10 anos sem Brasnet: se você usou o mIRC, você está ficando velho

Por Patrícia Gnipper | 14.07.2017 às 19:03

Lá no finalzinho dos anos 1990, e no início dos 2000, o mIRC viveu sua época de ouro. O programa foi o precursor dos mensageiros que conhecemos atualmente, sendo popular antes mesmo do ICQ. Além disso, o serviço também era usado como uma espécie de rede social rudimentar, muito antes de se imaginar sites como Orkut, Facebook e Twitter.

O programa tinha três frentes: servia como uma comunidade com canais — precedidos por uma hashtag (#) para determinar filtros como cidade, escola ou fãs de alguma coisa; sala de bate-papo, com conversas em grupo; e rede social, uma vez que conectava seus amigos em um só local na internet.

E uma das redes de servidores de mIRC mais populares do Brasil foi a Brasnet, que chegou a contabilizar quase 60 mil usuários simultâneos em 2003. À medida em que serviços como ICQ e MSN Messenger (que, depois, virou Windows Live Messenger) ganham cada vez mais popularidade, a rede foi perdendo sua relevância, começando a morrer, de vez, quando o Orkut chegou revolucionando a internet, em 2004.

Em maio de 2007 a Brasnet chegou ao fim, mas isso não representou o fim do IRC (protocolo para conversas em grupos que usa canais para tal), que foi criado na década de 1980 e continua “vivinho da silva” em outras redes, especialmente usadas por desenvolvedores. Mas a Brasnet, mesmo, ficou no passado e no coração de uma imensidão de pessoas. Hoje, é possível utilizar novos servidores para resgatar a nostalgia do IRC, mas nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, como diria o poeta.

Tiramos as teias de aranha de nossas memórias e listamos 15 situações cotidianas vividas por todo mundo que tinha a Brasnet no coração naquela época.

1. Contar os segundos até a meia-noite para conectar

Na era da conexão discada, não era assim tão fácil bater um papo com os amigos pela internet. Apesar de ser tecnologicamente possível, as linhas telefônicas funcionavam por uma contagem de pulsos, e, ao conectar e ocupar a linha como se estivesse em uma ligação, a fatura que chegaria no mês seguinte seria altíssima.

Por isso, a solução era esperar o relógio virar para a meia-noite, pois, durante toda a madrugada, as operadoras de telefonia liberavam o pulso único, cobrando apenas por 1 deles independentemente do tempo que durasse sua conexão. Quem nunca chegou com aquelas olheiras imensas na escola porque passou a madrugada papeando, não é mesmo?

2. Celebrar ouvindo o barulhinho de conexão realizada

E nem sempre que a gente tentava se conectar, a gente conseguia. As falhas eram frequentes, mas a alegria era gigantesca sempre que ouvíamos aquele barulhinho que significava que a conexão foi completada.

3. Scripts para detonar

Com o mIRC, os usuários podiam usar scripts com comandos para os mais diversos fins. Quem criava esses scripts eram programadores e usuários mais experientes, permitindo que os demais conseguissem trocar as cores do chat, escrever com letras coloridas ou em negrito, adicionar efeitos (precários, mas divertidos), implementar plug-ins para mostrar que música estava ouvindo no momento, criar atalhos para frases (ou seja, digitar uma palavrinha para que uma frase pronta fosse enviada), fazer um flood de mensagens, entre inúmeras outras possibilidades.

4. Formar uma gangue virtual

No mIRC, podia-se criar clãs, e era preciso registrar seus nomes no nickserv (nickname service) para que não fossem roubados por intrusos. Muita gente usava o nome de seu clã no nick para que todos os seus membros fossem facilmente identificados, formando uma verdadeira gangue virtual. Apesar de parecer algo bobo, era como se estivéssemos vestindo a camisa do nosso time de futebol favorito e sair com os colegas igualmente uniformizados para dar um rolê, só que no ambiente virtual.

5. Guerrilha de flood

Apesar de “floodar” na internet atual significar enviar a mesma mensagem trocentas vezes em um chat, para incomodar mesmo, ou, ainda, se empolgar no Twitter soltando uma sequência gigantesca de posts um atrás do outro, na época do mIRC fazer um flood também era enviar continuamente uma mensagem a outro usuário ou canal, mas com a intenção de sobrecarregar e derrubar sua conexão. Então, uma das grandes trollagens dessa época era iniciar uma guerrilha de flood — o que poderia resultar em punições, como ter a conta bloqueada pela moderação de um canal ou da própria rede. Mas tudo o que é proibido é mais gostoso, não é mesmo?

