Aparelhos "inverter" gastam menos luz? Entenda a ciência por trás da tecnologia
Por Nathan Vieira • Editado por Léo Müller |
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A promessa de economizar energia é um dos principais motivos que levam consumidores a procurar aparelhos Inverter. Presente principalmente em ar-condicionado e geladeira, o sistema muda a maneira como o compressor funciona para adaptar sua capacidade à necessidade do ambiente.
Nos modelos convencionais, o compressor liga quando é necessário refrigerar e desliga quando a temperatura desejada é atingida. No Inverter, um circuito eletrônico permite controlar a velocidade do motor, fazendo com que o compressor trabalhe em diferentes níveis de potência.
Mas será que aparelho Inverter reduz a conta de luz? E em quanto tempo a economia pode compensar o preço mais alto de um aparelho Inverter?
Segundo Cinthia Coelho, engenheira eletricista, mestre em Engenharia Elétrica e professora do curso de Engenharia Elétrica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a principal vantagem está na capacidade de ajustar o funcionamento do compressor à demanda.
O que é a tecnologia Inverter?
O nome Inverter vem do inversor de frequência, um circuito eletrônico que fica entre a rede elétrica e o motor do aparelho. Sua função é controlar a frequência da energia fornecida ao motor.
Essa frequência influencia diretamente a rotação. Ao variar a frequência aplicada, o sistema consegue aumentar ou diminuir a velocidade do motor e, consequentemente, a capacidade do compressor. Conforme explica a especialista:
“Ao variar a frequência aplicada ao motor, é possível variar sua rotação e, consequentemente, a capacidade do compressor. Assim ele passa a ter faixa de velocidades, permitindo regular a capacidade de refrigeração do equipamento”.
O aparelho convencional funciona mais próximo de um sistema de tudo ou nada, enquanto o Inverter é como um carro cujo acelerador pode ser ajustado continuamente.
Quando há muita necessidade de refrigeração, o compressor aumenta a rotação. Quando a temperatura já está próxima do nível desejado, reduz a velocidade em vez de simplesmente desligar.
Como funciona um aparelho convencional?
Em um sistema convencional, o compressor possui basicamente dois estados: ligado ou desligado.
Quando um ar-condicionado detecta que a temperatura do ambiente está acima do valor selecionado, o termostato aciona o compressor. Ele passa a trabalhar em sua capacidade de operação até que a temperatura desejada seja alcançada.
Nesse momento, o compressor é desligado. Quando o ambiente volta a aquecer, o ciclo começa novamente.
Durante algumas horas de funcionamento, o compressor pode repetir diversas vezes o processo de partida e desligamento. É nesse comportamento que aparece uma das diferenças importantes em relação ao Inverter.
Por que o Inverter pode gastar menos energia?
Todo motor elétrico precisa de uma corrente maior para começar a funcionar. No momento da partida, o motor precisa vencer a inércia inicial e colocar suas partes móveis em movimento.
Segundo Cinthia, a corrente de partida pode ser várias vezes superior à corrente necessária durante a operação normal, embora isso aconteça por um período curto:
“O motor pode demandar uma corrente de partida várias vezes superior à corrente de operação, durante um intervalo curto, enquanto vence a inércia inicial."
No aparelho convencional, esse processo se repete toda vez que o termostato manda o compressor ligar novamente.
No Inverter, o compressor praticamente não precisa passar por esses ciclos sucessivos. Depois da partida, o sistema consegue alterar sua velocidade conforme a necessidade.
Mas é importante fazer uma distinção: a economia não acontece apenas porque o Inverter evita picos de corrente. O principal ganho está na capacidade de modular a potência e trabalhar de maneira eficiente quando a demanda é menor.
“O ganho energético principal vem da modulação da capacidade e da operação eficiente em carga parcial, além da redução de perdas associadas aos ciclos liga/desliga”, explica Cinthia.
O que significa trabalhar em carga parcial?
A chamada carga parcial acontece quando o aparelho não precisa trabalhar em sua capacidade máxima para manter o ambiente na condição desejada.
Imagine um quarto que está quente no momento em que o ar-condicionado é ligado. Inicialmente, o equipamento precisa retirar uma quantidade maior de calor para chegar à temperatura escolhida.
Depois de algum tempo, porém, o quarto já está refrigerado. A partir daí, a quantidade de calor que entra no ambiente é menor e o aparelho precisa apenas compensar essa entrada para manter a temperatura.
É nesse momento que o Inverter leva vantagem.
Em vez de desligar o compressor e esperar o ambiente esquentar novamente, ele pode reduzir a rotação e continuar trabalhando em uma condição mais próxima da necessidade real.
Quando o Inverter economiza mais energia?
A vantagem tende a ser mais perceptível em usos longos e contínuos, especialmente quando a carga térmica varia ao longo do período.
Um ar-condicionado utilizado durante várias horas, por exemplo, passa boa parte desse tempo apenas mantendo a temperatura. Nesse cenário, a capacidade de reduzir a velocidade do compressor pode ser aproveitada por mais tempo.
A diferença também aparece quando existem mudanças na quantidade de calor presente no ambiente. Incidência de sol, abertura de portas e janelas, número de pessoas e funcionamento de outros aparelhos podem alterar a demanda de refrigeração. Segundo a engenheira:
“Nessas condições, o convencional fica ligando e desligando sem parar, enquanto o Inverter pode reduzir a rotação do compressor e se manter em uma condição de operação mais próxima da demanda do ambiente."
