perde com isso?
Se tanta gente parece insatisfeita com os rumos que a indústria de streaming está tomando, o que esses serviços ganham adotando modelos premium que exigem um alto custo? Uma justificativa é o aumento da receita por cada usuário ativo, que topa pagar pelo valor ajustado para continuar acessando o catálogo do streaming em questão.
Outro ponto é que a medida amplia o negócio de anúncios, que são exibidos para aqueles que optam por planos básicos e mais baratos. O problema aqui está no 8 ou 80 devido à insistência das propagandas que interrompem a reprodução: ou a pessoa cancela a assinatura depois de um tempo por não aguentar mais ver anúncios, ou ela decide pagar o plano mais caro para ter uma experiência melhor, mas que não necessariamente se justifica pelo valor cobrado.
Em contrapartida, as empresas de streaming correm alguns riscos com a aplicação dessa estratégia, como o aumento do churn, que é a taxa de cancelamento e rotatividade de clientes em um determinado período.
Além disso, os serviços podem enfraquecer a percepção de valor do streaming como uma “alternativa mais simples” ao modelo de TV por assinatura, já que as plataformas on demand estão se tornando cada vez mais caras e trabalhosas para o consumidor.
Por tentar vender como premium aquilo que costumava oferecer como recurso básico, as plataformas de streaming vão cansando os clientes, que se tornam mais frustrados por estarem pagando caro por serviços que não correspondem ao preço alto exigido.
Dessa forma, quando o usuário sente que está pagando mais sem receber o mínimo em troca, vê anúncios o tempo todo e ainda precisa fazer várias assinaturas para acompanhar as séries favoritas, o mercado acaba abrindo portas para a pirataria e a rejeição ao modelo atual, criando um dilema que mais prejudica a indústria do que contribui para uma evolução saudável.