BR lidera busca por trans no RedTube, mas é o país que mais mata transexuais

Por Patrícia Gnipper | 20.07.2017 às 17:38 - atualizado em 20.07.2017 às 17:54

Pode parecer contraditório, mas, enquanto o Brasil é o país que mais comete crimes contra pessoas transexuais nas ruas, o brasileiro é o povo que mais pesquisa vídeos com transexuais e travestis no RedTube. Apesar da aparente contradição, os fatos estão interligados.

O PornHub Insights encabeçou um levantamento específico para analisar o comportamento e as preferências dos brasileiros na plataforma de vídeos pornográficos. Entre uma imensidão de estatísticas, o levantamento deixa claras algumas das maiores preferências dos brasileiros quando decidem procurar conteúdos eróticos. “Você tem 89% mais chances de pesquisar sobre transexuais se vier do Brasil”, afirma a companhia, que se refere a mulheres trans e travestis como “shemale”. O termo comumente usado em sites pornôs mescla as palavras em inglês “she” (“ela”) com “male” (“masculino”) e, por isso, é considerada uma palavra ofensiva - afinal, mulheres transexuais são mulheres, e não “mulheres masculinas” somente por conta de seu órgão genital.

Ainda assim, o termo “shemale” é o quarto tópico mais buscado pelos brasileiros que acessam o RedTube, enquanto o ranking mundial mostra a palavra ocupando o nono lugar. E o Brasil se destaca ainda mais ao analisar as variações do termo, incluindo regionalismos. Na relação dos 30 termos mais buscados pelos usuários brasileiros, vemos palavras como “travesti” e “brazilian shemale”.

O gráfico mostra os termos mais buscados por brasileiros no Redtube (Reprodução: PornHub)

No RedTube, somente um vídeo com a tag “travesti” já teve mais de 450 milhões de visualizações, enquanto, aqui no Brasil, somente nos primeiros 50 dias de 2016 pelo menos 13 pessoas trans foram assassinadas.

Fetichização e transfobia

Segundo uma pesquisa da Transgender Europe, o Brasil é, hoje, o país que mais assassina pessoas transexuais em todo o mundo, depois de registrar 604 assassinatos entre janeiro de 2008 e março de 2014. E esse número vem crescendo ainda mais nos anos mais recentes, sendo que frequentemente nos deparamos com mais e mais notícias sobre pessoas da letra “T” de LGBT sendo mortas por aí. E, além de homicídios, as pessoas trans também sofrem constantes agressões físicas e psicológicas, mesmo que não estejam fazendo “nada de errado”, mas, sim, somente existindo.

Isso tudo diz respeito à transfobia (preconceito para com pessoas transexuais). Quem nunca ouviu alguém se referir a uma mulher cisexual (ou seja, que está de acordo com o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento) que usa muita maquiagem, tem próteses de silicone e veste roupas curtas, como “parece um traveco”? Um simples comentário como este perpetua a transfobia, não somente diminuindo a validade da identidade transexual, como, também reforçando estereótipos de gênero, o que, consequentemente, dá abertura para a ocorrência de violências dos mais diversos tipos.

E a relação entre a transfobia brasileira e a preferência por transexuais nos sites pornôs está interligada de maneira mais íntima do que imaginamos. De um lado, está a busca pelo “estranho”, algo que a pessoa não conhece no “mundo real”, mas tem a oportunidade de ver como é o corpo e a atuação sexual de uma pessoa trans na telinha do computador. Do outro, está a alimentação do ódio.

Explicando, a pessoa transfóbica (ou seja, que odeia e/ou tem medo de travestis e transexuais), ao pesquisar por vídeos pornôs envolvendo essas identidades, pode se sentir excitada com as imagens e, ao rejeitar esse desejo, acaba transformando-o em ódio. Sendo assim, o usuário acaba indo atrás de coisas que ele mesmo não aceita, usando o que viu nos vídeos para justificar ainda mais seu posicionamento preconceituoso.

O ponto de vista de uma transexual brasileira

Conversamos com Leina Ruiz, desenvolvedora de softwares e mulher transexual. Ela, que mora em São Paulo (cidade com a maior quantidade de usuários brasileiros no RedTube), vive na pele essa contradição em que as pessoas, ao mesmo tempo, se atraem por, mas rejeitam a identidade transexual. Pelo fato de ser trans, Leina contou que “as reações são sempre extremas e até voláteis… você é linda e ele quer te namorar, mas, se você fala não, você tem que morrer”. Isso sem falar no tipo de violência psicológica mais comum vivido por essas pessoas, que são tratadas como um fetiche sexual servindo para saciar os desejos masculinos, mas que não servem para um relacionamento sério.

Quando perguntamos se ela consome pornografia, Leina contou que suas preferências são o estilo hentai, ou então vídeos de BDSM, envolvendo, ou não, pessoas trans na jogada. E, quanto às produções eróticas com transexuais, ela não acredita que a pornografia trans seja mais maléfica para com as pessoas trans do que a pornografia com mulheres cis. “Mas, também, não é menos”. Para ela, o problema está na perpetuação de estereótipos, que desumanizam essas pessoas, transformando-as em personagens caricatos. “Mas isso até o Zorra Total faz”, brinca (com fundo de verdade).

Então, pedimos a opinião da programadora sobre como a pornografia envolvendo pessoas trans poderia, de alguma forma, combater esse tipo de violência. Em sua opinião, “a pornografia não tem esse papel social, pois ninguém tira uma lição valiosa vendo um filme pornô”. Ainda assim, Leina acredita que se as pessoas transexuais fossem mostradas na mídia erótica em um escopo mais amplo do que o clichê do “minha secretária tinha um pênis”, sendo retratadas como pessoas diferentes, com corpos e desejos diferentes, mas, ainda assim, humanas, “talvez fôssemos vistas como gente, e não como bonecas infláveis”. Para quem se interessa, Leina ainda recomenda os vídeos de Courtney Trouble, que, em sua opinião, “faz um trabalho lindo captando diversidade, que eu acho bem legal”.