Por outro lado, o Inverter não terá a mesma vantagem em todas as situações.
Em um dia muito quente, por exemplo, o ambiente pode exigir tanta refrigeração que o compressor precise trabalhar próximo da capacidade máxima durante bastante tempo.
“Em condições de carga muito elevada, quando o compressor precisa operar próximo da capacidade máxima por longos períodos, há menos oportunidade para o Inverter explorar a vantagem da modulação em carga parcial”, complementa Cinthia.
Inverter sempre gasta menos luz?
Isso quer dizer que o inverter sempre gasta menos luz? Não necessariamente. A tecnologia oferece uma vantagem de eficiência, mas isso não significa que qualquer aparelho Inverter será automaticamente mais econômico que qualquer modelo convencional.
Dois aparelhos com tecnologia Inverter podem apresentar consumos diferentes, dependendo do projeto, da capacidade e da eficiência de cada equipamento. Por isso, a palavra “Inverter” não deve ser o único critério de compra.
O ideal é comparar aparelhos de mesma capacidade, observando o consumo energético informado na etiqueta do Inmetro. Um modelo Inverter mais eficiente pode apresentar uma diferença significativa em relação a outro equipamento com a mesma tecnologia.
O tamanho do aparelho influencia o consumo?
O tamanho do aparelho influencia o consumo. No caso dos aparelhos de ar-condicionado, o dimensionamento correto é fundamental.
A capacidade, normalmente indicada em BTUs, precisa ser compatível com o tamanho e as características do ambiente. Um equipamento subdimensionado pode precisar trabalhar por muito tempo próximo de sua capacidade máxima.
Mas simplesmente escolher o aparelho mais potente também não garante economia. O cálculo deve considerar fatores como tamanho do cômodo, incidência de sol, quantidade de pessoas, isolamento e presença de equipamentos que produzem calor.
Ou seja, a tecnologia Inverter não compensa um aparelho escolhido de maneira inadequada.
Isolamento, temperatura e manutenção também pesam
A eficiência do equipamento depende ainda das condições de uso. Um ambiente com janelas mal vedadas, portas abertas ou incidência direta de sol recebe mais calor e exige mais trabalho do sistema de refrigeração.
A temperatura escolhida no controle também interfere. Quanto maior for a diferença entre a temperatura externa e aquela que o aparelho precisa manter, maior tende a ser a demanda de refrigeração.
Filtros e serpentinas sujos também podem prejudicar a troca de calor e fazer o equipamento trabalhar mais para alcançar o mesmo resultado. Esses fatores afetam tanto aparelhos convencionais quanto Inverter.
Como saber se o Inverter vale a pena?
Para saber se o inventer vale a pena, o preço de compra precisa entrar na conta. Como os modelos Inverter podem custar mais, é necessário calcular se a economia de energia compensará a diferença ao longo do tempo.
Segundo Cinthia, a conta pode ser feita de maneira simples: basta dividir a diferença de preço entre os dois aparelhos pela economia mensal estimada na conta de luz para descobrir em quanto tempo o investimento adicional no modelo Inverter pode ser recuperado.
A economia mensal pode ser estimada usando o consumo informado na etiqueta do Inmetro e o custo efetivo da energia elétrica.
Mas existe uma ressalva: os números da etiqueta são obtidos em condições padronizadas de teste. O consumo real depende de quantas horas o aparelho funciona, da temperatura escolhida, das condições climáticas e das características do ambiente.
“Pode valer, mas é uma conta simples de fazer, não feeling. Pega a diferença de preço entre os dois modelos e divide pela economia mensal esperada na conta de luz."
Quanto tempo leva para o aparelho Inverter se pagar?
Não existe um prazo único para o aparelho se pagar. Quem usa um ar-condicionado diariamente durante muitas horas tende a aproveitar mais rapidamente a vantagem de eficiência de um Inverter. Já quem liga o equipamento apenas ocasionalmente pode levar muito mais tempo para recuperar o investimento adicional.
“Em uso intenso, o retorno tende a ser mais rápido. Em uso eventual, pode levar muitos anos ou sequer compensar durante a vida útil do equipamento”, afirma Cinthia. Por isso, a melhor comparação é entre preço, consumo e perfil de utilização.
Afinal, aparelhos Inverter gastam menos?
A tecnologia Inverter pode reduzir o consumo de energia, principalmente por permitir que o compressor adapte continuamente sua capacidade à demanda e trabalhe de forma mais eficiente em carga parcial.
A redução dos ciclos de liga e desliga também contribui para o resultado, especialmente em equipamentos utilizados por longos períodos.
Isso não transforma todo aparelho Inverter em uma opção automaticamente econômica. Dimensionamento, isolamento do ambiente, temperatura escolhida, manutenção e eficiência do próprio modelo continuam sendo fatores decisivos.
No fim, a tecnologia funciona por uma razão simples: em vez de obrigar o compressor a operar apenas no liga ou desliga, ela permite ajustar sua velocidade conforme a necessidade.
É como trocar um interruptor por um acelerador. Quando é preciso mais refrigeração, o sistema aumenta a rotação. Quando a demanda cai, reduz o ritmo.
É justamente essa capacidade de entregar apenas a capacidade necessária que pode transformar o Inverter em uma alternativa mais eficiente, e dependendo do perfil de uso, capaz de compensar o investimento maior na conta de luz. Quer ver na prática? Veja o nosso comparativo de consumo de energia entre ar-condicionado Inverter vs. comum.