Bitcoin ultrapassa US$ 50 mil pela primeira vez. O que vem causando essa alta?

Bitcoin ultrapassa US$ 50 mil pela primeira vez. O que vem causando essa alta?

Por Rui Maciel | 16 de Fevereiro de 2021 às 17h15
Aleksi Räisä

Nesta terça-feira, o Bitcoin bateu um novo recorde: pela primeira vez, a criptomoeda ultrapassou a cotação dos US$ 50 mil (R$ 268,5 mil), em um ritmo de crescimento meteórico que vem acontecendo nos últimos meses.

Para ser mais exato, a mais famosa entre as moedas digitais atingiu o recorde de US$ 50.602, uma alta de 2.7% em relação ao recorde anterior, quando sua cotação alcançou os US$ 49,1 mil. Em 2021, até o momento, a cotação do Bitcoin já subiu cerca de 70%, muito disso impulsionado depois que, na última semana, a Tesla afirmou que comprara US$ 1,5 billhão nesta criptomoeda.

Mas a pergunta principal é: o que vem causando essa ascensão fora do normal na cotação do Bitcoin nos últimos meses?

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Maior aceitação entre investidores e empresas

De forma geral, o Bitcoin vem sendo cada vez mais aceito entre investidores e empresas como uma forma de transação viável. Um bom exemplo disso vem da própria Tesla. Além de investir US$ 1,5 bilhão na criptomoeda, a montadora norte-americana também anunciou que aceitaria a moeda digital como meio de pagamento pelos seus carros elétricos.

E o episódio envolvendo a Tesla foi apenas o mais recente dos movimentos. Também na última sexta-feira (12), a MasterCard anunciou que incluirá as criptomoedas em sua rede de pagamentos. De acordo com postagem em seu blog oficial, a empresa afirmou que está se preparando para dar suporte completo a esse tipo de recurso até o final de 2021, com todas as regras sendo preparadas tanto para estabelecimentos quanto para os clientes.

cOA Mastercard é uma das empresas que disponibilizará pagamentos em criptomoedas em 2021

Além disso, outras duas gigantes da Tecnologia também devem ter maior adesão às moedas digitais. Na última segunda-feira (15), a empresa de serviços financeiros BitPay - voltado ao uso de criptomoedas - anunciou que oferecerá, até o final de março, seu cartão aos usuários do Google Pay e do Samsung Pay nos EUA. Com isso, será possível pagar compras por meio de Bitcoins nas duas plataformas - mas, antes, precisarão convertê-las em outra moeda, como o dólar.

Tais movimentos fazem com que o Bitcoin saia das sombras do mundo financeiro e comece a entrar para os balanços e relatórios das empresas e de Wall Street. Isso porque que empresas americanas, gestores e fundos de investimento mais tradicionais começaram a prestar mais atenção a esse formato e passaram a comprar a moeda digital em questão.

Quanto maior o uso, maior o preço. E os riscos

Esse movimento de adesão por parte do mercado pode ajudar o Bitcoin a se tornar um meio de pagamento cada vez mais difundido - um processo que estava travado nos últimos anos. No entanto, quando maior o seu uso, mais a cotação da criptomoeda tende a subir.

“Quanto mais pessoas se adaptarem e usarem [o Bitcoin] como dinheiro, maiores serão as chances de ele ser aceito como uma moeda corrente”, disse Russ Mold, diretor de investimentos da AJ Bell, em entrevista à agência de notícias Reuters. “Isso alimentaria ainda mais interesse especulativo.”

Aliás, é a alta especulação em torno do Bitcoin que pode representar um risco para o mesmo. Conforme investidores buscam ativos de alto rendimento e alternativas em 2021, a ascensão meteórica da criptomoeda, que foi negociada a algumas centenas de dólares apenas cinco anos antes, também leva grandes bancos de investimento a alertar para uma bolha especulativa.

A Tesla passará a aceitar Bitcoins como forma de pagamento por seus carros elétricos (Imagem: Electrive)

Além disso, mesmo com o Bitcoin tornando-se popular, as criptomoedas continuam tendo uma supervisão irregular em todo o mundo. Não há uma clareza regulatória em relação a elas, sendo que muitas são utilizadas para encobrir transações criminosas, provenientes de lavagem de dinheiro, extorsões online, entre outras práticas, já que rastrear tais operações é bastante complexo. Com isso, muitos investidores maiores continuam desconfiados em relação à exposição negativa que as moedas digitais podem trazer.

Diante do crescimento das criptomoedas e os riscos que elas trazem, a secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, e a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, pediram no mês passado uma supervisão mais rígida do Bitcoin

Outro ponto que preocupa especialistas é a extrema volatilidade do Bitcoin - e outras criptomoedas. Segundo George Lagarias, economista-chefe do grupo de consultoria e contabilidade Mazars, há um sentimento de que "devido à sua volatilidade, o Bitcoin carece de muitas das qualidades estabelecidas que compõe o 'dinheiro', como ser uma reserva estável de valor e unidade de conta”, afirmou ele a Reuters.


Rival digital do ouro?

Uma narrativa em que o Bitcoin se torne uma espécie de “ouro digital” ganhou força à medida que os investidores preveem uma inflação iminente, já que bancos centrais e governos podem continuar abrindo as torneiras de estímulo para conter a crise gerada pela pandemia da COVID-19.

Entre as sugestões feitas pelos analistas, está a de limitar o fornecimento de Bitcoins a 21 milhões de unidades. Isso poderia impulsionar ainda mais os ganhos adicionais para a criptomoeda, fazendo sua cotação disparar mais vertiginosamente.

Em entrevista ao canal CNBC, James Bullard, presidente do Federal Reserve de St. Louis, declarou que a afirmação do Bitcoin como um rival do ouro não ameaçaria o domínio do dólar. Segundo ele, “os investidores querem um porto seguro, querem um valor armazenado estável e, só depois disso, querem conduzir seus investimentos nessa moeda. É muito difícil conseguir que uma moeda privada [no caso o Bitcoin] - que, na verdade, é mais parecida com ouro - desempenhe esse papel”.

Já o banco de investimentos JPMorgan disse em janeiro último que o Bitcoin emergiu como rival do ouro e pode ser negociado por até US $ 146 mil nos próximos meses se ele for estabelecido como um ativo seguro.

Reserva confiável

Ainda em declaração a Reuters, James Butterfill, estrategista de investimento da administradora de ativos digitais CoinShares, afirmou que “a visão fundamental de que o Bitcoin é uma reserva viável de valor entre os investidores e um ativo de tesouraria para corporações continua ganhando força”.

Uma prova disso é que a MicroStrategy, empresa americana de software de inteligência de negócios, afirmou nesta terça-feira que emitiria US$ 600 milhões em dívidas, por meio de notas conversíveis, para comprar bitcoins adicionais. Michael J. Saylor, CEO da companhia, se tornou um dos mais defensores mais ferrenhos do Bitcoin.

Com o valor das criptomoedas próximo a US $ 1,5 trilhão, os investidores alertam sobre o valor de possuir bitcoins ou outras moedas digitais.

“Como um ativo intangível sem rendimento ou uso prático, exceto para algumas organizações que o aceitam como forma de pagamento, é realmente apenas a demanda (contra uma oferta previsível) que determina o seu preço”, continua Lagarias. “Mas, embora o preço do Bitcoin tenha subido aos céus, o valor que se obtém por mantê-lo em uma carteira de longo prazo ainda permanece objeto de muito debate.”

Com informações da Reuters

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