6. Achar normal levar dias para enviar uma música

Era possível enviar arquivos para outros usuários pelo mIRC, mas não era algo assim tão fácil e rápido como estamos acostumados atualmente. Além de se demorar uma eternidade para conseguir baixar um arquivo .mp3 (e usávamos programas como o Napster para isso), era preciso ter paciência para encaminhá-la ao colega, pois o envio demoraria dias. Mas valia a pena!

Canal para troca de MP3 na Brasnet (Reprodução: Divulgação)

7. Preferir o mIRC puro para ser “roots”

Apesar de os scripts terem ficado bem populares por aqui, muitos usuários preferiam usar o mIRC puro para se achar “roots”, não indo com a onda da galera. E se manjassem de código e programação, ainda personalizavam o software.

8. Xingar muito (mas não no Twitter)

Sempre que o ping demorava demais, a janela de status do usuário mostrava uma mensagem dizendo “Ping? Pong!”. Isso acontecia porque os servidores de IRC precisam enviar um sinal ping para os usuários a cada 180 segundos, para ver se eles ainda estavão realmente conectados. E quando o ping demorava mais do que 180 segundos (timeout), a verificação ficava rolando em loop até que desse certo — e isso era extremamente irritante!

9. EsCrEvEr aSsIm ou 4ss1m

Sabe aquela linguagem usada pelos emos no Fotolog que irritava muita gente, mas eles amavam? Pois os miguxos não foram os primeiros a EsCrEvEr aSsIm ou 4ss1m. Anos antes, o pessoal do mIRC mandava ver escrevendo desse jeito diferentão — e, já naquela época, muita gente também torcia o nariz. Era amar ou odiar.

10. Arrepiar usando caracteres especiais por meio dos códigos ASCII

Scripts eram usados para alterar a formatação dos textos, trocando as cores das letras e deixando palavras em negrito. Isso era legal, mas o que era ainda mais legal era ostentar caracteres especiais usando códigos ASCII — tudo com a ajuda dos scripts, claro. Esses códigos numéricos representam caracteres muito além dos disponíveis no teclado, e, com isso, existiam as “ASCII arts”, que combinavam esses caracteres para criar desenhos, e enviá-los em uma mensagem.

Desenho criado com códigos ASCII no mIRC (Reprodução: Divulgação)

11. Participar dos IRContros

Saudades dos Orkontros? Os encontros organizados por membros das comunidades do finado Orkut não foram os primeiros desse tipo na internet. Na época da Brasnet, o pessoal se reunia por meio dos IRContros para se conhecer e bater um papo também no mundo real. Nesses eventos, a gente se divertia descobrindo a aparência das pessoas por trás dos nicks que víamos todos os dias no programa. E muita gente mantém amizades originadas nesses encontros até hoje em dia!

12. Ninguém sabia o seu nome de verdade

A não ser que você usasse seu verdadeiro nome em seu nick, ninguém sabia como você se chamava de verdade. Você era representado pelo nick escolhido, que virava seu apelido real/oficial. Hoje em dia isso ainda pode acontecer, mas redes sociais como o Facebook, por exemplo, estão cada vez mais exigindo que seja usado o nome verdadeiro em seu perfil, acabando com toda a diversão.

13. Ser kickado de um canal

Tá pensando que o mIRC era bagunça? Pois os “ops”, que monitoravam o canal, estavam sempre de olho no comportamento de todo mundo para garantir que nenhuma regra fosse desrespeitada. Se você fosse um fanfarrão, poderia ser kickado para receber uma advertência, e, caso continuassem se comportando indevidamente, poderia ser banido.

14. A emoção de se tornar um “op”

Os poderosos dos canais eram os “ops”, cujos nicks eram precedidos por um arroba (@), responsáveis por manter a casa em ordem. Eles tinham autonomia para kickar e banir os membros e, com isso, acabavam gerando várias tretas. Muitas inimizades começaram dessa forma.

15. Ter seu status promovido

Outro poder que os “ops” tinham era o de promover o status dos usuários, para que seus nicks subissem na lista de membros do canal e ganhassem destaque. Os sortudos ganhavam um símbolo em frente a seu nick, que podia ser uma @ (para promover outros “ops”) ou um sinal de + (conhecido como voice, para as pessoas que ganhavam alguns poderes no canal; mas a maioria dos voices eram concedidos só para que seu nick subisse na listagem, mesmo).

Na lista de usuários à direita, os "ops" ficam no topo representados por uma arroba, enquanto os outros destacados ganham um sinal de + (Reprodução: Canaltech)

Nostálgico, não? A gente aposta que muitas outras lembranças estão pipocando em sua mente neste momento. Compartilhe suas lembranças da época da Brasnet ou do IRC conosco no campo dos comentários!